O caso do girassol escondido
- pedrorodrigues

- há 36 minutos
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Muitos de vocês saberão que o girassol é a imagem escolhida das pessoas com deficiência oculta. Inclusive, alguns de vocês já têm uma fita para usar ao pescoço com girassóis e com um cartão identificativo da respectiva condição para usar, por exemplo, quando se deslocam nos aeroportos. Em relação a esta situação ouvi, na maior parte das vezes, boas experiências, tendo sido providenciada uma resposta adequada a muitas das necessidades das pessoas em questão. Como em tudo, também há experiências menos boas em que, apesar desta identificação e da sua visibilidade, para além da advertência da pessoa que a usava, ainda assim não foi possível receber essa mesma resposta.
Contudo, a questão que quero trazer não se esgota apenas neste exemplo, nem no facto de a grande maioria das vezes ter funcionado. Até porque há todo um conjunto de outras situações onde o uso desta fita e respectiva identificação pode e deve ser usado. Na verdade, pode e deve ser utilizado em qualquer situação sempre que necessário.
Contudo, quando pergunto às pessoas autistas se a usariam no seu quotidiano, a resposta não é assim tão consensual, ainda que reconheçam o benefício da fita. Atendendo a que nos vamos aproximando do dia 2 de Abril, data frequentemente associada à consciencialização do autismo, o tema pareceu-me pertinente. Até porque continuamos sem ter uma noção minimamente próxima da realidade relativamente às pessoas autistas, assim como às pessoas com deficiência oculta. Quando perguntamos às pessoas não autistas se conhecem adultos autistas, é muito comum ouvirmos uma resposta negativa.
Curiosamente, muitas dessas pessoas já estiveram ao lado de adultos autistas inúmeras vezes sem o saberem. Trabalham com eles, cruzam-se com eles nos transportes públicos, fazem compras na mesma fila de supermercado, partilham salas de espera em hospitais ou repartições públicas. O autismo adulto continua, em grande medida, invisível. Não apenas porque muitas características não são imediatamente perceptíveis, mas também porque muitas pessoas autistas aprenderam, ao longo da vida, a esconder aquilo que poderia denunciá-las.
É neste ponto que o girassol ganha uma dimensão quase paradoxal. Ele foi criado para tornar visível o que não se vê. Porém, para muitas pessoas autistas, usá-lo implica tornar pública uma parte de si que durante décadas foi treinada para permanecer escondida.
Algumas dizem-no de forma muito directa. “Se usar a fita, sinto que estou a anunciar algo que nem sempre quero explicar.” Outras referem um receio mais difuso. “Tenho medo de que as pessoas passem a olhar para mim de forma diferente.” Há ainda quem acrescente uma preocupação muito prática. “E se a pessoa que está do outro lado não souber o que significa o girassol?”
Estas respostas revelam algo importante. A utilidade de um símbolo não depende apenas da sua existência, depende também do contexto social que o envolve. Um símbolo só funciona plenamente quando é compreendido.
Quando isso acontece, pequenos gestos podem fazer uma diferença enorme. Um funcionário que fala de forma mais clara. Um tempo de espera reduzido. A possibilidade de sair momentaneamente de um ambiente demasiado estimulante. A aceitação de que alguém precisa de repetir uma pergunta ou de alguns segundos adicionais para processar uma informação.
Mas quando o símbolo não é reconhecido, o girassol transforma-se quase num segredo. Um sinal que está à vista de todos e, ainda assim, permanece invisível.
Talvez seja por isso que tantas pessoas autistas vivem numa espécie de equilíbrio delicado entre revelar e ocultar. Entre a necessidade de apoio e o receio de exposição. Entre o desejo de ser compreendido e a experiência repetida de não o ser.
O caso do girassol escondido fala precisamente deste ponto intermédio. Não apenas da existência de um símbolo, mas da distância que ainda existe entre ter um símbolo e viver numa sociedade capaz de o compreender.
Porque, no fundo, o desafio não está apenas em colocar mais girassóis ao pescoço das pessoas. O verdadeiro desafio está em fazer com que a sociedade aprenda finalmente a reconhecê-los quando eles já lá estão.




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