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O homem que habitava os sistemas

Conheci Teodoro (nome fictício) numa manhã de inverno, numa sala excessivamente iluminada para alguém que parecia viver melhor em penumbra cognitiva. Tinha 46 anos, uma postura rígida e um olhar que não evitava o meu, mas também não parecia repousar nele. Era um olhar funcional, como se estivesse ali para recolher dados, não para estabelecer vínculo. Falava num tom plano, preciso, sem ornamentos, como quem descreve um mecanismo cuja beleza reside apenas na exactidão.


Teodoro procurara ajuda não por sofrimento emocional declarado, mas porque o mundo, segundo as suas palavras, “tinha-se tornado ruidoso demais para funcionar”. Trabalhava há mais de vinte anos como técnico de manutenção de sistemas ferroviários, um trabalho que exigia atenção obsessiva ao detalhe, repetição, respeito estrito por protocolos. Nesse contexto, sempre fora considerado exemplar. O problema surgira quando a empresa decidira modernizar procedimentos, introduzir reuniões frequentes, trabalho em equipa e improvisação. Foi aí que o sistema interno de Teodoro, cuidadosamente afinado ao longo de décadas, começou a falhar.


A sua história, quando narrada, não tinha drama evidente. Infância silenciosa, poucos amigos, interesses intensos e duradouros em horários, mapas, catálogos e sistemas de classificação. Ainda criança, sabia de cor os horários de todos os comboios que atravessavam a sua cidade, não por ambição enciclopédica, mas porque esses horários lhe ofereciam algo que o mundo raramente oferecia, previsibilidade. A mãe descrevia-o como “autossuficiente”, o pai como “fechado”. Ninguém suspeitara que aquela forma de estar fosse algo para além de um temperamento peculiar.


Teodoro nunca casara. Tivera uma ou duas tentativas de relação, interrompidas não por conflitos passionais, mas por exaustão. “Era demasiado trabalho”, dizia, referindo-se não às pessoas em si, mas à quantidade de variáveis imprevisíveis que uma relação implicava. Preferia a companhia de rotinas, de objectos bem definidos, de sistemas que respondiam sempre da mesma forma quando corretamente acionados.


O que o trouxe à consulta foi um colapso discreto, mas profundo. Insónia persistente, irritabilidade, episódios de confusão em ambientes ruidosos, uma sensação nova e profundamente perturbadora de perda de competência. Não se dizia ansioso, dizia-se desregulado. Não se dizia triste, dizia-se ineficiente. Era como se a linguagem emocional comum não estivesse disponível, ou não fosse suficientemente precisa para descrever o que se passava.


Ao longo das sessões, tornou-se evidente que Teodoro não sofria de uma doença recente, mas de um mundo que nunca fora construído para o seu modo particular de funcionamento. O diagnóstico de autismo no adulto não surgiu como revelação súbita, mas como uma reorganização narrativa. De repente, episódios isolados ao longo da vida alinharam-se como carruagens num comboio finalmente bem acoplado. A exaustão social, a hipersensibilidade ao som, a necessidade de regras explícitas, a dificuldade em perceber hierarquias informais, tudo fazia agora sentido.


Curiosamente, o diagnóstico não o abalou. Produziu antes um efeito que raramente observo com tamanha nitidez, um alívio silencioso. “Então não estava avariado”, disse-me numa sessão, “apenas fui usado fora das especificações”. A metáfora era perfeita e profundamente reveladora. Teodoro via-se a si próprio não como defeituoso, mas como um sistema especializado, altamente competente dentro de determinados parâmetros, vulnerável fora deles.


A intervenção não se centrou em torná-lo mais “social” ou mais “flexível”, conceitos que para ele soavam vagos e até ameaçadores. Centrou-se antes em reduzir o ruído, literal e metafórico. Ajustar o ambiente de trabalho, negociar tarefas compatíveis com o seu perfil, introduzir pausas sensoriais, reconstruir rotinas. No plano interno, trabalhámos a tradução gradual de estados corporais em linguagem compreensível, não para romantizar emoções, mas para torná-las funcionais.


Não houve transformação dramática. Teodoro não se tornou alguém diferente. Tornou-se, isso sim, mais ele próprio, menos forçado a operar em modos que nunca lhe pertenceram. Continuou a amar sistemas, horários e comboios. Continuou a preferir o silêncio às conversas triviais. Mas deixou de se ver como um erro estatístico da condição humana.


Ao acompanhá-lo, tive a nítida sensação de estar perante uma daquelas mentes que revelam, pela sua diferença, algo essencial sobre todos nós. Que a normalidade é um intervalo estreito. Que a adaptação tem custos invisíveis. E que, por vezes, a tarefa da clínica não é corrigir o indivíduo, mas ajudá-lo a encontrar o ambiente onde possa finalmente funcionar em paz.


 
 
 

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