Autismo invisível: Quando a cor também silencia
- pedrorodrigues

- há 3 dias
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Abril convida à reflexão, mas também à ampliação do olhar. Falar de autismo implica, inevitavelmente, questionar quem está a ser visto, quem continua invisível e quais os filtros através dos quais reconhecemos o outro. Em Portugal, apesar de uma história profundamente marcada pela multiculturalidade e pela relação com os países africanos de língua oficial portuguesa, persiste um silêncio inquietante quando se trata do autismo em pessoas de cor.
Se já é amplamente reconhecida a dificuldade em identificar o espectro do autismo em adultos, e de forma ainda mais acentuada nas mulheres, importa ir mais longe. A evidência científica tem vindo a demonstrar, de forma consistente, um enviesamento histórico no diagnóstico, centrado sobretudo em indivíduos caucasianos do sexo masculino. Este padrão não é neutro. Ele molda critérios, instrumentos de avaliação e, sobretudo, expectativas clínicas e sociais. Quando o referencial dominante é limitado, tudo o que foge a esse modelo torna-se mais difícil de reconhecer.
Neste contexto, as pessoas de cor autistas encontram-se num ponto de intersecção particularmente vulnerável. Não apenas pertencem a uma minoria racial no contexto português, como enfrentam uma segunda camada de invisibilidade associada ao neurodesenvolvimento. Esta dupla marginalização traduz-se em atrasos significativos no diagnóstico, em interpretações erróneas dos seus comportamentos e numa menor probabilidade de acesso a apoio adequado.
No quotidiano clínico e social, não é raro que características do espectro do autismo em pessoas de cor sejam desvalorizadas, reinterpretadas à luz de estereótipos culturais ou confundidas com respostas emocionais associadas a experiências de discriminação. Por exemplo, o retraimento social pode ser lido como desconfiança aprendida, a comunicação directa pode ser interpretada como oposição, e a sobrecarga sensorial pode ser confundida com irritabilidade ou instabilidade emocional. Estas leituras não são apenas imprecisas, são profundamente injustas.
A realidade portuguesa acrescenta camadas específicas a esta problemática. Muitas famílias oriundas dos PALOP vivem ainda em contextos socioeconómicos mais vulneráveis, com menor acesso a serviços especializados e com barreiras acrescidas no contacto com o sistema de saúde. A isto somam-se factores culturais, como diferentes concepções sobre saúde mental e desenvolvimento, que podem atrasar a procura de apoio ou dificultar o reconhecimento precoce de sinais de alerta.
Além disso, a escassez de representação na literatura científica e nos discursos públicos reforça a ideia de que o autismo tem uma “face única”. Quando não nos vemos representados, torna-se mais difícil nomear a experiência, procurar ajuda ou sequer considerar a hipótese de um diagnóstico. Esta ausência não é apenas estatística, é simbólica. Ela comunica, silenciosamente, quem pertence e quem permanece à margem.
Escutar as vozes de pessoas autistas de cor adultas permite compreender, de forma mais concreta, o impacto desta dupla estigmatização:
“Passei anos a ouvir que era apenas tímido ou distante. Nunca consideraram que pudesse ser algo mais. Acho que, para muitos, uma pessoa como eu simplesmente não encaixa na ideia de autismo.”
“Sempre senti que tinha de me adaptar duas vezes. Primeiro, por ser diferente numa sociedade que nem sempre acolhe quem tem a minha cor de pele. Depois, por tentar esconder algo que nem eu próprio sabia nomear.” António (nome fictício), homem autista de 47 anos.
“Quando finalmente recebi o diagnóstico, já em adulto, senti alívio. Mas também revolta. Quantas oportunidades perdi por ninguém ter olhado para mim com a atenção certa?” Cristiano (nome fictício) homem autista de 21 anos.
“No meu percurso, o problema nunca foi apenas ser autista. Foi ser autista num corpo que já era, por si só, alvo de julgamento.” Célia (nome fictício), mulher autista de 29 anos.
Estas narrativas não são exceções isoladas. São expressões de uma realidade que exige reconhecimento urgente. Falar de autismo em pessoas de cor não é fragmentar a discussão, é torná-la mais completa, mais justa e mais próxima da diversidade humana que efectivamente existe.
Neste mês de consciencialização, o desafio que se coloca à sociedade portuguesa, e em particular aos profissionais de saúde, educação e intervenção social, é claro: alargar o olhar, rever práticas, questionar pressupostos. Reconhecer o autismo em toda a sua diversidade implica também reconhecer os limites dos modelos actuais e a necessidade de os transformar.
A inclusão não se constrói apenas com boas intenções. Constrói-se com conhecimento, escuta activa e compromisso com a equidade. E, sobretudo, com a coragem de ver quem, durante demasiado tempo, permaneceu invisível.




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