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Do que me vale ter aprendido a nadar num tanque se afinal passamos maior parte da vida no mar?
Há uma estranha ironia no modo como falamos hoje de autismo. Nunca soubemos tanto. Nunca diagnosticámos tão cedo. Hoje conseguimos identificar sinais consistentes de autismo a partir dos 24 meses de idade. Nunca tivemos tantos modelos de intervenção precoce, tantos protocolos adaptados às crianças e às famílias, tanta produção científica, tanta formação, tantos discursos sobre inclusão. As escolas aprenderam novas palavras. As universidades começaram a construir gabinetes de

pedrorodrigues
há 5 horas3 min de leitura


O que quer realmente a sociedade quando fala de inclusão?
Vivemos numa época em que a inclusão se tornou uma das palavras mais repetidas no discurso público. Está em todo o lado. Nas escolas, nas universidades, nas empresas, nos congressos internacionais, nas campanhas institucionais, nos programas políticos e nas redes sociais. A inclusão tornou-se quase uma obrigação moral colectiva, uma espécie de valor consensual que poucos ousariam questionar. E, no entanto, talvez esteja precisamente na altura de começarmos a questionar o que

pedrorodrigues
11 de mai.3 min de leitura


O degelo autista
Todos nós temos ouvido cada vez mais falar do degelo que afecta glaciares, o Ártico e a Antártida. Assim como o quanto este fenómeno acelera a subida do nível do mar, ameaçando cidades costeiras, altera correntes oceânicas e liberta gases de efeito de estufa ao derreter o permafrost. Mas o que é que o autismo tem a ver com o degelo? Ou como é que se descongela o autismo? Se chegou até aqui merece que eu lhe diga que não há degelo nenhum autista e muito menos se descongela o

pedrorodrigues
9 de mai.4 min de leitura


Os colonizados
Em criança ninguém queria ser dos indios quando brincavamos aos cowboys. Até porque diziamos e perguntavamos se os outros queriam brincar ao cowboys e nunca aos indios. Ainda que houvesse uns que faziam questão de dizer que era aos Indios e cowboys. E se algum adulto porventura perguntava a um de nós porque ninguém queria ser dos indios, a resposta era imediata - os indios perdem sempre no fim. Ou então era referido que nos filmes os ínidios eram sempre os maus. Isto durou as

pedrorodrigues
5 de mai.4 min de leitura


A minha viagem
Há vidas que não se contam em linha recta. Há percursos que se desenham em curvas, em desvios, em silêncios longos e em tentativas de tradução de um mundo que, desde cedo, parece falar uma língua ligeiramente diferente. O mapa da vida da pessoa autista nasce muitas vezes assim: fragmentado, intenso, povoado por perguntas que não encontram resposta imediata. Antes do diagnóstico, há frequentemente uma sensação persistente de desencontro. A criança que observa mais do que parti

pedrorodrigues
4 de mai.2 min de leitura


Mãe autista
Hoje, em Portugal, celebramos o Dia da Mãe. Celebramos o gesto que embala, a presença que sustenta, o amor que se constrói nos detalhes invisíveis do quotidiano. Ser mãe é, tantas vezes, uma experiência que escapa às palavras. Um território íntimo onde o tempo ganha outra densidade e o vínculo se torna linguagem. Ser mãe autista é habitar esse território com uma intensidade própria. Não é apenas uma extensão da maternidade, é uma reconfiguração profunda da forma de sentir, pe

pedrorodrigues
3 de mai.3 min de leitura


Autistic workers of the world unite!
1 de Maio. Celebramos o trabalho, a dignidade e o direito à participação plena na vida colectiva. Mas há um silêncio persistente que este dia não pode continuar a ignorar. Falamos de trabalhadores autistas. Falamos dos cerca de 80% de adultos autistas que não estão empregados, muitos deles com qualificações elevadas, percursos académicos exigentes, competências técnicas sólidas. Pessoas que querem trabalhar, que procuram contribuir, que insistem apesar de portas que permanece

pedrorodrigues
1 de mai.2 min de leitura


Segurar Histórias, Construir Caminhos
Hoje, 30 de abril, encerra-se simbolicamente um mês dedicado à consciencialização do autismo. Trinta dias de partilha, de informação clínica e científica, sustentada por uma visão integradora, mas profundamente humana, da pessoa autista. Um esforço contínuo para contrariar a desinformação persistente, que ainda circula com facilidade, muitas vezes sem rigor, outras sem sensibilidade. Ao longo deste percurso, procurei não apenas esclarecer, mas também dar visibilidade a uma vi

pedrorodrigues
30 de abr.2 min de leitura


Doi-me a vergonha
Doi-me a vergonha! disse Ana (nome fictício) de 43 anos. Que disparate é esse rapariga! dizia-lhe a mãe! Doer-te a vergonha! continuava a mãe. Completo disparate! continuava. Sim, doi-me! reafirmava Ana, disposta a dizer tudo aquilo que não tinha dito. Eu lembro-me das vezes em que tu e o pai me deixavam ficar atrás de vocês quando iamos passear na rua e depois não me apresentavam às outras pessoas! começa a dizer Ana. Como assim, nós pensavamos que tu não querias ou gostavas

pedrorodrigues
29 de abr.5 min de leitura


A liberdade do autismo
Há datas que não são apenas memória, são respiração colectiva. O 25 de Abril é uma dessas datas, um pulsar contínuo que atravessa gerações, renovando a promessa de liberdade, dignidade e igualdade. Nas ruas, os cravos vermelhos florescem todos os anos como sinais de um país que escolheu romper com o silêncio. Contudo, sob esse mesmo céu de celebração, persistem vozes cuja liberdade permanece incompleta, subtilmente limitada, por vezes invisível. Entre essas vozes estão muitas

pedrorodrigues
25 de abr.2 min de leitura


Entre o Conhecimento e a Palavra: Contributos para uma Democracia Viva e uma Cidadania Inclusiva
No Dia Mundial do Livro, sob o mote “Democracia e Cidadania”, detenho-me num gesto simples, mas carregado de significado: segurar nas mãos duas obras que representam caminhos distintos, embora profundamente entrelaçados. Num lado, o rigor da ciência aplicada à compreensão do autismo no adulto. No outro, a liberdade da criação literária, onde a língua se expande, respira e se reinventa. A democracia não se constrói apenas nas instituições. Constrói-se, sobretudo, no acesso equ

pedrorodrigues
23 de abr.2 min de leitura


Autismo invisível: Quando a cor também silencia
Abril convida à reflexão, mas também à ampliação do olhar. Falar de autismo implica, inevitavelmente, questionar quem está a ser visto, quem continua invisível e quais os filtros através dos quais reconhecemos o outro. Em Portugal, apesar de uma história profundamente marcada pela multiculturalidade e pela relação com os países africanos de língua oficial portuguesa, persiste um silêncio inquietante quando se trata do autismo em pessoas de cor. Se já é amplamente reconhecida

pedrorodrigues
15 de abr.3 min de leitura


A Inclusão Não Se Declara, Pratica-se
Abril é frequentemente marcado por campanhas, iluminações simbólicas e discursos que evocam a consciencialização para o autismo. Contudo, para a pessoa autista adulta, a distância entre o que se proclama e o que se vive permanece, demasiadas vezes, inaceitavelmente ampla. Este texto não é dirigido às pessoas autistas. É dirigido a si, que ensina, recruta, emprega, trata, protege e decide. É dirigido a quem tem poder real de transformar ou perpetuar barreiras. Na universidade,

pedrorodrigues
13 de abr.3 min de leitura


Há livros que informam. E há livros que acompanham
Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas , publicado pela Editora PACTOR ( ver aqui ) , nasce com essa intenção: não ser apenas um recurso pontual, mas uma presença contínua no pensamento clínico, na prática profissional e na vivência das próprias pessoas autistas. Num tempo em que o autismo é cada vez mais discutido, sobretudo em momentos específicos de consciencialização, este livro propõe algo diferente. Propõe continuidade. Propõe profundidade. Propõe um olhar

pedrorodrigues
12 de abr.1 min de leitura


Rodrigo Tramonte
Estávamos em 2020 em plena pandemia COVID 19. Conheci o Rodrigo Tramonte nas minhas pesquisas e deambulações pela internet. Humor Azul era o nome do seu livro. Descubra o lado engraçado do autismo , dizia. Fiquei imediatamente preso naquela ideia. Este texto não é sobre o Rodrigo Tramonte, até porque eu não o conheço assim tão aprofundadamente a esse ponto, mas também é sobre o Rodrigo Tramonte. Sobre aquilo que paira na vida de várias pessoas autistas. Já agora, a caricatur

pedrorodrigues
11 de abr.4 min de leitura


Juntos pela saúde, ao lado da ciência
O Dia Mundial da Saúde assinala-se este ano sob o lema “Juntos pela saúde, ao lado da ciência”, um apelo claro à responsabilidade colectiva na construção de respostas informadas, éticas e sustentadas pelo conhecimento científico. Num tempo marcado pela rápida circulação de informação, mas também pela persistência de narrativas erróneas, este compromisso torna-se particularmente relevante quando falamos de autismo. A evidência científica tem vindo a demonstrar, de forma consis

pedrorodrigues
7 de abr.3 min de leitura


Do que me vale chegar novamente à Lua se continuamos a negar direitos humanos fundamentais às pessoas autistas?
Do que me vale chegar novamente à Lua se continuamos a negar direitos humanos fundamentais às pessoas autistas? esta é uma pergunta deixada por uma pessoa autista adulta. Há um fascínio quase hipnótico na ideia de regressar à Lua. Algo que em principio será conseguido hoje pela segunda vez na história da humanidade. Um símbolo de conquista, de engenho humano, de superação dos limites do possível. Celebramos o avanço tecnológico como um triunfo coletivo, como prova de que a hu

pedrorodrigues
6 de abr.3 min de leitura


Compreender o Autismo no Adulto na Prática Clínica
Num contexto clínico cada vez mais sensível à diversidade humana, a compreensão da Perturbação do Espectro do Autismo em adultos constitui um desafio exigente, mas também uma oportunidade transformadora para profissionais de saúde. Durante décadas, o foco diagnóstico centrou-se sobretudo na infância, contribuindo para a invisibilidade de muitos adultos autistas. Este vazio histórico tem consequências clínicas relevantes, nomeadamente diagnósticos tardios, percursos marcados p

pedrorodrigues
6 de abr.3 min de leitura


Se um elefante incomoda muita gente, ...
Estamos a caminhar a passos largos para o mês da consciencialização do autismo, tal como esta manada de elefantes neurodivergentes na foto que acompanha o texto de hoje. Mas do que nos vale continuarmos a celebrar o dia ou o mês da consciencialização se depois continuamos com o elefante na sala? Bem sei que são muitas metáforas, mas eu explico. O número de diagnósticos no neurodesenvolvimento cresce. No caso do autismo, as pessoas adultas e principalmente as mulheres é onde

pedrorodrigues
30 de mar.5 min de leitura


Descolonização sensorial
Apaga a luz! dizia já pela terceira vez. Apaga-a, por favor. Já não a aguento mais! suplicava. As olheiras era mais que muitas. Agora não digas nada! sussurrou. Fechou os olhos. Os estores estavam completamente para baixo. Já me tinha dito no passado que a luz tem um ruído muito característico. Não tinha frigorifico. Fazia muito barulho. Além disso a restrição alimentar fazia com que não necessita-se dele. Chegou a gravar-me um audio do ruido do frigorifico e depois editou-o

pedrorodrigues
28 de mar.5 min de leitura
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