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Rodrigo Tramonte

Estávamos em 2020 em plena pandemia COVID 19. Conheci o Rodrigo Tramonte nas minhas pesquisas e deambulações pela internet. Humor Azul era o nome do seu livro. Descubra o lado engraçado do autismo, dizia. Fiquei imediatamente preso naquela ideia.


Este texto não é sobre o Rodrigo Tramonte, até porque eu não o conheço assim tão aprofundadamente a esse ponto, mas também é sobre o Rodrigo Tramonte. Sobre aquilo que paira na vida de várias pessoas autistas. Já agora, a caricatura que acompanha este texto e que me acompanha desde 2020 não é o Rodrigo Tramonte, mas sim a minha pessoa. Quando conheci o Rodrigo, conheci-o pelo facto de ser uma pessoa autista adulta, mas também por ser cartoonista e autor do livro Humor Azul. Depois de termos feito a nossa Live em Julho de 2020 encomendei-lhe uma caricatura da minha pessoa.


Em vários momentos li nas palavras do Rodrigo o desalento de sentir que as pessoas apenas iam ao seu encontro devido à sua capacidade fantástica de desenhar e enquanto profissional da área. Muitos de nós podia pensar - E então, qual é o problema? Porquê o desalento? Não é uma coisa boa? Até pode ser uma vantagem profissional? Ainda mais sendo uma pessoa autista, conhecerem-o pela sua competência de desenho é uma mais valia! Estas e outras frases eram lidas nas caixas de comentários do Rodrigo quando este manifestava algum do seu desalento.


Todos nós somos mais do que isso, sejamos autistas ou não autistas. Somos mais do que fazemos, seja profissionalmente ou não. Eu próprio costumo dizer que o primeiro quarto da minha vida vivenciei-a como pessoa e não como psicólogo. E mesmo hoje depois de mais um quarto dela vivida também como psicólogo, ainda assim, sou sempre mais do que isso. E se você que está a ler este texto é psicólogo, quantas vezes não pensou no quanto frustrante é quando os seus amigos e outros conhecidos vão ter consigo pelo facto de ser psicólogo? E poderiamos pensar o mesmo para Contabilistas na altura de colocar o IRS. Ou advogado quando o seu inquilino não quer pagar a renda! Ou médico quando a avó de alguém precisa de uma consulta de urgência para se saber o que se passa. Todos nós fazemos algo, seja uma profissão ou outro algo que possa ser uma competência com determinado valor.


Quando faço uma comunicação sobre o autismo no adulto seja mais relacionado com o contexto universitário, profissional, pessoal ou social, é frenquente as pessoas na audiência perguntarem como poderão saber e/ou fazer algo de forma mais adequada em relação à pessoa autista. A minha primeira resposta é - Perguntem à própria pessoa. Esta é autoridade sobre si mesma! Esta tem agência sobre a sua pessoa. Mesmo quando se percebe que a pessoa possa ter determinadas características ou que naquele momento possa sentir maior desafio em fornecer uma resposta. A minha resposta continua a ser a mesma - Perguntem à pessoa! E por favor, não digam que não adiantou de nada porque a pessoa autista não respondeu e que por isso tiveram de fazer da vossa própria maneira, como que justificando a vossa própria falta de capacidade e/ou disponibilidade para ir ao encontro do tempo e da sensibilidade da pessoa autista. É desafiante? Sim, é desafiante. Mas é porque as relações são desafiantes, e não pelo facto de estar a relacionar-nos com uma pessoa autista.


É precisamente neste ponto que importa alargar o olhar. Durante demasiado tempo, o discurso em torno do autismo tem-se centrado quase exclusivamente nos chamados interesses restritos, no hiperfoco, nas particularidades cognitivas e comportamentais que compõem o perfil do espectro. Embora estas características possam, em determinados contextos, ser relevantes para a compreensão clínica e funcional, tornam-se redutoras quando passam a ser o principal, ou único, prisma através do qual a pessoa é vista.


Para muitas pessoas autistas, esta lente constante sobre o “funcionamento” ou sobre aquilo que as distingue acaba por gerar uma experiência de invisibilidade noutras dimensões fundamentais da sua identidade. Como se o seu valor relacional, emocional, ético ou até existencial fosse secundário face à sua competência técnica, ao seu talento específico ou às suas particularidades neurológicas. É aqui que emerge, não raras vezes, uma frustração silenciosa, difícil de traduzir em palavras, mas profundamente sentida.


O foco reiterado no hiperfoco pode, paradoxalmente, tornar-se uma forma de simplificação excessiva. Ao enfatizar apenas aquilo que a pessoa faz de forma intensa ou diferenciada, corre-se o risco de ignorar aquilo que a pessoa sente, deseja, teme ou ambiciona para si própria. E esta omissão não é neutra. Ela molda a forma como os outros se aproximam, como interagem e como constroem expectativas.


Tal como no exemplo anteriormente referido, quando alguém se aproxima predominantemente pela utilidade, pela competência ou pelo talento, está, ainda que de forma não intencional, a limitar o espaço de encontro humano. A relação passa a estar ancorada no fazer e não no ser. E isto, para qualquer pessoa, é empobrecedor. Para muitas pessoas autistas, pode ser particularmente desgastante, porque reforça uma sensação de ser constantemente interpretado a partir de fora, em vez de verdadeiramente conhecido a partir de dentro.


Importa, por isso, introduzir uma mudança de paradigma. Em vez de perguntarmos apenas “quais são os interesses desta pessoa?” ou “como funciona o seu perfil?”, talvez devêssemos perguntar “quem é esta pessoa?”, “como se experiencia a si própria no mundo?” e “de que forma deseja ser reconhecida nas suas relações?”. Estas questões não excluem a dimensão clínica ou funcional, mas integram-na numa compreensão mais ampla, mais humana e mais ética.


Reconhecer a pessoa para além do rótulo, para além da competência e para além da característica, implica disponibilidade para a incerteza, para o tempo e para a construção gradual de significado na relação. Implica aceitar que nem tudo será imediatamente acessível ou compreensível. Mas é precisamente nesse espaço, menos imediato e mais relacional, que se torna possível um encontro mais autêntico.


E talvez seja esse o verdadeiro desafio, não apenas no autismo, mas em qualquer relação humana, conseguir ver o outro para além daquilo que é mais visível, mais útil ou mais facilmente nomeável. Conseguir sustentar a complexidade de alguém que é sempre mais do que qualquer descrição, diagnóstico ou talento.


 
 
 

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