Como queres o teu chá?
- pedrorodrigues

- 24 de fev.
- 4 min de leitura
"There is no trouble so great or grave that cannot be diminished by a nice cup of tea."
Bernard Paul Heroux
Quando falamos de autismo há uma observação que surge repetidamente, tanto por parte de pessoas autistas como de pessoas não autistas. Cada uma das partes relata, com frequência, a sensação de que a outra é difícil de compreender. As pessoas autistas descrevem um mundo social que parece pouco explícito, ambíguo e exigente em inferências implícitas. As pessoas não autistas, por sua vez, referem frequentemente comportamentos que lhes parecem estranhos, literais ou inesperados.
Hoje dispomos de enquadramentos conceptuais que nos permitem compreender melhor esta experiência mútua de estranheza. A ideia do Problema da Dupla Empatia veio mostrar que as dificuldades de compreensão não pertencem exclusivamente às pessoas autistas. Elas emergem no encontro entre formas diferentes de construir sentido. No entanto, em vez de nos determos apenas nessa formulação geral, podemos observar um exemplo muito simples. Voltemos à questão do chá.
Imaginemos duas pessoas, A e B, envolvidas numa breve troca.
Pessoa A pergunta: «Como queres o teu chá?»
Pessoa B responde: «Numa chávena.»
Se imaginarmos que A é uma pessoa não autista e B uma pessoa autista, é provável que a resposta provoque surpresa. A pessoa A poderá pensar que a resposta é inadequada ou redundante. Poderá concluir que B não respondeu à pergunta genuína ou que está a tentar ser irónica, absurda ou até provocatória. No entanto, essa interpretação depende de uma série de pressupostos que raramente são examinados.
À primeira vista parece evidente que a pergunta «Como queres o teu chá?» procura saber se a pessoa deseja leite, açúcar ou limão. Contudo, essa interpretação não decorre do significado literal da pergunta. Resulta de um conjunto de inferências pragmáticas que são normalmente realizadas de forma automática. Essas inferências assentam em suposições de fundo que a maioria das pessoas toma como evidentes. Uma dessas suposições é a de que o chá será servido numa chávena. Outra é a de que a temperatura será quente. Outra ainda é a de que o recipiente e o modo de servir já estão decididos.
Estas suposições são tão familiares que se confundem com o senso comum. O problema filosófico surge precisamente aqui. O que chamamos senso comum não é um conjunto universal de evidências auto-explicativas. É antes um sistema de pressupostos partilhados dentro de determinadas comunidades de prática. Quando duas pessoas interagem, cada uma traz consigo um horizonte implícito de pressupostos que raramente é explicitado.
Se começarmos pelo significado literal da pergunta e avançarmos gradualmente, percebemos que a questão «Como prefere o seu chá?» pode referir-se a múltiplos parâmetros possíveis. Pode referir-se às adições, como leite ou açúcar. Pode referir-se ao recipiente, como uma chávena, uma caneca ou um copo. Pode referir-se à temperatura, como quente, morno ou frio. Pode referir-se até à intensidade, ao tipo de chá ou ao tempo de infusão. Nada na formulação linguística elimina de forma definitiva estas possibilidades.
Ao preparar a sua resposta, B precisa de decidir qual destes parâmetros A pretende abordar. Para responder de forma plenamente informativa seria necessário especificar vários deles. Contudo, a comunicação quotidiana não exige normalmente respostas completas. Espera-se antes que os interlocutores seleccionem um aspecto considerado relevante, assumindo que os restantes já foram decididos ou serão esclarecidos mais tarde.
Esta selecção exige que B vá além do significado literal. Exige que B identifique quais são as pressuposições activas naquele momento. Ou seja, quais são as proposições que A considera já estabelecidas e espera que B também considere estabelecidas.
As pressuposições funcionam como uma infraestrutura invisível da comunicação. Permitem que falemos de forma breve e económica porque assumimos que partilhamos um pano de fundo comum. Quando A faz a pergunta, fá-lo apoiando-se nesse pano de fundo. Espera que B reconheça, quase sem esforço consciente, qual é o tipo de resposta esperado.
Se A estiver a colocar uma chaleira ao lume enquanto faz a pergunta, ambos podem reconhecer que o chá será servido quente. A percepção comum desse detalhe torna plausível a pressuposição de que a temperatura não precisa de ser discutida. A resposta tenderá então a incidir sobre outros aspectos.
Seria confortável pensar que todas as pressuposições surgem de observações concretas e directamente acessíveis. Na realidade, isso raramente acontece. Grande parte das pressuposições deriva de hábitos culturais, rotinas sociais e expectativas adquiridas ao longo do tempo. São conhecimentos tácitos que dificilmente se tornam visíveis enquanto funcionam bem.
É aqui que um exemplo tão simples como o do chá se torna filosoficamente revelador. A resposta «Numa chávena» pode ser entendida não como um erro comunicativo, mas como uma escolha racional dentro de um espaço de possibilidades interpretativas. A pessoa B pode não ter considerado evidente que o recipiente estivesse decidido. Pode ter tratado a pergunta como genuinamente aberta. A sua resposta torna explícito um parâmetro que A considerava já resolvido.
Neste sentido, a interacção entre uma pessoa autista e uma pessoa não autista pode revelar algo mais profundo do que uma simples dificuldade social. Pode expor os alicerces invisíveis da comunicação humana. Mostra que compreender uma pergunta não é apenas descodificar palavras. É reconstruir um mundo partilhado que nem sempre está verdadeiramente partilhado.
O encontro entre estas duas formas de interpretar o mundo pode tornar visível aquilo que normalmente permanece oculto. O que para uma pessoa parece óbvio pode, para outra, ser apenas uma hipótese entre várias. O autismo não surge então apenas como uma perturbação da comunicação, mas também como uma espécie de lente filosófica que torna mais nítida a complexidade do entendimento humano.
Uma pergunta aparentemente trivial como «Como queres o teu chá?» pode assim tornar-se uma pequena experiência filosófica. Obriga-nos a reconhecer que a comunicação não assenta apenas em palavras, mas em expectativas mútuas. E talvez mostre que a verdadeira dificuldade não está apenas em responder correctamente, mas em descobrir qual é, afinal, a pergunta que está realmente a ser feita.
Oh, honey
Picture me upon your knee
With tea for two and two for tea
Just me for you, and you for me alone (...)
Tea for two (1950), by Doris Day




Comentários