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#InternationalWomensDay

O Dia Internacional das Mulheres convida, todos os anos, a um momento de reflexão sobre o percurso histórico das mulheres e sobre os desafios que persistem. Ao longo de décadas, e mesmo de séculos, as mulheres tiveram de reivindicar espaço, voz e reconhecimento num mundo que frequentemente lhes atribuiu papéis limitados. A luta pela igualdade, pela autonomia e pela valorização da experiência feminina continua a ser necessária, porque muitas das estruturas sociais que moldaram essas desigualdades ainda permanecem presentes no quotidiano.


Quando olhamos para a realidade do autismo no feminino, percebemos que estas duas histórias, a da condição autista e a da experiência social de ser mulher, se entrelaçam de forma profunda. Durante muito tempo, o autismo foi descrito e estudado sobretudo a partir de perfis masculinos. Consequentemente, inúmeras mulheres autistas passaram despercebidas, muitas vezes durante anos ou décadas, sem um reconhecimento adequado da sua condição.


Esta invisibilidade não surge apenas de uma falha científica ou clínica. Ela nasce também das expectativas sociais historicamente associadas ao que significa ser mulher. A sociedade construiu um conjunto de crenças sobre como as mulheres devem comportar-se, comunicar e relacionar-se com os outros. Essas crenças acabam por esconder ou reinterpretar características que, noutro contexto, poderiam ser compreendidas como expressões do espectro do autismo.


Por exemplo, quando uma mulher autista demonstra capacidade de interação social, frequentemente essa característica é interpretada como algo esperado do género feminino. A ideia cultural de que as mulheres são naturalmente mais sociáveis ou empáticas leva muitas vezes a que os sinais de esforço, adaptação ou camuflagem passem despercebidos. Em vez de se reconhecer o trabalho interno necessário para sustentar essas interações, assume-se simplesmente que corresponde ao comportamento esperado de uma mulher.


Por outro lado, quando uma mulher autista se apresenta mais reservada, silenciosa ou observadora, essa postura também pode ser facilmente enquadrada nos modelos tradicionais de feminilidade, que durante muito tempo valorizaram a discrição, a docilidade e o recato. Assim, comportamentos que poderiam levantar questões clínicas são frequentemente interpretados como traços de personalidade compatíveis com o papel social atribuído às mulheres.


Este duplo enquadramento contribui para um fenómeno bem conhecido entre muitas mulheres autistas, o da invisibilidade diagnóstica. Muitas crescem a sentir que algo na sua experiência interna é diferente, mas sem encontrar explicações ou validação. Outras desenvolvem estratégias intensas de adaptação social, frequentemente designadas por camuflagem ou masking, que lhes permitem responder às expectativas externas, embora à custa de um enorme desgaste emocional e psicológico.


A esta realidade soma-se ainda o estigma associado ao autismo. Mesmo quando o diagnóstico surge, muitas mulheres enfrentam preconceitos ou incompreensão sobre o que significa ser autista. Persistem ideias simplistas que associam o autismo apenas a determinados perfis comportamentais, ignorando a diversidade de formas como esta condição se manifesta.


Celebrar o Dia Internacional das Mulheres também como um dia de reconhecimento das mulheres autistas é, por isso, um gesto de justiça e de visibilidade. Significa reconhecer que as suas experiências foram durante demasiado tempo ignoradas ou mal interpretadas. Significa também afirmar que compreender o autismo no feminino exige escutar as suas vozes, valorizar as suas narrativas e questionar as expectativas sociais que contribuíram para a sua invisibilidade.


A luta pela igualdade das mulheres não se esgota nas grandes conquistas históricas. Ela continua nos detalhes do quotidiano, na forma como escutamos, diagnosticamos, investigamos e acolhemos a diversidade humana. Entre essas lutas está também a de garantir que nenhuma mulher autista permanece invisível, silenciada ou incompreendida.


Que este dia seja, portanto, mais do que uma celebração. Que seja também um convite à consciência, à mudança e ao reconhecimento pleno das mulheres autistas, da sua identidade, das suas experiências e do lugar que lhes pertence na construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.


 
 
 

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