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Cérebros há muitos, formas de compreender o Mundo ainda mais!!

Antes de falarmos sobre doenças neurológicas, importa falar sobre cérebros. Porque a saúde do cérebro não se mede apenas pela ausência de patologia. Mede-se também pela capacidade da sociedade de compreender que existem diferentes formas do cérebro funcionar.


No Dia Mundial do Cérebro, celebrado este ano sob o lema "Saúde do Cérebro: Acesso para Todos", somos convidados a refletir sobre um desafio que continua a ser profundamente negligenciado: a iliteracia neurológica.


Continuamos a olhar para o cérebro como se existisse apenas uma forma "normal" de perceber, interpretar e responder ao mundo. No entanto, a ciência tem vindo a demonstrar precisamente o contrário. A diversidade neurológica faz parte da condição humana.


No caso das pessoas autistas, esta realidade torna-se particularmente evidente. O autismo não é apenas um conjunto de comportamentos observáveis. É uma forma distinta de organização neurológica. Significa que a informação sensorial pode ser processada de maneira diferente, que as emoções podem ser experienciadas com intensidades particulares, que a comunicação pode seguir outras lógicas e que a construção do significado sobre si próprio, sobre os outros e sobre o mundo acontece através de percursos neurocognitivos diferentes.


Quando uma pessoa autista interpreta literalmente uma frase, quando necessita de previsibilidade, quando se sente profundamente sobrecarregada por estímulos que passam despercebidos à maioria das pessoas, ou quando encontra interesses que desenvolve com enorme profundidade, não estamos perante uma falta de vontade, uma dificuldade de carácter ou uma incapacidade de adaptação. Estamos perante uma neurologia diferente a produzir uma experiência diferente da realidade.


O problema raramente reside apenas nessa diferença. O problema surge quando insistimos em interpretar essa experiência através de um modelo único de funcionamento cerebral. Quando esperamos que todos processem a informação da mesma forma, comuniquem da mesma forma ou demonstrem emoções da mesma forma, transformamos a diferença em deficiência. Muitas das dificuldades vividas pelas pessoas autistas não resultam exclusivamente da sua condição neurológica, mas da incompatibilidade entre o seu modo de funcionamento e um mundo desenhado para um único perfil neurológico.


Reduzir a iliteracia neurológica significa, por isso, compreender que um cérebro diferente não é um cérebro errado. Significa reconhecer que existem múltiplas formas de aprender, de comunicar, de sentir, de pensar e de estabelecer relações. Significa abandonar a ideia de que compreender o outro implica que ele se torne semelhante a nós. Pelo contrário, compreender exige a disponibilidade para aceitar que o outro pode construir a realidade de forma diferente, sem que essa realidade seja menos válida.


A saúde do cérebro para todos só será verdadeiramente alcançada quando o acesso ao conhecimento acompanhar o acesso aos cuidados. Quando profissionais, escolas, famílias, empregadores e a sociedade em geral compreenderem que a diversidade neurológica não representa uma exceção à humanidade, mas uma das suas expressões mais legítimas.


Celebrar o Dia Mundial do Cérebro é também celebrar a extraordinária diversidade de cérebros que existem entre nós. Porque promover a saúde cerebral não é apenas tratar doenças. É construir uma sociedade capaz de reconhecer que diferentes formas de funcionar dão origem a diferentes formas de existir. E todas elas merecem ser compreendidas, respeitadas e incluídas.


 
 
 

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