Borboletas na cabeça
- pedrorodrigues

- há 4 dias
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Durante décadas, repetiu-se a imagem das borboletas no estômago como metáfora universal da emoção intensa, da ansiedade expectante ou do enamoramento. No entanto, talvez seja tempo de deslocar essa metáfora para outro lugar do corpo simbólico. Para muitas raparigas e mulheres autistas, as borboletas não habitam o estômago. Habitam a cabeça. Vibram na experiência interna de quem cresce a sentir-se diferente, mas sem linguagem para nomear essa diferença.
Durante muito tempo, também se afirmou que o autismo era, sobretudo, uma condição masculina. A proporção clássica de quatro rapazes para cada rapariga consolidou-se como uma espécie de verdade clínica, moldando critérios diagnósticos, instrumentos de rastreio e até o olhar dos profissionais. Mais recentemente, esse rácio aproximou-se de três para um. Ainda assim, a identificação do autismo em raparigas e mulheres continua a revelar-se particularmente exigente, muitas vezes tardia, por vezes ausente.
O artigo Time trends in the male to female ratio for autism incidence: population based, prospectively collected, birth cohort study (ler aqui), publicado a 4 de fevereiro, introduz um ponto de inflexão relevante neste debate. Os seus resultados não surgem exatamente como surpresa para quem tem acompanhado a evolução da investigação nesta área. Há vários anos que se discutem limitações metodológicas na constituição das amostras que sustentaram grande parte do conhecimento científico sobre o autismo. Quando os estudos de base incluem predominantemente participantes do sexo masculino, torna-se previsível que os critérios resultantes espelhem, sobretudo, apresentações clínicas mais típicas nesses perfis.
Nos últimos anos, tanto a investigação como a prática clínica têm vindo a observar um fenómeno significativo. Um número crescente de raparigas e mulheres procura avaliação especializada, frequentemente após percursos pessoais marcados por uma sensação persistente de desalinhamento. Muitas descrevem experiências que reconhecem como potencialmente enquadráveis no espectro do autismo, seja na sua forma mais clássica, seja no chamado fenótipo alargado. Este movimento não representa apenas maior literacia. Representa também uma procura ativa por coerência identitária.
O subdiagnóstico e o diagnóstico incorreto do autismo em mulheres produzem consequências profundas, ainda que insuficientemente documentadas na literatura formal. Na comunidade autista, contudo, estas vivências são amplamente discutidas. As repercussões ultrapassam a ausência de intervenções adequadas, de apoios estruturados ou de acomodações contextuais. Frequentemente traduzem-se em trajetórias de sofrimento silencioso, em interpretações psicopatológicas alternativas que não captam o núcleo da experiência e numa exigência adaptativa prolongada que pode conduzir ao esgotamento psicológico.
Persistia, porém, uma barreira epistemológica importante. Faltavam dados robustos, recolhidos a partir de metodologias fiáveis e amostras suficientemente amplas, que demonstrassem de forma inequívoca a magnitude desta discrepância. O estudo agora publicado contribui para esse vazio ao analisar os registos médicos de 2.756.779 crianças nascidas entre 1985 e 2020, oferecendo uma base empírica rara pela sua dimensão e natureza prospetiva.
Duas conclusões merecem particular destaque. A primeira sugere que os programas de rastreio estão progressivamente a conduzir a taxas de diagnóstico mais equilibradas entre os sexos. Quando se compara a proporção de quatro para um descrita no DSM-5 com os dados mais recentes do estudo, observa-se que as taxas cumulativas se tornam praticamente indistinguíveis aos 35 anos de idade. Este dado convida a uma reflexão crítica. Talvez não estivéssemos perante uma verdadeira diferença de prevalência, mas antes perante uma diferença de visibilidade.
A segunda conclusão relembra-nos que a variável idade continua a desempenhar um papel determinante. Aos cinco anos, a proporção entre rapazes e raparigas permanece superior a três para um. Apenas por volta dos 14 ou 15 anos se aproxima de uma relação de um para um. Esta discrepância temporal levanta questões clínicas relevantes. O que acontece nos anos intermédios? Quantas estratégias de camuflagem são desenvolvidas? Quantas leituras alternativas são feitas antes de se considerar a hipótese do autismo?
Talvez as borboletas na cabeça sejam precisamente isso: sinais subtis de uma atividade interna intensa que passa despercebida aos modelos tradicionais de observação. Reconhecê-las exige um olhar clínico mais sensível às apresentações menos estereotipadas, uma revisão contínua dos instrumentos de avaliação e, sobretudo, uma disponibilidade genuína para escutar narrativas que historicamente ficaram nas margens.
Mais do que corrigir estatísticas, este movimento implica uma transformação paradigmática. Identificar mais cedo significa reduzir anos de incompreensão. Significa oferecer enquadramento, linguagem e possibilidade de pertença. Significa, em última análise, permitir que muitas destas borboletas deixem de ser apenas um ruído silencioso na mente e passem a integrar uma história compreendida, validada e acompanhada.




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