De olhos bem fechados
- pedrorodrigues

- há 3 dias
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De olhos bem fechados (Eyes Wide Shut) nada tem a ver com o filme de 1999 de Stanley Kubrick. Ou talvez tenha, na medida em que o filme é um constante confronto entre a realidade e o oniricio. E no caso deste texto temos um constante confronto entre a realidade das pessoas com deficiência e aquilo que é mencionado como desejado, recomendado, legislado, etc.
Mas também tem a ver com aquilo que se diz sobre o assunto. Tal como uma boa ou má critica de um filme escrita num jornal ou rede social pode levar ou desviar milhares de pessoas de ir ver o filme. Também aqui a forma como se escreve e ou fala sobre as pessoas com deficiência enviesa a maneira de pensar de muitos, fere as pessoas, principalmente as pessoas com deficiência, e não consciencializa ou mobiliza para fazer diferente.
Na foto que acompanha este texto, retirada de um órgão de comunicação social - SIC Noticias, podemos ler Quando a deficiência fecha portas no mercado de trabalho, é preciso quebrar preconceitos.
Eu não sei por vocês, mas eu não conheço nenhuma deficiência que feche o que quer que seja e muito menos portas. Que eu tenha conhecimento, quem fecha as portas no mercado de trabalho são principalmente os empregadores, que por medo da diferença, ignorância, desconhecimento, falta de vontade em querer conhecer mais sobre as pessoas com deficiência, não promove de uma forma clara a empregabilidade inclusiva. E mesmo que a própria lei o mande, neste caso especifico a Lei nº 4/2019, pelo menos para determinadas empresas, ainda assim assistimos a uma escassa mobilização do mercado de trabalho para as pessoas com deficiência.
Temos todos, pessoas com deficiência e sem deficiência, de continuar a fazer a diferença dentro daquilo que é o nosso papel. Informar mais e melhor é uma delas. E também por isso é que no Autismo n'Adulto temos disponibilizado informação para ajudar a consciencializar sobre o autismo, pessoas autistas e pessoas com deficiência de uma maneira geral.
No que diz respeito à consciencialização da comunicação social, temos disponivel no nosso site o programa (gratuito) - Autismo na Comunicação Social: Sensibilização e Boas Práticas para Jornalistas (ver aqui).
No entanto, sensibilizar não é apenas disponibilizar recursos, guias ou programas formativos. Sensibilizar implica, antes de mais, uma mudança de olhar. Implica deslocarmo-nos de uma perspetiva assistencialista, muitas vezes impregnada de paternalismo, para uma perspetiva verdadeiramente baseada em direitos humanos, onde a pessoa com deficiência não é vista como objeto de cuidado, mas como sujeito de pleno direito, com voz, agência e lugar na comunidade.
A comunicação social tem, por isso, uma responsabilidade acrescida. Não apenas a de informar, mas a de informar com rigor, com consciência ética e com um compromisso inequívoco com a dignidade humana. As palavras não são neutras. Constroem realidades, moldam representações sociais e influenciam decisões, desde as mais quotidianas às mais estruturais. Quando se insiste numa narrativa centrada na limitação, no défice ou na excecionalidade, perpetua-se uma visão redutora que obscurece a complexidade e a singularidade de cada pessoa.
Por outro lado, quando se comunica a deficiência apenas através de histórias de superação quase heroicas, ainda que bem-intencionadas, corre-se o risco de criar um padrão irrealista que coloca sobre a pessoa com deficiência o ónus de ter de ser extraordinária para ser reconhecida. Nem heroísmo nem tragédia. O que está em causa é, antes de tudo, humanidade.
Importa também questionar até que ponto continuamos a confundir igualdade com uniformidade. Promover a inclusão não significa tratar todos da mesma forma, mas garantir que cada pessoa tem acesso às condições de que necessita para participar plenamente na vida social e profissional. Isto exige adaptações razoáveis, abertura organizacional e, sobretudo, uma cultura que reconheça o valor da diversidade como um fator de enriquecimento coletivo e não como um problema a gerir.
No contexto laboral, falar de empregabilidade inclusiva não pode limitar-se ao cumprimento mínimo da lei ou à lógica das quotas. Deve traduzir-se numa estratégia sustentada, pensada a médio e longo prazo, que envolva lideranças, equipas e políticas internas. Empresas verdadeiramente inclusivas não são aquelas que apenas integram pessoas com deficiência, mas aquelas que se transformam para que essa integração seja natural, produtiva e respeitadora.
Há ainda um outro aspeto que merece reflexão: quantas oportunidades continuam por criar porque se parte do pressuposto de que não serão viáveis? Quantos talentos permanecem invisíveis porque nunca lhes foi dada a possibilidade de se mostrarem? O potencial humano não é uma abstração; perde-se todos os dias quando a sociedade opta pelo conforto do já conhecido em vez da coragem de experimentar caminhos diferentes.
Talvez, então, “de olhos bem fechados” não seja apenas uma expressão feliz para provocar reflexão. Talvez descreva, com desconfortável precisão, a forma como continuamos, tantas vezes, a não querer ver aquilo que está diante de nós. Abrir os olhos exige disponibilidade para rever crenças, reconhecer erros e aceitar que a inclusão é um processo, não um destino já alcançado.
Que este abrir de olhos não seja momentâneo, motivado apenas por datas simbólicas ou por ciclos mediáticos. Que seja, antes, um exercício contínuo de responsabilidade individual e coletiva. Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não se mede pelo que proclama, mas pelo que pratica, todos os dias, nos seus múltiplos espaços de participação.




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