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Dormir com os pés de fora
Na fotografia há uma tenda montada no passeio. Lá dentro, alguém dorme. Os pés ficam de fora, porque a tenda é curta, porque não há outro sítio, porque a rua não foi feita para ninguém se deitar nela. Em português, «dormir com os pés de fora» quer dizer acordar mal-disposto, aborrecido, de mau humor. É uma expressão leve, quase cómica, que usamos para desculpar um mau dia. Esta imagem devolve-lhe o sentido literal e retira-lhe a graça. Há pessoas que dormem, todas as noites,

pedrorodrigues
há 2 dias6 min de leitura


Uma geração que envelheceu sem nome
O envelhecimento das pessoas autistas é um dos territórios menos estudados da investigação sobre a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Durante décadas, o autismo foi concebido como uma condição da infância, e a literatura científica acompanhou essa conceção: a esmagadora maioria dos estudos incidiu sobre crianças e adolescentes, deixando a idade adulta tardia praticamente por descrever (Happé & Charlton, 2012; Michael, 2016). Uma revisão sistemática do campo confirmou q

pedrorodrigues
há 3 dias17 min de leitura


What's up Doc?
Lembro-me perfeitamente de, em criança, andar atrás da minha mãe a perguntar-lhe o que é que eu tinha. Fosse febre, espirros, tosse ou uma dor de barriga, lá andava eu, insistente, à procura de uma resposta que me permitisse perceber o que se passava comigo. A minha mãe tinha sempre alguma coisa para me dizer. Umas vezes, com a firmeza de quem sabia exactamente o que estava a fazer. Outras, com aquela segurança possível de quem não sabe muito bem, mas sabe que não pode deixar

pedrorodrigues
16 de out.10 min de leitura


As meninas de Shukareva: Um bailado russo do autismo
Quando contamos a história do autismo, quase sempre começamos por homens. Falamos dos rapazes autistas, da maior prevalência historicamente encontrada no sexo masculino e dos dois médicos que acabaram por ocupar o centro da narrativa científica, Leo Kanner e Hans Asperger. Durante décadas, foi como se o autismo tivesse sido descoberto duas vezes, primeiro nos Estados Unidos, depois recuperado a partir do trabalho desenvolvido em Viena. Mas antes de ambos houve uma mulher: Gru

pedrorodrigues
14 de out.14 min de leitura


Autismo & Perturbação da Personalidade Borderline: Debaixo do mesmo chapéu?
Assim de repente parecem gémeas! Até o chapéu parece ser o mesmo! O fundo também leva a confundir um pouco! Estas frases ajustadas à fotografia que acompanha este texto podiam perfeitamente adaptar-se ao tema de hoje. Há diagnósticos que podem parecer próximos porque descrevem, à superfície, comportamentos semelhantes. A desregulação emocional, as dificuldades relacionais, a sensação de não saber exactamente quem se é, a impulsividade, a exaustão depois das interacções sociai

pedrorodrigues
18 de set.14 min de leitura


Devem-me 14 anos de vida
"...But it's been 14 years of silence It's been 14 years of pain It's been 14 years that are gone forever And I'll never have again, well..." 14 years, Guns n' Roses (1991) Depois da pandemia devido à COVID-19 passei a dizer, ainda que em tom de brincadeira, que a vida me devia dois anos! Ao escrever este texto, pensei inúmeras vezes nessa etapa e no que eu e tantas outras pessoas sentimos, nomeadamente a angústia de sentir que não se estava a fazer aquilo que era habitual, e

pedrorodrigues
17 de set.8 min de leitura


Como treinar o seu dragão não autista
Há uma espécie de paradoxo na forma como falamos sobre autismo. Passamos uma parte considerável do nosso tempo a ensinar pessoas autistas a compreender o mundo. Ensinamos competências sociais, comunicação, reconhecimento de emoções, leitura de expressões faciais, contacto ocular, regras implícitas das relações, flexibilidade, tolerância à mudança. Ensinamos a pessoa autista a aproximar-se do mundo. Mas quem ensina o mundo a aproximar-se da pessoa autista? A pergunta pode pare

pedrorodrigues
15 de set.11 min de leitura


Psicologia, para que te quero?
Psicologia, para que te quero? Não é de agora que esta pergunta me acompanha. Provavelmente, as perguntas verdadeiramente importantes são precisamente aquelas que não desaparecem depois de encontrarmos uma resposta. São aquelas que regressam, por vezes com as mesmas palavras, outras vezes com uma formulação ligeiramente diferente, porque, entretanto, mudámos nós, mudou o contexto ou mudou aquilo que procuramos compreender. Lembro-me de ter feito esta pergunta ainda antes

pedrorodrigues
13 de set.11 min de leitura


Autismo amarelo
Hoje, 10 de setembro, assinala-se o Dia Mundial para a Prevenção do Suicídio. O tema escolhido pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio para este triénio é "Mudar a Narrativa sobre o Suicídio", um convite a falar sobre este tema de forma mais aberta, mais informada e menos envolta em silêncio e tabu. E há poucas narrativas tão urgentes de mudar como a que envolve o autismo. Os números, quando olhamos para eles com atenção, são difíceis de ignorar. Um estudo

pedrorodrigues
10 de set.4 min de leitura


Diagnóstico diferencial entre Perturbação do Espectro do Autismo e Perturbações da Personalidade
O início deste ano lectivo coincide com um conjunto de iniciativas e eventos desenvolvidos junto de profissionais de saúde, nomeadamente psicólogos e psiquiatras, para o tema do autismo no adulto. É fundamental continuar a desenvolver e partilhar entre profissionais que trabalham directamente com pessoas autistas adultas, mas também com todos os outros que vão acabar por receber estas pessoas em consulta, um maior e melhor conhecimento acerca do autismo do adulto. Para além d

pedrorodrigues
9 de set.10 min de leitura


O Autismo n’Adulto responde: É possível ser autista e só descobrir na idade adulta?
Sim. É possível. E acontece mais vezes do que poderíamos imaginar. Esta é uma pergunta que já foi muitas vezes feita e respondida. Ainda assim, continua a fazer sentido colocá-la. Talvez porque, para muitas pessoas, a possibilidade de serem autistas só surge quando a vida adulta começa a tornar visíveis algumas dificuldades que, durante muitos anos, foram explicadas de outras formas. Há adultos que chegam ao diagnóstico depois de décadas a pensar que eram apenas demasiado sen

pedrorodrigues
2 de set.2 min de leitura


O Autismo n' Adulto responde
E se a sua pergunta sobre autismo pudesse encontrar uma resposta? Ainda hoje, demasiadas pessoas autistas chegam à idade adulta com perguntas para as quais nunca encontraram um espaço seguro, acessível e cientificamente informado onde procurar respostas. Perguntas sobre relações, trabalho, universidade, sensibilidade sensorial, comunicação, emoções, diagnóstico, masking, sobrecarga, identidade, rotinas, funções executivas ou simplesmente sobre aquelas situações do quotidiano

pedrorodrigues
31 de ago.2 min de leitura


Porquê inovarmos para a neurodiversidade?
Talvez a verdadeira inovação não consista em criar um mundo novo, mas em aprender a reconhecer de outra forma as pessoas que já fazem parte dele. Não é de agora que a palavra inovação entrou no nosso léxico. Durante muito tempo, associámo-la sobretudo ao desenvolvimento tecnológico, à criação de novos produtos, à inteligência artificial, à automatização ou à capacidade de produzir mais e melhor com menos recursos. Porém, reduzir a inovação à tecnologia será talvez uma das for

pedrorodrigues
29 de ago.8 min de leitura


Quando o diagnóstico ameaça a pessoa que construí de mim
Há pessoas que chegam à idade adulta com uma certeza difícil de explicar: sempre sentiram que havia alguma coisa diferente na forma como habitavam o mundo. Não sabiam necessariamente o que era. Não tinham uma palavra para isso. Não possuíam uma explicação clínica, nem um modelo psicológico que organizasse aquilo que sentiam. Tinham, sobretudo, uma experiência. São pessoas que chegam a esta altura da sua vida com uma pergunta que nunca deixou verdadeiramente de as acompanhar:

pedrorodrigues
20 de ago.9 min de leitura


Am I too black to be autistic?
Some questions should never have to be asked. Yet some questions are born precisely from the impossibility of being adequately seen. Am I too Black to be autistic? is one of them. It is not a biology question. Autism does not become more or less probable according to the colour of someone's skin. It is a question about recognition. About who is allowed to occupy the cultural image of autism. About who is believed when they describe their own experience. About whose difference

pedrorodrigues
17 de ago.20 min de leitura


O último autista
I. A última consulta Quando Ernesto entrou na consulta, já toda a humanidade tinha sido diagnosticada. Era uma manhã vulgar. Na sala de espera havia apenas uma cadeira. Não porque o hospital fosse pequeno. Porque já ninguém esperava. Durante cinquenta anos o mundo fizera da procura de pessoas autistas uma missão colectiva. Não por maldade. Nem sequer por excesso de zelo. Apenas porque existe uma estranha necessidade humana de acreditar que tudo o que causa sofrimento acabará

pedrorodrigues
16 de ago.10 min de leitura


Meio-autismo
Na maior parte das vezes falo sobre meio-autismo. E não sou o único. O que é que eu quero dizer com isto de meio-autismo? Simples. A prevalência de diagnósticos de Perturbação do Espectro do Autismo cifra-se em cerca de 1% da população mundial. Desta percentagem, entre 31% e 50% apresentam uma Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental associada. Provavelmente, estamos a falar daquelas pessoas autistas que se enquadram dentro de um nível de suporte 2 e 3. Mas não estamos a fa

pedrorodrigues
13 de ago.8 min de leitura


Conhecimento autístico e conhecimento sobre o autismo: quem tem autoridade para conhecer?
Falar sobre autismo é também falar sobre conhecimento. Quem pode dizer o que é o autismo? Quem tem autoridade para explicar aquilo que uma pessoa autista sente, pensa, deseja ou necessita? Poderá alguém conhecer verdadeiramente uma experiência que nunca viveu? E, inversamente, será que viver uma experiência é suficiente para compreender tudo aquilo que essa experiência significa? Estas perguntas parecem, à primeira vista, pertencer ao domínio da filosofia. Na realidade, têm c

pedrorodrigues
12 de ago.11 min de leitura


Quando o Autismo Encontra a Psicose: Onde Termina um e Começa o Outro?
À medida que a psicose se desenvolvia, comecei a perceber o mundo como algo intensamente significativo, como se conseguisse perceber aquilo que os outros não conseguiam. Os padrões pareciam surgir em todo o lado: as canções alinhavam-se com os meus pensamentos, os números repetiam-se, as coincidências pareciam mensagens. Uma capacidade autista de reconhecer padrões tornou-se uma vulnerabilidade. Se algo acontecesse duas vezes, parecia uma prova, e as conclusões pareciam lógic

pedrorodrigues
11 de ago.10 min de leitura


Quando a ansiedade vive dentro do autismo
“Isso não parece ansiedade.” Talvez seja uma das frases que mais frequentemente uma pessoa autista ouve quando tenta explicar aquilo que sente. Porque, afinal, parece que já sabemos o que é a ansiedade. É o coração acelerado, a preocupação, o medo, o aperto no peito, a antecipação de que alguma coisa pode correr mal. Sabemos reconhecê-la, sabemos nomeá-la e, aparentemente, sabemos até como deve ser sentida. Mas e se aquilo que uma pessoa autista descreve não encaixar exactame

pedrorodrigues
9 de ago.9 min de leitura
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