Mais do que palavras
- pedrorodrigues

- 20 de fev.
- 5 min de leitura
Nada como uma boa balada para começar um texto. Além de ser uma oportunidade para parabenizar o Nuno Bettencourt pelo prémio recentemente ganho pela sua actuação no último concerto de Ozzy Osbourne.
Posto isto, deixem-me dizer que em criança quando colocava o gira discos a tocar uma destas ou outras baladas miticas dos Scorpions e o meu inglês ainda não estava sequer apurado quanto está hoje, balbuciava, grunhia ou gemia algumas coisas que pensava ser aquilo que o vocalista estava a dizer. E mesmo que pensasse que não o era, sei que o sentimento estava todo lá. O que me leva a pensar que as palavras ou designações que usamos não significam somente aquilo que está a ser dito.
Bem sei que o tema está algo desgastado, assim como alguns dos meus albuns de vinil, ainda que toquem como nunca tendo em conta que a agulha e o gira-discos são de excelente qualidade. Como tal, reconheço o woke como um acordar necessário para uma narrativa que vinha a crescer e que ainda se encontra por cá. Ainda que veja que certos "despertares" possam ser menos justificados. Mas é mesmo assim que as mudanças e o crescimento da sociedade se faz com esses constantes ajustes, tal como os acordes de uma balada.
Em várias áreas, mas na psicologia especificamente, temos todo um conjunto de palavras ou designações, que elas próprias estão carregadas de significados com multipas interpretações. Sejam elas feitas por profissionais da áreas, ainda que com uma formação de base diferente. Mas também pelas próprias pessoas que se apropriam das próprias palavras e as vão transformando no seu significado. Sendo que algumas delas vão ficando desgastadas e perdendo algum do seu real significado, importância e impacto causado, como é o caso das palavras depressão ou ataque de pânico. Enquanto que outras passaram a ser sentidas como o mais vil dos ataques desferidos contra uma pessoa, como por exemplo, esquizofrénico ou autista.
Mas também temos outras categorias de palavras ou designações, e algumas delas repetem-se nestes diferentes clusters, como por exemplo as designações, problemas comportamentais ou impulsividade. Ou então, a ainda discussão do usar a designação pessoa autista ou pessoa com autista. Que apesar de alguns dizerem que é algo mais consensual, ainda recentemente a investigação cientifica na área em particular veio demonstrar que não é assim tão consensual, mesmo quando vista dentro da própria comunidade autista. Tal como a utilização da designação pessoa com deficiência continua a levantar os pêlos do braço de algumas pessoas, tal como algumas questões mais conceptuais.
Nesta altura compreendo que algumas pessoas já cansadas destes avanços e recuos possam dizer que mais vale nos deixarmos destes preciosismos e wokismo e arranjemos uma só palavra e já está. Mas a vida das pessoas e o comportamento humano não é assim tão linear e nunca o foi.
Mas o certo é que as palavras usadas para descrever as pessoas com deficiência e várias das suas características podem influenciar as atitudes do público, as decisões políticas e a identidade pessoal. Por exemplo, a própria utilização que eu fiz da palavra características é reflexo disso. Por exemplo, ainda hoje continuamos a encontrar a designação sintomas ou deficit entre outros. E não vou, pelo menos, não agora ou neste texto, debruçar-me sobre a validade clinica e cientifica deste ou outros termos. Mas o certo é que a utilização da palavra características, sintomas ou deficit não é igualmente aceite e muito menos neutra.
Em particular, a linguagem usada para descrever o autismo desempenha um papel fundamental na formação de como as pessoas autistas são percebidas, tratadas e apoiadas. Por exemplo, designações como «pessoa autista» (identidade em primeiro lugar) ou «pessoa com autismo» (pessoa em primeiro lugar) têm implicações substanciais para a defesa, o diagnóstico. Por exemplo, a própria palavra designações muitas vezes encontramos a palavra rótulos a substitui-la, o que leva a incrementar todo um conjunto de reacções e atitudes na maior parte das vezes negativa e prejudiciais para as pessoas.
Outras designações como auto ou hetero-agressões, auto-dano, etc., é uma terminologia usada para descrever uma gama de comportamentos que pode moldar a forma como médicos, educadores e cuidadores os compreendem e tratam, bem como influenciar políticas públicas relacionadas. Por exemplo, rotular ou designar um comportamento como «perigoso» em vez de «desafiador» pode evocar medo em vez de compaixão. Alternativamente, rotular ou designar um comportamento como «perigoso» poderia legitimamente destacar a importância de reduzir ou tratar o comportamento para melhorar a segurança e a qualidade de vida da pessoa (por exemplo, bater a cabeça intensamente pode levar ao descolamento da retina). Em resposta contrastante, alguns investigadores e clinicos pediram a remoção de termos como «comportamento desafiador» e «comportamento problemático» do discurso profissional, argumentando que tais rótulos contribuem para o estigma das pessoas descritas.
Com estes avanços e recuos não deixou de pensar mais uma vez naqueles que apontam o dedo ao que pode ser chamado de uma grande trapalhada e atrapalhação e que não é benéfico para ninguém. Até porque corremos o risco de ficarmos muitos de nós num impasse narrativo, para além de incorrermos na pena de haver uma salganhada de designações e rotulagens usados nos mais diversos contextos e que traz uma verdadeira sensação de estarmos numa novela bíblica de Babel pintada por Bosch.
Alguns dirão que estas e outras designações são clinicas, médicas ou psicológicas, cientificas, e como tal é assim que se devem manter e/ou ser usadas sem outras alterações ou adaptapações. Contudo, cada vez mais, estas e outras designações são vistas como de todos, até porque têm impacto e fazem parte da vida de cada um de nós. Contudo, esta ideia é perigosa, porque leva a que diferentes pessoas e com diferentes metodologias queiram fazer uso ou construir designações que depois se verifcam que não são condizentes e muitas vezes até são contraditórias. Por exemplo, termos como comportamento problemático e comportamento desafiador, podem ser considerados como designações patologizantes e perpetuar suposições discriminatórias, especialmente quando usados para descrever comportamentos como a estereotipia nas pessoas autistas. Contudo, sabemos que alguns destes comportamentos estereotipados traduzem-se em comportamentos desafiadores e problemáticos quando são comportamentos auto ou hetero-agressivos.
Talvez a metáfora musical continue a servir-nos. Uma balada não é apenas a letra, nem apenas a melodia. É a harmonia entre ambas. Na ciência e na clínica, as palavras são a letra. A investigação e a prática são a melodia. Se uma se sobrepõe à outra, a música perde força. Se conseguirmos afiná-las, mesmo com ajustes constantes, aproximamo-nos de uma prática simultaneamente rigorosa, crítica e profundamente humana.
E talvez seja isso que nos cabe fazer, continuar a afinar, sem medo de rever acordes, mas também sem esquecer que, no centro de qualquer discussão terminológica, estão pessoas concretas, com histórias que não cabem numa única palavra.




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