A natureza das emoções
- pedrorodrigues

- há 1 dia
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As emoções fazem parte da arquitetura mais profunda da experiência humana. São sinais internos que nos informam sobre aquilo que é significativo, aquilo que nos ameaça, aquilo que desejamos preservar ou transformar. Funcionam como um sistema de orientação subtil, mas poderoso, ajudando-nos a interpretar o mundo e a ajustar o nosso comportamento em relação aos outros e a nós próprios.
Contudo, este processo nem sempre é imediato ou intuitivo para todas as pessoas.
Para muitos adultos no espectro do autismo, as emoções podem surgir como fenómenos difíceis de nomear, localizar ou compreender. Por vezes são sentidas com grande intensidade, mas sem uma tradução clara em palavras. Outras vezes manifestam-se como um desconforto difuso, uma tensão corporal ou um cansaço inexplicável. Não se trata de ausência emocional, como ainda persistem alguns equívocos sociais, mas frequentemente de uma diferença na forma como a experiência emocional é processada e organizada internamente.
“Sinto tudo com muita força, mas se me perguntarem o que estou a sentir, fico em silêncio. É como tentar descrever uma cor que ainda não tem nome.”
Reconhecer uma emoção implica várias etapas invisíveis: notar as alterações no corpo, associá-las a um estado interno, encontrar um nome para esse estado e perceber o que o desencadeou. Este encadeamento pode exigir um esforço cognitivo considerável. Quando falamos de alexitimia, uma característica presente em muitas pessoas autistas, referimo-nos precisamente a esta dificuldade em identificar e descrever estados emocionais. Importa sublinhar que a alexitimia não define a pessoa nem limita a sua capacidade de sentir. Antes aponta para uma necessidade acrescida de ferramentas de tradução emocional.
Miguel, 34 anos, descreve frequentemente um “ruído interno” após dias socialmente exigentes. Não o associa de imediato a ansiedade. Apenas sabe que o corpo fica rígido, o pensamento mais lento e a tolerância ao som drasticamente reduzida. Só mais tarde, ao rever o dia, reconhece que esteve sob tensão constante para interpretar expressões, responder no momento certo e evitar falhas sociais.
“Aprendi que às vezes só percebo que estava ansioso quando a situação já passou. No momento, apenas sinto que algo está errado dentro de mim.”
Também a leitura das emoções dos outros pode revelar-se desafiante. Grande parte da comunicação humana é implícita, feita de subtilezas, expressões faciais fugazes, variações de tom de voz e regras sociais que raramente são ensinadas de forma explícita. Espera-se que estas competências surjam de forma natural, mas para muitos adultos autistas essa aprendizagem beneficia de clareza, previsibilidade e explicitação.
Inês recorda um episódio com uma colega de trabalho que respondeu de forma breve a uma mensagem. Durante horas, interrogou-se sobre o que poderia ter feito de errado. Só no dia seguinte percebeu que a colega estava simplesmente sobrecarregada.
“O mais difícil não é não compreender as pessoas. É imaginar todas as interpretações possíveis e não saber qual é a real.”
Ainda assim, compreender emoções não é um talento fixo, é uma competência que pode ser cultivada.
Uma primeira estratégia passa por desenvolver um vocabulário emocional mais granular. Não sentir apenas “mal” ou “bem”, mas distinguir entre frustração, desapontamento, ansiedade, alívio ou ternura. Quanto mais precisa for a linguagem, maior tende a ser a sensação de organização interna. Algumas pessoas beneficiam de listas de emoções, rodas emocionais ou registos escritos que permitam mapear padrões ao longo do tempo.
“Quando comecei a escrever o que sentia ao final do dia, percebi que aquilo a que chamava ‘irritação’ era muitas vezes exaustão.”
O corpo pode tornar-se um aliado fundamental neste processo. Emoções deixam marcas fisiológicas: aceleração cardíaca, tensão muscular, alterações respiratórias, calor ou frio. Aprender a reconhecer estes sinais é, muitas vezes, o primeiro passo para reconhecer a emoção que lhes está associada. A pergunta “o que está o meu corpo a tentar dizer-me?” pode abrir espaço para uma escuta interna mais compassiva.
Rui sempre acreditou que tinha um limiar baixo para o stress. Pequenas mudanças no planeamento pareciam desorganizá-lo completamente. Ao longo do tempo, começou a notar um padrão: primeiro surgia uma pressão no peito, depois uma sensação de calor e, por fim, irritabilidade.
“Percebi que a irritação era o último sinal, não o primeiro. O meu corpo já estava a falar comigo muito antes.”
Depois surge uma questão igualmente relevante: o que fazer com aquilo que se sente?
Regular emoções não significa suprimi-las. Significa criar condições para que possam ser experienciadas sem se tornarem avassaladoras. Estratégias de regulação variam de pessoa para pessoa. Algumas encontram estabilidade em rotinas previsíveis; outras em pausas sensoriais, movimento físico, interesses profundos ou ambientes com menor carga de estímulos. Há quem beneficie de tempo adicional para processar interações sociais antes de responder. Este intervalo não é evitamento, é autorregulação.
“Preciso de sair um pouco antes de ficar sobrecarregado. Não é fugir, é garantir que consigo voltar.”
No encontro com o outro, a comunicação explícita pode reduzir significativamente o risco de mal-entendidos. Dizer “preciso de alguns minutos para pensar” ou “não tenho a certeza do que estou a sentir neste momento” é uma forma legítima de presença relacional. Da mesma forma, pedir clarificação quando a reação de alguém parece ambígua demonstra responsabilidade interpessoal, não inadequação.
Teresa combinou com o parceiro um acordo simples: quando algo não fosse dito de forma direta, ela perguntaria; quando ele estivesse emocionalmente afetado, procuraria verbalizá-lo com maior clareza.
“A nossa relação mudou quando deixámos de esperar que o outro adivinhasse.”
Importa também reconhecer que a reciprocidade emocional é um processo partilhado. Cabe à sociedade alargar as suas formas de comunicação e abandonar a expectativa de que existe apenas uma maneira “correta” de expressar empatia ou afeto. Muitas pessoas autistas revelam cuidado através da consistência, da honestidade, da atenção ao detalhe ou da disponibilidade prática. Estas são formas profundas de ligação humana, ainda que por vezes menos reconhecidas pelos códigos sociais dominantes.
“Não sou muito de abraços, mas lembro-me sempre do que é importante para quem amo.”
Compreender emoções é, em grande medida, um caminho de literacia psicológica. Não exige perfeição, exige curiosidade. Um movimento gradual de aproximação à própria experiência interna, sem julgamento. Para alguns adultos autistas, este percurso pode ter começado mais tarde ou com menos apoio, mas permanece plenamente possível.
Talvez seja útil pensar nas emoções como uma linguagem que nem todos aprendem da mesma forma ou ao mesmo ritmo. Algumas pessoas crescem imersas nela; outras precisam que lhes seja ensinada com maior intencionalidade. Nenhuma destas trajetórias é inferior. São variações da condição humana.
“Durante anos achei que havia algo de errado comigo. Hoje percebo apenas que precisei de um dicionário diferente.”
Quando existe espaço para explorar, nomear e partilhar o mundo emocional com segurança, algo tende a reorganizar-se. A experiência torna-se menos caótica, as relações mais previsíveis e o sentido de agência mais sólido.
No fundo, compreender as emoções não é apenas saber o que sentimos. É descobrir que podemos habitar a nossa vida interna com maior clareza, e a partir daí construir formas de encontro mais autênticas com os outros. Talvez não se trate de sentir mais ou menos, mas de aprender, com tempo e gentileza, a escutar aquilo que sempre esteve lá.




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