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As meninas de Shukareva: Um bailado russo do autismo

14 de out.
14 min de leitura

Quando contamos a história do autismo, quase sempre começamos por homens. Falamos dos rapazes autistas, da maior prevalência historicamente encontrada no sexo masculino e dos dois médicos que acabaram por ocupar o centro da narrativa científica, Leo Kanner e Hans Asperger. Durante décadas, foi como se o autismo tivesse sido descoberto duas vezes, primeiro nos Estados Unidos, depois recuperado a partir do trabalho desenvolvido em Viena.

Mas antes de ambos houve uma mulher: Grunya Efimovna Shukareva. E, mais surpreendente ainda, houve meninas.


Entre 1925 e 1927, quando o autismo ainda não existia enquanto categoria diagnóstica autónoma, esta psiquiatra russa observava crianças que pareciam viver numa fronteira difícil de definir entre a aproximação e o afastamento, a competência e a dificuldade, a sensibilidade e a aparente frieza. Primeiro descreveu rapazes. Depois dirigiu o olhar para cinco raparigas.


Quase um século depois, essas cinco histórias clínicas provocam uma desconfortável sensação de familiaridade. Não porque possamos simplesmente transportar diagnósticos contemporâneos para crianças observadas há cem anos. Não podemos. Mas porque muitas das dificuldades que Shukareva registou continuam a aparecer nos consultórios actuais, precisamente entre as raparigas e mulheres cuja Perturbação do Espectro do Autismo permanece por identificar.


As meninas de Shukareva parecem, assim, dançar entre dois tempos:1927 e 2026. E talvez o mais inquietante seja perceber como alguns passos mudaram tão pouco.


Cinco meninas antes de existir o diagnóstico


O primeiro trabalho de Shukareva sobre aquilo que então designava por "psicopatias esquizoides na infância" surgiu em russo em 1925 e foi publicado em alemão no ano seguinte. Em 1927, a autora dedicou um novo artigo às particularidades destas apresentações nas raparigas, Die Besonderheiten der schizoiden Psychopathien bei den Mädchen.


Nesse texto surgiam cinco casos clínicos. Cinco histórias. Modos distintos de estar com os outros. Cinco possibilidades que dificilmente caberiam numa única representação do autismo.

Esta ressalva é indispensável: Shukareva não estava a diagnosticar PEA. A expressão "psicopatia esquizoide" pertence à nosologia da sua época e não constitui um equivalente histórico perfeito da actual Perturbação do Espectro do Autismo. Uma leitura retrospectiva exige, portanto, moderação. Ainda assim, as convergências fenomenológicas são suficientemente expressivas para justificar que estes trabalhos sejam hoje considerados fundamentais para a história da conceptualização do autismo.


O mais interessante, porém, talvez esteja noutro lugar. Está nas cinco meninas.


P. L.: quando a empatia esconde o autismo


P. L. mantinha-se afastada dos grandes grupos. Era reservada, desconfiada e pouco disponível para falar sobre si própria. As relações com outras crianças podiam tornar-se intensas, mas também terminar inesperadamente. Os movimentos eram descritos como desajeitados. Existía rigidez. Havia dificuldades de adaptação.


À primeira vista, algumas destas características aproximam-se facilmente daquilo que esperaríamos encontrar numa descrição tradicional do espectro.

Depois aparece uma manifesta contradição.


P. L. conseguia perceber com notável acuidade as experiências emocionais das outras pessoas. Preocupava-se com familiares doentes, era particularmente cuidadosa com a mãe quando esta se encontrava indisposta e defendia quem considerava injustiçado. Shukareva salientava mesmo a sua sensibilidade perante aquilo que acontecia aos outros.

Imagine-se P. L. num processo de avaliação actual.


Se a pergunta clínica fosse apenas "tem empatia?", alguém poderia responder prontamente: "Muita." E talvez o raciocínio diagnóstico terminasse aí.


Ainda hoje sobrevive a ideia de que a capacidade de reconhecer sofrimento, sentir compaixão ou preocupar-se profundamente com alguém constitui evidência contra uma PEA. A investigação contemporânea, incluindo os contributos associados ao problema da dupla empatia, obriga-nos a abandonar essa simplificação. Dificuldades na reciprocidade sociocomunicativa não equivalem à ausência de vida afectiva, incapacidade de vinculação ou indiferença perante os outros.


P. L. lembrava-nos disso em 1927.


Uma rapariga pode compreender a dor de outra pessoa e continuar a ter dificuldades significativas na navegação das relações sociais. Pode sentir muito e mostrar pouco. Preocupar-se profundamente e não saber demonstrá-lo da forma socialmente esperada. Possuir um forte sentido de justiça e, precisamente por causa da sua rigidez, entrar frequentemente em conflito com os outros. A empatia não exclui o autismo. Mas o estereótipo da ausência de empatia ainda pode excluir meninas do diagnóstico.


I. W.: quando o talento artístico afasta o olhar clínico


I. W. era outra menina.


Muito reservada. Pouco acessível. Evitava grandes grupos e preferia a companhia de uma ou duas pessoas. Recusava frequentemente aquilo que lhe era pedido e mostrava dificuldade em ajustar-se às exigências institucionais. Na sala de aula, mexia-se muito, contorcia-se no banco, manipulava os cadernos e ficava profundamente acanhada quando tinha de responder.


Também desenhava. E desenhava muito bem. A professora reconhecia nela não apenas competência técnica, mas criatividade e sensibilidade artística. É precisamente aqui que o passado começa novamente a tocar no presente.


As raparigas autistas nem sempre apresentam interesses que correspondem ao imaginário clássico construído em torno do autismo. O conteúdo pode parecer perfeitamente comum: desenho, literatura, animais, música, celebridades, histórias, línguas, psicologia, relações humanas. A diferença pode residir menos no tema e mais na intensidade, na sistematização, na função reguladora, no grau de absorção ou na forma como aquele interesse estrutura a experiência quotidiana.


Se procurarmos apenas comboios, calendários, números ou colecções facilmente reconhecíveis como "interesses restritos", podemos não encontrar aquilo que já decidimos previamente que deveria existir.


I. W. também era tímida. Corava. Disfarçava o embaraço através do riso e de caretas. Hoje talvez perguntássemos se existiria ansiedade social. Talvez PHDA. Talvez uma perturbação do humor. Talvez comportamento opositor.


Todas essas hipóteses poderiam ser legítimas. O problema surgiria se uma delas impedisse as restantes perguntas. É ainda assim que algumas raparigas desaparecem do diagnóstico, não porque os sinais estejam ausentes, mas porque são absorvidos por explicações aparentemente mais evidentes.


W. P.: querer alguém e fugir dessa pessoa


A terceira menina talvez seja uma das mais desconcertantes.


W. P. podia ser rude, sarcástica, explosiva e intensamente negativista. Em determinados momentos rasgava cadernos, atirava objectos e reagia agressivamente. Vista superficialmente, poderia parecer sobretudo uma criança com problemas de comportamento. Mas Shukareva continuou a observar. E encontrou outra coisa.


Por baixo daquela exteriorização existia uma rapariga relatada como sensível, terna e afectuosa. Procurava o médico com entusiasmo, mas quando ele se aproximava escondia-se ou fugia. Queria visitá-lo, chegava à porta, tocava à campainha e escapava quando alguém abria.


Queria aproximar-se. Não conseguia permanecer. Esta oscilação é extraordinariamente importante para compreendermos algumas apresentações contemporâneas da PEA.


Durante muito tempo, procurámos a ausência de interesse social. No entanto, desejar relações não significa possuir espontaneamente os recursos necessários para as iniciar, regular e sustentar. Uma mulher autista pode querer intimidade e sentir-se esmagada por ela. Pode sofrer de solidão e precisar simultaneamente de longos períodos de isolamento. Procurar amigos e ficar exausta depois de estar com eles. Desejar contacto e sentir sobrecarga quando esse contacto se torna imprevisível. Passar anos a interpretar esta aparente incoerência como uma falha pessoal.


Em W. P., aquilo que Shukareva conceptualizou através da noção de ambivalência pode hoje suscitar perguntas diferentes sobre regulação emocional, previsibilidade social, ansiedade, sobrecarga e gestão da proximidade interpessoal.


O comportamento observável é semelhante. A interpretação muda. E mudar a interpretação pode mudar uma vida.


L. K.: demasiado competente para ser legitimada


Depois surge L. K.


Talvez seja a menina de Shukareva que mais facilmente poderíamos imaginar a chegar aos nossos dias sem diagnóstico.


Era inteligente. Muito inteligente. Aprendeu a ler sozinha aos cinco anos. Tinha talento musical, improvisava, compunha e escrevia histórias. Compreendia ideias abstractas e demonstrava uma capacidade particularmente sofisticada para analisar emoções e relações humanas.


Mas havia outro lado. Era extremamente distraída, esquecia instruções simples, demorava muito tempo a vestir-se, iniciava tarefas sem as terminar, precisava de preparações demoradas antes de começar uma actividade e revelava dificuldades significativas na organização autónoma.


Não se ajustara ao jardim de infância. Inventava as próprias brincadeiras. Preferia frequentemente os adultos. Era lenta. Desajeitada. Insegura. Socialmente capaz, mas sem relações verdadeiramente próximas. Em 2026, L. K. talvez chegasse a uma consulta por ansiedade. Ou por dificuldades executivas. Talvez fosse avaliada para PHDA.


Poderia ser descrita como perfeccionista, sobredotada, excessivamente preocupada, emocionalmente complexa ou simplesmente "muito cerebral". E todas essas descrições poderiam conter alguma verdade. Mas será que alguém perguntaria também pelo autismo?

Este continua a ser um dos desafios fundamentais da avaliação no feminino. Competência verbal, bom desempenho académico, capacidade introspectiva e conhecimento sofisticado das emoções podem funcionar como falsos indicadores de ausência de PEA.


Confundimos saber explicar uma relação com conseguir vivê-la espontaneamente. Misturamos conhecimento social com intuição social. Juntamos desempenho com facilidade. Fundimos aquilo que a pessoa consegue fazer com o preço que paga para o conseguir.

Uma rapariga pode aprender intelectualmente aquilo que outras crianças parecem adquirir intuitivamente. Pode estudar pessoas como quem aprende uma língua estrangeira. Com tempo suficiente, pode tornar-se extraordinariamente competente nessa língua. Continuará, contudo, a ter de a traduzir.

 

N. W.: a menina difícil


N. W. era teimosa, brusca, provocadora. Entrava repetidamente em conflito com adultos e professores. Testava as pessoas. Desafiava regras. Tinha explosões. Parecia pouco afectiva e afirmava não gostar particularmente de quase ninguém.


Seria fácil ficar por aqui. "Comportamento problemático." Mas novamente aparecem fissuras nessa leitura.


N. W. era extremamente sensível à avaliação dos outros. Tinha receio de ser ridicularizada. Gostava de reconhecimento, embora o elogio a deixasse profundamente embaraçada. Lia muito. Tinha interesses intelectuais intensos, talento musical, capacidade dramática e aptidão para o desenho.


E há outro dado particularmente relevante. Melhorou quando encontrou um contexto mais favorável. A mudança de ambiente foi acompanhada por diminuição pronunciada dos comportamentos mais disruptivos, maior participação e progresso escolar.


Este aspecto deveria interrogar profundamente a prática clínica contemporânea. Quantos comportamentos interpretados como oposição são respostas à sobrecarga? Quantas recusas constituem tentativas de recuperar controlo perante situações imprevisíveis? Quantas explosões são analisadas exclusivamente como problemas comportamentais sem se investigar aquilo que aconteceu antes delas? Quantas adolescentes recebem explicações centradas na personalidade, no temperamento ou na desregulação emocional quando ninguém estudou adequadamente o seu perfil neurodesenvolvimental?


Uma criança que melhora quando o ambiente se torna mais ajustado não demonstra necessariamente que "afinal conseguia". Pode estar a demonstrar precisamente quanto o contexto participava na produção da dificuldade. Quase cem anos depois, continuamos por vezes a tentar corrigir a menina antes de interrogarmos o ambiente.


Cinco casos, cinco maneiras de não reconhecer uma PEA


É aqui que os registos de Shukareva se tornam especialmente perturbadores. Porque podemos colocar as cinco meninas lado a lado e imaginar cinco possíveis equívocos contemporâneos. P. L. poderia passar despercebida porque é empática. I. W. porque a timidez, a ansiedade e o talento artístico explicariam aparentemente as suas particularidades. W. P. poderia ser compreendida sobretudo através da desregulação e do comportamento opositor. L. K. talvez fosse considerada demasiado inteligente, verbal e psicologicamente sofisticada para corresponder ao estereótipo autista. N. W. poderia tornar-se "a adolescente difícil", aquela cuja conduta ocupa tanto espaço que ninguém pergunta pelo desenvolvimento que existe por baixo dela.


Cinco meninas. Cinco apresentações. Cinco possíveis erros clínicos. É precisamente por isso que talvez devamos ter cautela quando falamos no singular de "fenótipo feminino do autismo". Não existe uma única maneira feminina de ser autista.


Quando o autismo não se parece com autismo


A representação clínica da PEA foi construída durante décadas a partir de amostras predominantemente masculinas. Isso teve consequências. Aquilo que aprendemos a reconhecer como prototípico tornou-se também aquilo que passámos a procurar.


O problema é circular. Encontramos mais facilmente aquilo que sabemos procurar. Depois utilizamos aquilo que encontrámos para definir o que devemos procurar. As apresentações que se afastam desse protótipo ficam nas margens.


Nas raparigas, as dificuldades podem manifestar-se de formas menos imediatamente reconhecíveis. Os interesses específicos podem ter conteúdos socialmente comuns. As dificuldades relacionais podem coexistir com desejo intenso de amizade. Os comportamentos repetitivos podem ser discretos ou suprimidos em público. A reciprocidade pode ser parcialmente compensada através de observação e aprendizagem explícita. O sofrimento pode surgir predominantemente através de ansiedade, exaustão, perfeccionismo, dificuldades alimentares, sintomas depressivos ou desregulação emocional.


Isto não significa que exista um "autismo feminino" completamente distinto. Indica que o mesmo quadro neurodesenvolvimental pode tornar-se visível através de percursos diferentes.


Sexo, género, socialização, capacidades cognitivas, linguagem, personalidade, experiências adversas, contexto familiar, oportunidades de aprendizagem e condições coexistentes interagem entre si. A apresentação clínica é o resultado dessa dança.


A menina aprende a coreografia


Uma criança não cresce num vazio social. Desde cedo aprende aquilo que os outros esperam dela. Algumas raparigas observam cuidadosamente as colegas. Copiam expressões. Decoram respostas. Ensaiam conversas antes de estas acontecerem. Reproduzem gestos. Aprendem quando sorrir, quanto tempo olhar, o que perguntar, como demonstrar interesse. Extinguem movimentos que perceberam serem considerados estranhos. Constroem guiões.

A competência torna-se parcialmente aprendida. Por fora, integração. Por dentro, cálculo. É aquilo que hoje discutimos através de conceitos como camuflagem, compensação e mascaramento social.


Mas também aqui precisamos de prudência. Nem todas as mulheres autistas camuflam. Nem todas o fazem da mesma forma. Os homens também podem recorrer a estas estratégias. E transformar a camuflagem numa característica obrigatória do autismo feminino seria apenas criar outro estereótipo para substituir o anterior.


Ainda assim, há uma consequência clínica importante. O comportamento observado durante uma consulta pode não representar adequadamente o esforço necessário para o produzir. Uma rapariga pode estabelecer contacto ocular, sorrir, conversar, perguntar pelo outro, compreender ironia, ter amigos, manter uma relação amorosa, trabalhar, ser psicóloga, médica, professora, investigadora, artista ou gestora.


Nenhum destes elementos, isoladamente, exclui uma PEA. A pergunta clinicamente mais interessante deixa então de ser apenas "consegue fazer isto?". Passa a ser: Como consegue fazê lo, quanto esforço exige e o que acontece depois?


Quando a consulta acaba, começa outra parte da avaliação


Este ponto é particularmente relevante na avaliação de mulheres adultas. Uma pessoa pode permanecer noventa minutos numa consulta, conversar adequadamente, estabelecer contacto ocular, responder com humor e interpretar pistas sociais. O clínico observa proficiência. Depois regressa a casa e precisa de horas para recuperar. Essa segunda parte raramente acontece diante do avaliador.


Não vemos a exaustão posterior. Não assistimos à preparação mental que antecedeu a consulta. Não conhecemos as frases previamente ensaiadas. Não observamos a necessidade de isolamento. Não sabemos quantas vezes aquela mulher reconstruiu mentalmente a conversa depois de sair.


Se avaliarmos exclusivamente aquilo que aparece na sala, podemos confundir adaptação com ausência de dificuldade. Shukareva não possuía o conceito de camuflagem. Mas percebeu algo importante: aquilo que se vê exteriormente nem sempre corresponde à complexidade afectiva existente no interior. As suas meninas pareciam frias e eram sensíveis, indiferentes e sofriam, hostis e procuravam ligação, incapazes e eram intelectualmente competentes. Pareciam socialmente afastadas e preocupavam-se profundamente com aquilo que os outros pensavam delas.


Talvez o diagnóstico contemporâneo ainda tenha alguma coisa a aprender com esta atenção às discrepâncias.


O corpo também conta a história


Shukareva olhava para algo que actualmente nem sempre recebe a mesma atenção. O corpo. Descrevia a postura, a marcha, a coordenação, a angularidade dos movimentos, os gestos excessivos, os automatismos, a lentidão e diferentes particularidades psicomotoras.

Nas cinco raparigas, o corpo aparecia repetidamente como parte da história clínica. Este aspecto é relevante porque uma avaliação excessivamente centrada na conversação pode perder dimensões importantes do funcionamento autista. Coordenação motora, consciência corporal, interocepção, regulação sensorial, planeamento da acção e relação entre activação fisiológica e comportamento podem fornecer informação clínica significativa.


A PEA não acontece apenas na linguagem. Também acontece na forma como o corpo encontra o mundo. Na roupa que incomoda. No ruído que ninguém mais parece ouvir. Na dificuldade em perceber fome ou cansaço antes de estes se tornarem extremos. No tempo necessário para iniciar uma tarefa. Na necessidade de movimentos reguladores. Na exaustão depois de ambientes sensorialmente intensos. Na dificuldade em mudar rapidamente de um estado para outro.


Algumas destas dimensões estavam insinuadas nos corpos descritos por Shukareva muito antes de possuirmos a linguagem contemporânea para as compreender.


O perigo dos diagnósticos que explicam tudo demasiado depressa


Existe ainda outro paralelismo entre 1927 e o presente. Shukareva utilizava as categorias disponíveis no seu tempo. Nós utilizamos as nossas. A diferença é que nenhuma época está completamente protegida contra os próprios pontos cegos.


Actualmente, uma rapariga pode chegar à clínica com ansiedade, depressão, PHDA, perturbações do comportamento alimentar, perturbação obsessivo compulsiva, trauma, dificuldades de personalidade ou desregulação emocional. Qualquer uma destas condições pode existir verdadeiramente. Algumas podem coexistir com uma PEA.


O erro começa quando o primeiro diagnóstico encerra a investigação. A ansiedade pode explicar o medo de situações sociais, mas explica toda a história desenvolvimental? A PHDA pode esclarecer distração e dificuldades executivas, mas explica integralmente as particularidades relacionais, sensoriais e comunicativas?


O trauma pode alterar profundamente a relação com os outros, mas todas as diferenças estavam ausentes antes das experiências adversas? A perturbação alimentar explica a selectividade sensorial que existe desde a infância?


A depressão explica décadas de esforço consciente para abarcar regras sociais? O diagnóstico diferencial não deveria funcionar como uma competição em que uma hipótese precisa eliminar todas as outras. Deveria funcionar como investigação de camadas.


O diagnóstico tardio começa muitas vezes numa infância mal traduzida


Quando avaliamos uma mulher adulta, há uma pergunta inevitável: "Como era em criança?" A resposta raramente chega em linguagem diagnóstica. Chega através de adjectivos. Tímida. Sensível. Teimosa. Sonhadora. Distraída. Madura. Excêntrica. Perfeccionista. Desajeitada. Ansiosa. Independente. Inteligente. Difícil. Muito quieta. Demasiado intensa. "Vivia no mundo dela." "Gostava mais de adultos." "Tinha uma amiga de cada vez." "Levava tudo muito a sério." "Não suportava injustiças." "Chegava a casa completamente diferente."


É precisamente aqui que a avaliação retrospectiva exige competência clínica. Não basta procurar comportamentos. É necessário reconstruir funções. Perguntar não apenas se brincava, mas como brincava. Não apenas se tinha amigas, mas como mantinha essas amizades. Não somente se conversava, mas quanto da conversa era espontâneo ou aprendido. Não apenas se frequentava festas, mas o que acontecia antes, durante e depois delas. Não somente se tinha interesses comuns, mas qual era a intensidade e a função desses interesses. Não apenas se parecia adaptada, mas quanto lhe custava essa adaptação.


É uma mudança pequena na formulação das perguntas. Pode produzir uma diferença enorme naquilo que conseguimos ver.


Talvez não exista "o" fenótipo feminino


A expressão "fenótipo feminino do autismo" desempenhou um papel importante ao chamar a atenção para apresentações historicamente negligenciadas. Ainda assim, pode transformar-se numa nova armadilha.


Se passarmos a procurar uma mulher verbalmente competente, ansiosa, empática, socialmente interessada, com interesses aparentemente comuns e elevada camuflagem, construiremos simplesmente outro protótipo.


E haverá novamente alguém do lado de fora. As cinco meninas de Shukareva avisam-nos disso há quase cem anos. P. L. não era I. W., I. W. não era W. P. ,W. P. não era L. K., L. K. não era N. W.


Uma aproximava-se através da justiça e da sensibilidade. Outra refugiava-se no desenho. Uma terceira transformava a proximidade numa dança de avanço e recuo. Outra escondia dificuldades profundas sob inteligência, música e literatura. A última fazia do confronto uma forma de relação com ambientes que repetidamente não conseguiam compreendê-la.

Não precisamos de descobrir uma nova "menina autista típica". Precisamos de deixar de precisar dela.


Um bailado russo


Talvez seja por isso que estas cinco histórias fazem lembrar um bailado. Não um bailado delicado. Um bailado russo, intenso, angular, por vezes áspero. Cinco meninas entram em palco. P. L. mantém alguma distância, mas percebe imediatamente quando alguém foi injustiçado. I. W. permanece nas margens e desenha. W. P. avança em direcção a alguém e foge quando a distância se torna demasiado pequena. L. K. pensa, compõe, escreve, esquece aquilo que lhe pediram e demora uma eternidade a preparar o próximo movimento. N. W. enfrenta o mundo, testa quem se aproxima e parece perguntar, através do confronto, se aquela pessoa continuará ali quando ela deixar de ser fácil. Nenhuma dança da mesma maneira. Nenhuma representa todas as outras. É isso que importa.


Porque durante décadas procurámos uma coreografia única para reconhecer o autismo. Quem não executava aqueles passos ficava fora do palco diagnóstico. Hoje conhecemos mais passos. Temos melhores instrumentos. Possuímos critérios mais abrangentes. Falamos de camuflagem, diferenças de género, trajectórias desenvolvimentais, processamento sensorial, funções executivas, interocepção, dupla empatia e diagnóstico tardio. E, apesar disso, algumas mulheres continuam a chegar aos 30, 40, 50 ou 60 anos antes de alguém conseguir reunir a história inteira.


O que mudou em cem anos?


Mudou quase tudo. A "psicopatia esquizoide" deixou de ser a linguagem através da qual compreendemos estas apresentações. A PEA tornou-se uma condição do neurodesenvolvimento. A investigação cresceu exponencialmente. Os critérios diagnósticos evoluíram. Conhecemos melhor a heterogeneidade do espectro. Sabemos mais sobre desenvolvimento, cognição, processamento sensorial, condições coexistentes e diferenças individuais.


Mas talvez uma dificuldade tenha sobrevivido. Continuamos vulneráveis ao que esperamos encontrar. Se esperamos ausência de empatia, podemos não reconhecer P. L. Se esperamos interesses estereotipicamente autistas, podemos perder I. W. Se procuramos apenas afastamento social, podemos interpretar mal W. P. Se confundimos inteligência e competência verbal com ausência de autismo, L. K. pode continuar invisível. Se o comportamento disruptivo ocupar todo o campo de visão, talvez nunca cheguemos a conhecer N. W. É esta a ponte mais inquietante entre 1927 e o presente. Os critérios mudaram. Os nomes mudaram. As teorias mudaram.


Mas uma rapariga ainda pode permanecer sem diagnóstico porque não se parece suficientemente com aquilo que alguém aprendeu a chamar autismo.


As meninas nunca estiveram ausentes


Recuperar Shukareva não significa transformá-la numa heroína perfeita nem converter retrospectivamente todas as suas observações em diagnósticos modernos. A psiquiatria em que trabalhou pertencia a outro contexto histórico, conceptual e cultural. Significa reconhecer uma coisa muito mais interessante. As raparigas estavam lá.


Estavam na literatura clínica antes de Kanner publicar o seu artigo de 1943 e antes de Asperger apresentar o trabalho de 1944 que se tornaria historicamente associado ao seu nome. Foram observadas. Foram descritas. As suas diferenças foram comparadas.

E depois, durante muito tempo, a grande narrativa internacional do autismo tornou-se predominantemente masculina.


Talvez, por isso, a história do autismo no feminino não seja propriamente uma história de ausência. É uma história de reconhecimento. Ou, mais exatamente, de reconhecimento tardio.


As meninas estavam nas escolas, nos consultórios, nos hospitais, nas famílias, nos desenhos, nas histórias que inventavam, nas amizades intensas, nos conflitos, nas recusas, nos movimentos desajeitados, na sensibilidade extrema, nas explosões, no silêncio e na inteligência que por vezes ajudava a esconder precisamente aquilo que precisava de ser compreendido.


Estavam lá. Tal como muitas mulheres autistas sempre estiveram. Talvez nos tenha faltado a linguagem para as reconhecer. Talvez, outras vezes, nos tenha faltado a disponibilidade para desconfiar da linguagem que já possuíamos. Quase cem anos depois, as cinco meninas de Shukareva continuam a dançar.


Não executam os mesmos movimentos. Não seguem exactamente o mesmo compasso. Umas aproximam-se, outras recuam. Algumas escondem a dificuldade na inteligência; outras mostram-na através da recusa, da ansiedade, da intensidade ou do confronto.

O desafio clínico contemporâneo não consiste em ensiná-las a dançar todas da mesma maneira. Consiste em aprender a reconhecer a música mesmo quando os passos são diferentes. Porque talvez a pergunta mais importante deixada pelas meninas de Shukareva não pertença ao passado. Pertence aos nossos consultórios.


Quantas meninas e mulheres continuam sem ser reconhecidas, não porque o autismo esteja escondido, mas porque ainda estamos demasiado habituados a procurá-lo com uma aparência específica?


 
 
 

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