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O custo do autismo
Muitos já ouviram o velho ditado: “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Talvez, porém, valha a pena abrir uma exceção e olhar com atenção para aquilo que a investigação espanhola nos pode ensinar sobre uma realidade que também é nossa. Frequentemente afirmo que Portugal continua a navegar praticamente às cegas em áreas fundamentais da vida das pessoas autistas. Não dispomos de dados nacionais robustos sobre empregabilidade, desemprego, abandono escolar no ensino super

pedrorodrigues
há 1 dia4 min de leitura


Envelhecer não pode ser apenas sobreviver
Há poucos dias, o Presidente da República voltou a chamar a atenção para uma realidade que há muito deixou de ser uma exceção para se tornar um sintoma estrutural das fragilidades do país: os chamados internamentos sociais. Pessoas idosas que permanecem em camas hospitalares apesar de já não necessitarem de cuidados médicos diferenciados. A alta clínica foi dada, mas a alta social não existe. Não há resposta na comunidade, não há vaga numa estrutura residencial, não há apoio

pedrorodrigues
há 2 dias4 min de leitura


Empregabilidade de pessoas com deficiência
Pensei em vários títulos para este texto. Considerei expressões como E Quando a Maçã Tem Bicho: A Realidade Oculta da Inclusão de Pessoas com Deficiência ou A Semente da Maçã de Newton: Quanto Tempo Demora a Crescer a Árvore da Inclusão?. Contudo, trata-se de um tema já suficientemente envolto em subjectividades, interpretações e discursos bem-intencionados. Por isso, optei pela clareza. Este texto chama-se simplesmente: Empregabilidade de Pessoas com Deficiência. Confesso qu

pedrorodrigues
há 4 dias5 min de leitura


Autismo e o Sistema de Justiça
No passado domingo, no decorrer do lançamento do livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas, o Gustavo Jesus, Psiquiatra e Director clínico do PIN Lisboa, colocava-me a seguinte questão: Num livro dedicado à intervenção psicológica com a pessoa autista adulta, porquê de haver uma secção inteira dedicada ao Autismo e o Sistema de Justiça? A questão merece ser respondida. Mais do que isso, merece continuar a ser colocada. A justiça ocupa um lugar central numa so

pedrorodrigues
há 6 dias5 min de leitura


A minha mãe trocou o velhinho frigorifico Liebherr modelo de 1931
Não, não estamos a fazer uma campanha promocional de frigoríficos vintage. Este é o modelo Liebherr de 1931, precisamente o mesmo ano em que nasceu Virginia S., a sexta criança descrita por Leo Kanner no artigo de 1943 que viria a marcar, para sempre, a história do autismo. Uma coincidência quase cruel. Um frigorífico de 1931 acabou por se tornar símbolo involuntário de uma das teorias mais devastadoras alguma vez projetadas sobre famílias de pessoas autistas: a teoria da “mã

pedrorodrigues
28 de mai.4 min de leitura


Autismo no adulto: Previsão metereológica
Existem várias imagens que vão ficando associadas ao autismo. A já habitual peça de puzzle, ainda que cada vez mais em desuso. Ou o também conhecido símbolo de infinito com uma palete de cores neurodiversas. Mas também é habitual verificarmos a ideia do chapéu de chuva. Seja antes de 2013, na DSM-IV-TR, quando existiam vários diagnósticos distintos relacionados com o autismo. Seja depois de 2013, quando na DSM-5 passaram a existir os três diferentes níveis de suporte no diagn

pedrorodrigues
28 de mai.5 min de leitura


Os 60%: a fronteira burocrática da dignidade
A meteorologia tem andado instável, incerta, ora faz calor, ora promete chuva. Mas não é sobre o tempo que venho partilhar ideias, mas sim sobre o atestado multiuso e mais especificamente o valor de 60%. Foi noticiado hoje no jornal Expresso que as vagas do contingente especial para o Ensino Superior, prioritário para candidatos com deficiência, estão reservadas para os estudantes que façam prova de ter um atestado multiuso com um valor igual ou superior a 60%. A notícia, ape

pedrorodrigues
27 de mai.6 min de leitura


Presença sem pertença
"Passei anos a acreditar que o problema era eu não gostar suficientemente de pessoas. Hoje percebo que muitas vezes o problema era outro: estar constantemente em espaços onde tinha de esconder partes de mim para ser aceite. Há uma diferença enorme entre estar presente e sentir pertença", refere Osvaldo (nome fícticio), pessoa autista com 47 anos. Há uma ideia persistente quando se fala de autismo: a de que a pessoa autista vive isolada do mundo. Como se o isolamento fosse um

pedrorodrigues
26 de mai.4 min de leitura


Joana não vás com as outras
A frase costuma ser “Maria vai com as outras”. Hoje, porém, importa falar de uma Joana. Mais precisamente, de uma Jane. Quanto mais aprofundo a leitura da história do autismo, mais me convenço de que fomos conduzidos, ao longo de décadas, a olhar para um determinado retrato do autismo. Um retrato construído a partir de escolhas clínicas, científicas, políticas e culturais muito específicas. Não apenas sobre quem era observado, mas também sobre quem era ignorado. Não apenas so

pedrorodrigues
23 de mai.5 min de leitura


Atlântico Neurodivergente: identidade, linguagem e as múltiplas formas de existir
Portugal e Brasil partilham mais do que uma língua. Partilham uma história longa, complexa e profundamente entrelaçada, construída ao longo de séculos através de encontros humanos, deslocações, conflitos, afetos, perdas e transformações mútuas. Há algo de paradoxal nesta relação: somos simultaneamente próximos e diferentes, familiares e estrangeiros, semelhantes na origem e distintos na expressão. A língua portuguesa talvez seja o símbolo mais evidente dessa proximidade. No e

pedrorodrigues
22 de mai.3 min de leitura


O meu Punch chama-se ToM
“Quando era criança diziam que eu era fria porque não gostava de abraços. O que ninguém percebia é que o toque me queimava por dentro quando estava sobrecarregada. Eu queria proximidade, só não conseguia recebê-la da forma que esperavam.”, Cláudio (nome fícticio), pessoa autista hoje com 32 anos referindo-se a si quando era criança Certamente estão recordados do episódio do macaco bebé de nome Punch que viralizou nas redes sociais pela sua aparente necessidade de procura de c

pedrorodrigues
21 de mai.5 min de leitura


Do que me vale ter aprendido a nadar num tanque se afinal passamos maior parte da vida no mar?
Há uma estranha ironia no modo como falamos hoje de autismo. Nunca soubemos tanto. Nunca diagnosticámos tão cedo. Hoje conseguimos identificar sinais consistentes de autismo a partir dos 24 meses de idade. Nunca tivemos tantos modelos de intervenção precoce, tantos protocolos adaptados às crianças e às famílias, tanta produção científica, tanta formação, tantos discursos sobre inclusão. As escolas aprenderam novas palavras. As universidades começaram a construir gabinetes de

pedrorodrigues
18 de mai.3 min de leitura


O que quer realmente a sociedade quando fala de inclusão?
Vivemos numa época em que a inclusão se tornou uma das palavras mais repetidas no discurso público. Está em todo o lado. Nas escolas, nas universidades, nas empresas, nos congressos internacionais, nas campanhas institucionais, nos programas políticos e nas redes sociais. A inclusão tornou-se quase uma obrigação moral colectiva, uma espécie de valor consensual que poucos ousariam questionar. E, no entanto, talvez esteja precisamente na altura de começarmos a questionar o que

pedrorodrigues
11 de mai.3 min de leitura


O degelo autista
Todos nós temos ouvido cada vez mais falar do degelo que afecta glaciares, o Ártico e a Antártida. Assim como o quanto este fenómeno acelera a subida do nível do mar, ameaçando cidades costeiras, altera correntes oceânicas e liberta gases de efeito de estufa ao derreter o permafrost. Mas o que é que o autismo tem a ver com o degelo? Ou como é que se descongela o autismo? Se chegou até aqui merece que eu lhe diga que não há degelo nenhum autista e muito menos se descongela o

pedrorodrigues
9 de mai.4 min de leitura


Os colonizados
Em criança ninguém queria ser dos indios quando brincavamos aos cowboys. Até porque diziamos e perguntavamos se os outros queriam brincar ao cowboys e nunca aos indios. Ainda que houvesse uns que faziam questão de dizer que era aos Indios e cowboys. E se algum adulto porventura perguntava a um de nós porque ninguém queria ser dos indios, a resposta era imediata - os indios perdem sempre no fim. Ou então era referido que nos filmes os ínidios eram sempre os maus. Isto durou as

pedrorodrigues
5 de mai.4 min de leitura


A minha viagem
Há vidas que não se contam em linha recta. Há percursos que se desenham em curvas, em desvios, em silêncios longos e em tentativas de tradução de um mundo que, desde cedo, parece falar uma língua ligeiramente diferente. O mapa da vida da pessoa autista nasce muitas vezes assim: fragmentado, intenso, povoado por perguntas que não encontram resposta imediata. Antes do diagnóstico, há frequentemente uma sensação persistente de desencontro. A criança que observa mais do que parti

pedrorodrigues
4 de mai.2 min de leitura


Mãe autista
Hoje, em Portugal, celebramos o Dia da Mãe. Celebramos o gesto que embala, a presença que sustenta, o amor que se constrói nos detalhes invisíveis do quotidiano. Ser mãe é, tantas vezes, uma experiência que escapa às palavras. Um território íntimo onde o tempo ganha outra densidade e o vínculo se torna linguagem. Ser mãe autista é habitar esse território com uma intensidade própria. Não é apenas uma extensão da maternidade, é uma reconfiguração profunda da forma de sentir, pe

pedrorodrigues
3 de mai.3 min de leitura


Autistic workers of the world unite!
1 de Maio. Celebramos o trabalho, a dignidade e o direito à participação plena na vida colectiva. Mas há um silêncio persistente que este dia não pode continuar a ignorar. Falamos de trabalhadores autistas. Falamos dos cerca de 80% de adultos autistas que não estão empregados, muitos deles com qualificações elevadas, percursos académicos exigentes, competências técnicas sólidas. Pessoas que querem trabalhar, que procuram contribuir, que insistem apesar de portas que permanece

pedrorodrigues
1 de mai.2 min de leitura


Segurar Histórias, Construir Caminhos
Hoje, 30 de abril, encerra-se simbolicamente um mês dedicado à consciencialização do autismo. Trinta dias de partilha, de informação clínica e científica, sustentada por uma visão integradora, mas profundamente humana, da pessoa autista. Um esforço contínuo para contrariar a desinformação persistente, que ainda circula com facilidade, muitas vezes sem rigor, outras sem sensibilidade. Ao longo deste percurso, procurei não apenas esclarecer, mas também dar visibilidade a uma vi

pedrorodrigues
30 de abr.2 min de leitura


Doi-me a vergonha
Doi-me a vergonha! disse Ana (nome fictício) de 43 anos. Que disparate é esse rapariga! dizia-lhe a mãe! Doer-te a vergonha! continuava a mãe. Completo disparate! continuava. Sim, doi-me! reafirmava Ana, disposta a dizer tudo aquilo que não tinha dito. Eu lembro-me das vezes em que tu e o pai me deixavam ficar atrás de vocês quando iamos passear na rua e depois não me apresentavam às outras pessoas! começa a dizer Ana. Como assim, nós pensavamos que tu não querias ou gostavas

pedrorodrigues
29 de abr.5 min de leitura
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