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Wish you...could understand me

Wish you were here, lançado em setembro de 1975, constitui um dos grandes trabalhos dos Pink Floyd, e procura entre outra coisas explorar a deterioração mental de Syd Barrett. Sendo que está patente ao longo do trabalho a maior dificuldade entre este e Roger Waters. E porque é que me fui lembrar deste álbum? Além de gostar de tudo produzido por este grupo. A fotografia deste trabalho inspirou-me para falar sobre a natureza bidirecional da interacção entre a pessoa autista e não autista. Continua a ser tão frequente centrarmos a nossa explicação da dificuldade em comunicarmos com o Outro com base naquilo que é o seu diagnóstico e algumas das suas características! Ele não liga às coisas! Apenas se interessa pelas coisas do seu mundo, dos seus interesses! Se estivermos a falar de outros assuntos parece nunca querer saber ou interessar-se! Nunca me pergunta nada sobre as minhas coisas! Parece não querer saber ou interessar-se pela minha pessoa ou sentimentos! Eu poderia continuar a fazer toda uma listagem de frases em que as pessoas não autistas se procuraram referir face às pessoas autistas no que diz respeito ao processo de comunicação e interacção. E isto acontece não apenas no autismo, mas sim na saúde mental como um todo. A pessoa com o diagnóstico, a pessoa afectada é aquela considerada responsável ou como tendo o deficit que explica na totalidade as dificuldades existentes. E por isso há que cura-la, trata-la, capacita-la, para que ela possa adequar-se à forma como todos os outros não "seja que diagnóstico for" funcionam. E não é de espantar que se fale em muito de comportamentos de camuflagem social. É porque as pessoas com autismo e/ou com outro diagnóstico, e principalmente se apresentam competências para tal, procuram desenvolver um esforço em aprenderem esse guião social. Sublinho que esse esforço acarreta a um grande nível de sofrimento psicológico e desgaste físico. Quando falamos sobre o autismo, seja na clínica mas também na investigação, continuamos a observar relatos baseados em déficits de habilidades sociais e de comunicação. E essa visão pode ser demasiado simplista e desconsiderar todo um conjunto de variáveis e intervenientes envolvidos na interacção. O autismo tem sido tradicionalmente conceptualizado e definido por déficits na interação social e comunicação. E a investigação tem destacado que as pessoas autistas têm um desempenho pior do que pessoas não autistas em muitas medidas de cognição social, e acredita-se que essas diferenças sócio-cognitivas estão subjacentes às dificuldades de interação do mundo real. No entanto, a investigação também tem mostrado que as chamadas dificuldades sociais específicas do autismo podem ser bidirecionais na natureza e que as pessoas autistas e não autistas podem estar a entender-se mal mutuamente. Um número crescente de estudos tem-nos demonstrado evidências de pessoas não autistas que interpretam mal as situações sociais com pessoas autistas. Por exemplo, pessoas não autistas interpretam as emoções faciais de pessoas autistas com menos precisão do que as pessoas autistas em si, estão menos dispostos a interagir com pessoas autistas, sobrestimam o quão egocêntrico as pessoas autistas são, e também o quão úteis eles são para as pessoas autistas. As pessoas não autistas são menos precisas do que pessoas autistas na interpretação do estados mentais de pessoas autistas, e a achar as pessoas autistas difíceis de ler. Se as diferenças nos estilos de interação são vistas como deficiências para as pessoas autistas. Não deveríamos também considerar essas diferenças com pessoas não autistas como exemplos de deficiências que podem exacerbar as dificuldades sociais nas interações para pessoas autistas? Por exemplo, o problema da dupla empatia, proposto por Milton (2012), sugere que as falhas de comunicação entre pessoas autistas e pessoas não autistas resultam principalmente de uma quebra na reciprocidade e mútua compreensão, em vez dos déficit específicos do autismo na comunicação social. As dificuldades nas interações ocorrem por causa de diferentes maneiras de experimentar o mundo e o processamento de informações. Por exemplo, pessoas autistas e não autistas diferem na forma como processam as informações sensoriais, linguagem as pistas sociais. Algumas outras descobertas empíricas têm procurado perceber como é que as pessoas autistas interagem com mais sucesso e ficam mais confortáveis quando o fazem com outras pessoas autistas, ao invés de o fazerem com pessoas não autistas. Facto que parece indicar poder haver comportamentos sociais específicos do autismo subjacentes e mais interacções eficazes quando se tem um emparelhamento autista-autista. Atendendo à cada vez maior compreensão que vamos tendo em relação ao autismo, assim como aos processos de comunicação envolvidos, é fundamental que a investigação e a conceptualização desta condição possa reflectir essas mesmas diferenças e poder passar a olhar com mais foco para todas estas questões como um fenómeno bidirecional, ao invés de insistentemente o centrar na pessoa autista.


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