Primavera autista
- pedrorodrigues

- há 2 dias
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Num mundo que tantas vezes procura definições rígidas, o amor permanece indomável. Nenhum tratado filosófico o encerrou, nenhuma teoria o delimitou, nenhum poeta o capturou por inteiro. O amor é, em si mesmo, um espectro. Move-se entre intensidades, silêncios, gestos subtis e declarações ardentes. Tal como as pessoas autistas.
Falar de amor no contexto do autismo adulto exige que abandonemos ideias simplistas. Durante décadas persistiu um equívoco perigoso, o de que as pessoas autistas seriam distantes do campo emocional ou incapazes de reciprocidade afectiva. Hoje sabemos, com crescente robustez científica e clínica, que essa leitura diz mais sobre as limitações do olhar social do que sobre a realidade destas pessoas.
As pessoas autistas pensam o amor. Sentem-no. Desejam-no.
Frequentemente fazem-no de forma singular, filtrada por modos próprios de processar a informação, interpretar sinais sociais e organizar o mundo interno. Para alguns, o amor pode expressar-se numa lealdade inabalável, numa presença consistente, numa atenção minuciosa aos detalhes que fazem o outro existir com nitidez. Pode não vir acompanhado dos códigos sociais convencionais, mas carrega uma autenticidade rara.
Há quem viva o amor como um território de grande intensidade sensorial e emocional. Outros podem precisar de maior previsibilidade, de fronteiras claras, de uma linguagem afectiva mais explícita. Para muitos, a comunicação directa não é frieza, é cuidado. Não é ausência de sentimento, é uma tentativa honesta de evitar o ruído das ambiguidades.
Importa também dizer algo que ainda surpreende alguns observadores: nem todas as pessoas no espectro procuram uma relação amorosa. E isso não constitui défice algum.
Existe uma forma profunda de inteireza em quem se sente bem na própria companhia, em quem constrói sentido fora das narrativas românticas dominantes. Numa cultura que frequentemente associa felicidade à vida a dois, escolher a autonomia pode ser um acto de grande maturidade psicológica.
O amor, afinal, não se mede pelo formato da relação, mas pela qualidade da ligação, seja ela dirigida ao outro ou ao próprio.
Talvez por isso os poetas continuem sem consenso. O amor é simultaneamente encontro e mistério, presença e pergunta. Escapa quando tentamos fixá-lo.
E talvez por isso possamos arriscar uma ideia: as pessoas autistas são, de certa forma, poetas do amor.
Poetas porque muitas vezes recusam o automatismo social e aproximam-se do sentimento com uma espécie de olhar inaugural, menos contaminado pelo guião cultural. Poetas porque podem amar com uma literalidade comovente, sem jogos implícitos, sem coreografias sociais excessivas. Poetas porque, ao procurarem compreender o que sentem, obrigam-nos a revisitar as nossas próprias definições.
Contudo, há uma condição essencial para que este amor se torne visível aos olhos colectivos: a integração verdadeira.
Enquanto a sociedade persistir em olhar o autismo com estranheza, continuará também a falhar na leitura das suas formas de amar. A exclusão social não limita apenas oportunidades profissionais ou participação cívica, limita também a possibilidade de encontro íntimo. Relações exigem contextos onde a diferença não seja tolerada apenas em teoria, mas acolhida na prática.
Imaginar uma sociedade mais ajustada à neurodiversidade é imaginar mais histórias de amor possíveis.
Talvez então surja aquilo a que poderíamos chamar uma primavera autista. Uma estação simbólica onde as condições sociais permitem que estas formas singulares de afecto floresçam sem constrangimento. Onde já não se pergunte se as pessoas autistas amam, mas antes como amam, com que linguagem, com que intensidade, com que beleza própria.
Nesse dia, perceberemos algo que sempre esteve diante de nós: o amor nunca teve uma única gramática.
Tal como o espectro, é vasto, heterogéneo e profundamente humano.




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