O viés de género no reconhecimento do autismo
- pedrorodrigues

- há 5 dias
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Na prática clínica, é frequente profissionais de saúde receberem homens e mulheres com perfis muito semelhantes, dificuldades sociais persistentes, necessidade de previsibilidade, sensibilidades sensoriais, interesses intensos e exaustão associada ao esforço de adaptação e, ainda assim, formularem hipóteses diagnósticas diferentes. Num homem, estas características podem conduzir mais rapidamente à consideração de perturbação do espetro do autismo; numa mulher, podem ser atribuídas, antes de mais, a ansiedade, perfeccionismo, timidez ou dificuldades emocionais. Este padrão não resulta necessariamente de menor rigor ou boa intenção, mas de vieses aprendidos que importa tornar visíveis e questionar.
A Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) é diagnosticada mais frequentemente em homens do que em mulheres. Esta diferença não pode ser interpretada automaticamente como uma diferença na presença de características autistas. A investigação aponta para a possibilidade de subdiagnóstico, diagnóstico tardio e interpretações clínicas enviesadas nas mulheres, influenciados por modelos historicamente centrados em apresentações masculinas, por expectativas sociais de género e por estratégias de camuflagem.
As duas vinhetas seguintes são um convite a reflectir sobre esse processo.
Caso A e Caso B: o que mudou?
No Caso A, Miguel, de 32 anos, descreve dificuldades persistentes em compreender regras sociais implícitas, necessidade de previsibilidade, mal-estar perante mudanças inesperadas, interesses específicos e intensos, sensibilidades sensoriais e esforço deliberado para observar e imitar comportamentos sociais. Mantém poucas relações próximas e relata exaustão após exigências sociais e profissionais.
No Caso B, Inês, também de 32 anos, apresenta exactamente as mesmas características: dificuldade em compreender expectativas sociais não explícitas, necessidade de estrutura e previsibilidade, desconforto perante mudanças, interesses específicos e intensos, sensibilidades sensoriais, poucas relações próximas e esforço significativo para reproduzir comportamentos sociais considerados socialmente esperados.
A diferença entre os casos não está nas características clínicas relevantes. Está no nome, no género atribuído à pessoa e em pequenas alterações de linguagem usadas para descrever experiências equivalentes.
Que hipótese colocou primeiro?
Ao ler o Caso A, pensou mais depressa em PEA? E, ao ler o Caso B, considerou inicialmente ansiedade, perfeccionismo, timidez, obsessões, dificuldades relacionais ou exaustão emocional?
Estas hipóteses podem coexistir com a PEA e devem ser avaliadas com cuidado. O problema surge quando são usadas para encerrar prematuramente a exploração diagnóstica numa mulher, enquanto características equivalentes num homem são reconhecidas como indicadores de autismo.
Vale a pena questionar:
Se tivesse lido o Caso B primeiro, teria considerado uma avaliação de PEA?
Que palavras influenciaram mais a minha interpretação: “directo” ou “fria”; “organiza detalhadamente” ou “ansiosa”; “imita comportamentos sociais” ou “procura integrar-se”?
Estou a interpretar uma estratégia de adaptação como prova de ausência de dificuldades?
Espero que uma pessoa autista apresente sinais visíveis, constantes e estereotipados?
Dou o mesmo peso clínico ao impacto funcional, à história de desenvolvimento e ao esforço de camuflagem, independentemente do género da pessoa?
Quando uma mulher mantém contacto visual, tem relações, trabalha ou comunica de forma articulada, assumo demasiado depressa que a PEA fica excluída?
A camuflagem não elimina a dificuldade
Muitas pessoas autistas aprendem a observar, ensaiar e reproduzir comportamentos sociais para responder às expectativas do contexto. Isto pode incluir preparar conversas, imitar expressões ou formas de interacção, seguir guiões sociais e esconder sobrecarga sensorial ou emocional.
Estas estratégias podem tornar as dificuldades menos visíveis para terceiros, mas não significam necessariamente que deixaram de existir. Pelo contrário, podem estar associadas a fadiga intensa, ansiedade, sensação de não autenticidade e dificuldades que só se revelam quando a pessoa descreve o esforço necessário para “parecer bem”.
Uma avaliação mais justa
Uma avaliação de PEA no adulto não deve assentar numa impressão rápida nem numa lista rígida de comportamentos esperados. Deve considerar a história de desenvolvimento, a comunicação e interacção social, os interesses e padrões de comportamento, o perfil sensorial, as estratégias de adaptação e o impacto destas características na vida quotidiana.
O género não deve determinar a probabilidade de uma hipótese diagnóstica. Perante características clínicas equivalentes, a pergunta central não é “isto parece autismo numa mulher ou num homem?”, mas sim: “como se manifestam estas características nesta pessoa, qual é o seu impacto e que explicação clínica as integra melhor?”
Reconhecer os próprios vieses não é uma falha profissional. É uma parte essencial de uma prática clínica mais atenta, equitativa e rigorosa.




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