What's up Doc?
Lembro-me perfeitamente de, em criança, andar atrás da minha mãe a perguntar-lhe o que é que eu tinha. Fosse febre, espirros, tosse ou uma dor de barriga, lá andava eu, insistente, à procura de uma resposta que me permitisse perceber o que se passava comigo. A minha mãe tinha sempre alguma coisa para me dizer. Umas vezes, com a firmeza de quem sabia exactamente o que estava a fazer. Outras, com aquela segurança possível de quem não sabe muito bem, mas sabe que não pode deixar uma criança sem resposta.
Quando a coisa se tornava mais complicada, havia sempre uma solução. Consultava-se a avó ou uma vizinha mais sábia, daquelas que já tinham tido todas e mais algumas maleitas, conhecido diferentes especialidades hospitalares e acumulado, ao longo dos anos, uma espécie de currículo informal em medicina doméstica. A experiência conferia-lhes autoridade. E a autoridade, por sua vez, conferia-lhes o direito de opinar sobre quase tudo o que envolvesse o corpo humano.
Naquele tempo, não havia pergunta que ficasse sem resposta. Ou, pelo menos, não havia pergunta que não merecesse uma tentativa de resposta. Até porque ir ao médico não era uma coisa tão simples como hoje. Havia distâncias, esperas, dificuldades de acesso e uma certa economia da preocupação que nos ensinava a reservar as consultas para quando a situação realmente o justificava.
Depois chegou a Internet. E, com ela, o Dr. Google. Qual mãe, qual avó, qual vizinha conhecedora de todas as maleitas! Bastava escrever meia dúzia de palavras numa caixa de pesquisa para obtermos, em segundos, uma lista generosa de possibilidades. Desde a mais banal das constipações até à doença rara que, segundo a terceira página de resultados, poderia explicar aquela dor que tínhamos sentido durante cinco minutos na semana anterior. Cheguei, inclusivamente, a ensinar a minha mãe a pesquisar no Google. Era curioso vê-la aprender a fazer perguntas a uma máquina sobre aquilo que, durante tantos anos, parecia saber de cor. O conhecimento que antes circulava entre a cozinha, a sala de espera e a vizinhança passava agora a caber num ecrã.
Mudaram os tempos, mudaram as perguntas e mudaram também as pessoas a quem recorremos para obter respostas. Mas a história não ficou por aqui. A Internet deixou de ser apenas um lugar onde procuramos aquilo que nos preocupa. Progressivamente, passou também a ser um lugar onde aquilo que nos preocupa nos encontra, mesmo quando ainda não sabíamos que havia alguma coisa à procura de nós.
Entrou em cena o algoritmo. Esse aparente génio da lâmpada que dispensa o esfregar do objecto mágico e, sem que precisemos de formular um pedido, começa a devolver-nos conteúdos que parecem conhecer-nos melhor do que nós próprios. Ou, pelo menos, que parecem conhecer os nossos hábitos, as nossas hesitações, os nossos interesses e as pequenas curiosidades a que dedicamos alguns segundos de atenção.
O algoritmo observa o que vemos, aquilo em que demoramos mais tempo, os vídeos que repetimos, os conteúdos que partilhamos e as publicações com que interagimos. A partir desses sinais, procura antecipar o que poderá captar novamente a nossa atenção.
E é aqui que a história começa a tornar-se particularmente interessante, sobretudo quando falamos de saúde mental e neurodivergência.
Porque o algoritmo não se limita a mostrar-nos coisas de que gostamos. Também pode apresentar-nos explicações para aquilo que sentimos, narrativas sobre quem somos e categorias através das quais passamos a interpretar a nossa própria vida.
Imaginemos alguém que abre o TikTok para ver um vídeo sobre culinária, uma partida de futebol ou uma qualquer trivialidade do quotidiano. De repente, surge-lhe um vídeo com uma pergunta aparentemente inofensiva:
«Achas que podes ter autismo? Aqui ficam algumas coisas em que deves pensar.» A pessoa nunca procurou conteúdos sobre autismo. Nunca escreveu essa palavra num motor de busca. Nunca se questionou particularmente sobre a possibilidade de ser autista. Ainda assim, o vídeo aparece-lhe. E começa a ouvi-lo. «Tens a sensação persistente de que as pessoas à tua volta estão a tramar alguma coisa, mas não consegues perceber o quê nem como entrar nessa?» «Chegas sempre cedo aos compromissos porque a ideia de te atrasares é completamente inaceitável?» «Tens uma memória nítida de alguém a gritar furiosamente contigo e, até hoje, não fazes ideia do porquê?»
A pessoa escuta. Reconhece-se numa frase. Depois noutra. Talvez numa terceira. E, quando o vídeo termina, fica com uma pergunta que não tinha antes: E se eu for autista?
Importa sublinhar que estas experiências, por si só, não constituem critérios de diagnóstico do autismo. Algumas podem ser vividas por pessoas autistas, mas também por pessoas não autistas, por razões muito diferentes. O seu significado depende do contexto, da história de desenvolvimento, da persistência das características e da forma como estas se articulam com o funcionamento global da pessoa.
Contudo, um vídeo de poucos minutos não tem necessariamente tempo, nem intenção, para explicar tudo isto. Tem, isso sim, a possibilidade de captar a atenção, produzir identificação e despertar curiosidade. E, num ambiente digital construído para prolongar o tempo de permanência dos utilizadores, a identificação pode ser extraordinariamente eficaz. A pessoa vê outro vídeo. Depois mais um. E outro ainda.
Começa a encontrar relatos de pessoas que descrevem dificuldades sociais, sensibilidades sensoriais, interesses intensos, cansaço depois de interacções sociais, dificuldades em compreender certas convenções implícitas ou uma sensação persistente de nunca terem pertencido verdadeiramente a lado nenhum.
Algumas destas experiências fazem sentido à luz da sua própria história. Outras parecem encaixar apenas parcialmente. Mas a sucessão de conteúdos começa a construir uma narrativa.
Aquilo que antes eram episódios dispersos da sua vida passa a adquirir uma possível explicação comum. E o algoritmo continua a trabalhar. Quanto mais a pessoa vê, mais conteúdos semelhantes lhe podem ser apresentados. Quanto mais interage, maior pode ser a presença desses conteúdos no seu feed. O que começou por ser um vídeo ocasional transforma-se, progressivamente, num universo interpretativo.
A pessoa não procurou necessariamente o diagnóstico. O diagnóstico, enquanto possibilidade, foi-lhe apresentado. É esta uma das questões mais relevantes levantadas pela investigação sobre os processos de diagnóstico mediados pelas redes sociais. O chamado Dr. TikTok representa uma evolução particular do conhecido Dr. Google: já não é apenas o utilizador que procura informação a partir de sintomas que considera preocupantes. É também o sistema de recomendação que pode introduzi-lo em conteúdos, comunidades e categorias diagnósticas que nunca tinha procurado deliberadamente.
O algoritmo não faz um diagnóstico clínico. Mas pode contribuir para desencadear um percurso de autointerpretação que começa a assemelhar-se a um processo diagnóstico. E isto merece a nossa atenção.
Porque uma coisa é procurar uma resposta para uma pergunta que já tínhamos. Outra, bem diferente, é começar a fazer uma pergunta porque alguém, ou alguma coisa, nos ensinou que talvez a devêssemos fazer.
Não estou, naturalmente, a sugerir que as pessoas não devam procurar informação sobre autismo, PHDA ou outras condições do neurodesenvolvimento. Pelo contrário. O acesso à informação pode ser profundamente emancipador, sobretudo para adultos que passaram décadas sem compreender determinadas experiências, que foram sucessivamente mal interpretados ou que nunca tiveram acesso a uma avaliação adequada.
Para muitas pessoas autistas, descobrir a possibilidade de um diagnóstico na idade adulta representa o início de uma compreensão mais justa da própria história. Pode permitir reinterpretar dificuldades antigas, reconhecer necessidades até então ignoradas, encontrar comunidades de pertença e abandonar explicações profundamente culpabilizantes sobre si próprias.
Há pessoas que passaram uma vida inteira a acreditar que eram preguiçosas, esquisitas, demasiado sensíveis, socialmente incompetentes ou incapazes de lidar com aquilo que os outros pareciam fazer naturalmente. Para algumas, o contacto com testemunhos de outras pessoas autistas foi a primeira oportunidade de perceber que talvez existisse uma explicação diferente para aquilo que viveram.
Seria profundamente injusto desvalorizar esse papel das redes sociais. O problema não está em uma pessoa reconhecer-se num testemunho. O problema começa quando essa identificação é apresentada como suficiente para estabelecer uma conclusão, quando a semelhança se transforma em certeza e quando uma narrativa individual passa a funcionar como uma espécie de molde no qual procuramos encaixar toda a nossa experiência. Reconhecer-se não é o mesmo que preencher critérios de diagnóstico.
E não preencher todos os critérios de um vídeo não significa, inversamente, que não se possa ser autista. Esta distinção é particularmente importante porque os conteúdos digitais tendem a privilegiar aquilo que é imediatamente reconhecível, emocionalmente apelativo e facilmente partilhável. As experiências complexas são comprimidas em listas, os percursos individuais transformam-se em sinais identificadores e as diferenças entre pessoas desaparecem frequentemente debaixo de uma mesma etiqueta.
O autismo, a PHDA e a própria ideia de neurodivergência passam, assim, a circular em formatos que podem alargar o conhecimento público, mas também simplificar excessivamente realidades clínicas e humanas bastante mais complexas. Há ainda outro aspecto que me parece particularmente relevante. Quando uma pessoa começa a receber sistematicamente conteúdos sobre autismo, pode desenvolver a sensação de que o autismo está em todo o lado. Não necessariamente porque tenha aumentado a sua prevalência, mas porque aumentou a sua exposição a esse tema.
Aquilo que vemos repetidamente começa a parecer-nos mais frequente. Aquilo que nos é apresentado com insistência começa a parecer-nos mais importante. E aquilo que reconhecemos em nós próprios pode adquirir um peso interpretativo crescente. Não significa que a experiência seja falsa. Significa apenas que a forma como chegamos a interpretá-la também é influenciada pelo ambiente informativo em que estamos inseridos.
O algoritmo não precisa de mentir para alterar a nossa percepção. Basta-lhe seleccionar, repetir e organizar aquilo que nos mostra. E, quando falamos de saúde mental, esta capacidade merece particular cuidado. Porque não estamos apenas a consumir informação sobre o mundo. Estamos, muitas vezes, a tentar compreender-nos.
O algoritmo pode não saber quem somos, mas pode participar na construção da história que contamos a nós próprios sobre quem somos.
É por isso que considero importante não transformar esta discussão numa guerra entre o conhecimento científico e a experiência vivida. Também não me parece útil desvalorizar os testemunhos de pessoas autistas, como se a experiência pessoal fosse um obstáculo ao conhecimento. Pelo contrário, esses testemunhos são fundamentais para compreendermos dimensões do autismo que a investigação e a prática clínica nem sempre conseguiram captar adequadamente.
O desafio está em articular diferentes formas de conhecimento sem as confundir. A experiência pessoal pode abrir uma hipótese. A informação científica pode ajudar a enquadrá-la. A avaliação clínica pode explorar a sua consistência, a história de desenvolvimento, as explicações alternativas e as necessidades concretas da pessoa. Nenhuma destas dimensões precisa de silenciar as restantes.
Uma avaliação não deve servir para desautorizar aquilo que uma pessoa sente, mas também não deve limitar-se a confirmar uma hipótese porque a pessoa se reconhece em determinados conteúdos. Deve constituir um espaço de investigação partilhada, onde a história individual é escutada com seriedade e analisada com rigor.
Isto exige profissionais capazes de acolher pessoas que chegam às consultas com hipóteses já construídas, sem as ridicularizar, sem as aceitar automaticamente e sem assumir que a informação encontrada na Internet é, por definição, um problema.
Exige também que reconheçamos uma realidade: muitas pessoas chegam à avaliação depois de terem encontrado nas redes sociais uma linguagem que finalmente lhes permite descrever aquilo que sentem. O nosso trabalho não é retirar-lhes essa linguagem. É ajudá-las a compreender o que ela pode explicar, o que permanece por esclarecer e que outras possibilidades merecem ser consideradas.
Talvez seja aqui que a pergunta do Bugs Bunny, «What’s up, Doc?», ganhe uma actualidade inesperada. Na famosa frase do coelho mais irreverente da animação, há uma pergunta dirigida ao médico, quase sempre acompanhada daquela expressão provocadora que parece dizer que não leva nada demasiado a sério.
Hoje, porém, a pergunta pode ter deixado de ser feita apenas ao médico. Perguntamos ao Google. Perguntamos ao TikTok. Perguntamos aos fóruns, aos influenciadores, aos questionários online e aos modelos de inteligência artificial. Perguntamos a desconhecidos que partilham connosco as suas experiências e que, por vezes, nos ajudam a reconhecer aspectos da nossa própria vida.
E perguntamos também aos algoritmos, mesmo quando não temos consciência de que estamos a fazê-lo. Mas talvez devêssemos acrescentar uma segunda pergunta à primeira. What’s up, Doc?
E quem está a decidir o que se passa comigo? A resposta não pode ser simplesmente que são os médicos, porque a experiência humana nunca coube inteiramente dentro dos consultórios. Também não pode ser que somos apenas nós próprios, porque a forma como nos compreendemos é influenciada pelas relações, pela cultura, pela informação disponível e pelas categorias que aprendemos a utilizar.
E muito menos podemos ignorar o papel das plataformas digitais, cujos sistemas de recomendação organizam a informação que nos chega, muitas vezes sem transparência suficiente sobre os critérios que determinam essa selecção.
Não se trata de imaginar um algoritmo malicioso que nos diagnostica às escondidas. Trata-se de reconhecer que um sistema concebido para captar a nossa atenção pode acabar por influenciar a forma como interpretamos a nossa identidade, incluindo a nossa saúde mental.
Talvez a pergunta mais importante não seja, por isso, se o TikTok nos pode ajudar a descobrir que somos autistas.
Pode, em determinadas circunstâncias, ajudar-nos a levantar essa hipótese. E pode fazê-lo de uma forma que transforma positivamente a nossa vida.
A pergunta é se estamos preparados para distinguir entre uma hipótese que merece ser explorada e uma conclusão que ainda não tem fundamento suficiente. E se as plataformas, os profissionais de saúde e a sociedade estão preparados para assumir a responsabilidade que acompanha esta nova forma de produzir e partilhar conhecimento sobre nós próprios.
Porque há uma diferença entre dar a alguém palavras para compreender a sua experiência e dar-lhe uma explicação pronta para todas as suas experiências. A primeira possibilidade abre caminhos.
A segunda pode fechar perguntas antes de termos tido oportunidade de as fazer. Regresso, por momentos, à minha infância. Às perguntas que fazia à minha mãe, às respostas que ela procurava dar-me e à sabedoria emprestada da avó ou da vizinha que já tinha passado por quase tudo.
Hoje, talvez a minha mãe já não precise de mim para pesquisar no Google. E eu, apesar de ser psicólogo, também não estou imune à tentação de procurar respostas rápidas quando alguma coisa me inquieta.
A diferença é que agora sabemos que nem todas as respostas encontradas são equivalentes. E que a facilidade de acesso à informação não garante, por si só, a sua qualidade, tal como a sensação de reconhecimento não garante a exactidão de uma explicação.
Continuamos a querer saber o que temos. Continuamos a querer compreender porque sentimos aquilo que sentimos, porque nos comportamos de determinada maneira e porque, tantas vezes, parecemos não caber inteiramente nas explicações disponíveis. A necessidade de resposta permanece.
O que mudou foi o número de vozes que se oferecem para responder e a capacidade que algumas delas têm de chegar até nós antes mesmo de formularmos a pergunta. Por isso, talvez seja importante recuperar alguma coisa da prudência das nossas mães, das nossas avós e até das vizinhas sábias de outros tempos. Não a convicção de que a experiência pessoal basta para explicar tudo, mas a consciência de que nem sempre sabemos o suficiente para ter uma resposta definitiva.
Há perguntas que merecem investigação. Há experiências que precisam de ser escutadas. Há hipóteses que devem ser exploradas. E há respostas que exigem tempo, contexto e a disponibilidade para admitir que podemos estar errados. Nem tudo o que nos descreve nos diagnostica. Nem tudo o que nos identifica nos explica. E nem tudo o que o algoritmo nos mostra merece transformar-se numa verdade sobre nós.
What’s up, Doc?
Talvez a resposta mais honesta continue a ser esta: não sabemos ainda. Mas podemos procurar compreender. Com curiosidade, sem precipitação. Com abertura, sem credulidade. Com rigor, sem desumanização. E, acima de tudo, sem entregar a um algoritmo o poder de decidir quem somos, mesmo quando ele parece ter encontrado as palavras que andávamos há tanto tempo à procura de ouvir.




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