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Formei-me na universidade com distinção, mas ao fim de 10 anos fui despedido do emprego no Serviço Nacional de Saúde após a minha longa ausência devido à depressão e ansiedade!, refere Edmundo (nome fictício) com algum pesar. Se soubesse aquilo que tenho passado desde que iniciou a série The Good Doctor?, pergunta-me com um tom de retórica e de quem vai acrescentar mais alguma informação. No inicio tinha os meus pais a perguntar-me constantemente se já tinha começado a ver a série. Depois foram os meus irmãos, que com menos sensibilidade e frontalidade que lhes conheço que passaram a dizer que eu tinha começado uma carreira de televisão e não tinha dito a ninguém, acrescenta. Já em criança infernizavam-me a vida. Estavam constantemente com piadas e que na maior parte do tempo não as percebia. Pensava que seriam piadas porque as pessoas que estavam perto riam até não poder mais! Em compensação compreendia muitas outras coisas que os outros não percebiam nem que as desenhassem na sua frente. Agarrei-me a isso, até porque era a realidade que conhecia e de certa maneira sentia que isso deixava os meus pais tranquilos. A minha mãe parecia ficar orgulhosa. Digo isto porque não se cansava de mostrar os meus testes às amigas quando estas iam lá a casa. Não fosse o facto de me chamar nessas alturas e eu até compreendia. As amigas delas agarravam-me ou beijavam-me enquanto passavam a mão pelo cabelo como se eu fosse um cão. Aquilo era o mais parecido que eu tinha com um choque térmico. De seguida tinha que ir tomar banho. Não me pergunte porque não saia dali a correr?, pergunta-me. Ficava em choque. Não percebia aquela sensação de anestesiar. Procurava ler sobre o assunto mas nada. Nunca pensei que fosse nada de ordem psicológica ou até mesmo neurológica. Até porque era um jovem saudável, e nunca antes tinha tido um qualquer problema de saúde. Fazia exercício todos os dias sem falhar. Ainda hoje, tirando o período em que estive mais deprimido. Calculava tudo. A energia que ingeria e aquela que gastava. Na escola secundária até as raparigas não me largavam para saber como é que eu conseguia fazer isso de forma tão controlada e pediam-me conselhos sobre alimentação. Não percebia aquele frenesim, mas se queriam ajuda eu ajudava-as. O meu pai parecia ficar contente com isso quando eu dizia ao jantar que tinha ajudado as minhas colegas a emagrecer. Não percebia na altura quando ele me perguntava se eu não lhes tinha ensinado mais nada! E nessa altura os meus irmãos faziam sempre a mesma piada - Sim, faz também elas desaparecerem.


Eu não tinha ideia de quem eu era. Era o Edmundo, e isso parecia bastar. Nem sabia o que queria. Não que não houvesse possibilidades mas depois ficava a pensar constantemente nelas e acabava por não me decidir. Os meus pais diziam que eu podia ser Médico. E que com aquelas notas podia entrar onde quisesse. Não percebia porquê ser Médico. Conhecia alguns Médicos, principalmente aqueles que visitava por necessidade e eles não me pareciam ser assim tão inteligentes quanto isso. Ainda me lembro da vez que envergonhei os meus pais quando perguntei ao Pediatra se ele não tinha outras perguntas para fazer acerca do meu desenvolvimento! A reacção do Médico foi aquela que muitas vezes os meus colegas ao longo da minha formação académica tiveram quando eu fazia algum tipo de anotação em relação ao que eles respondiam. E muitos dos meus professores também não respondiam de forma diferente quando os interpelava. Nunca percebi a dificuldade das pessoas em aprender, parecem alérgicas. Os meus professores diziam-me que eu podia ser tudo, assim como algumas das minhas colegas. Não percebia porque poderia ser tudo e muito menos quando não sabia sequer o que eu queria ser. E ainda por cima quando via todos os outros a saberem o que ser. Mesmo até aqueles que não tinham jeito para nada. Até esses. Era uma revolta que sentia, percebe?, pergunta-me com um sentimento muito semelhante ao que descreve. Acabei por ir para Medicina. Na verdade os meus pais foram os únicos que apontaram um curso específico. Todos os outros se limitavam a dizer redundâncias. Mas continuava a não saber quem eu era. Era o Edmundo.


Não sabia que era autista. Nunca ninguém me tinha dito isso. Já me tinham dito muitas outras coisas, normalmente coisas menos agradáveis. Na altura quando me falou acerca desta questão do autismo confesso que fiquei renitente. Não que tenha alguma questão com os diagnósticos. Até porque se há coisa que eu tenho feito é isso. Mas penso que na altura reagi um pouco como muitos outros foram reagindo em relação aos meus comportamentos. E como tal não pensei na possibilidade do autismo como uma possibilidade para a minha pessoa. Isto faz-lhe sentido?, pergunta-me.


Com o aumento da compreensão dos meus diferentes processos de pensamento e sensibilidades sensoriais, passou a ficar mais claro porque me esforcei exercer medicina e por que esses problemas aumentaram à medida que progredi para a especialização. E ainda mais quando me casei e tive filhos. Principalmente com a necessidade crescente das multitarefas e a adaptação às mudanças constantes e inesperadas. Sempre achei que estava a trabalhar mais arduamente e com mais custo do que os meus colegas. E tudo isso para simplesmente me manter à superfície. Eu precisava de detalhes e desgastava-me em explicações desnecessárias para os outros e tudo isso levava mais tempo para me tornar confiante nos procedimentos e nas minhas próprias competências. Na verdade senti-me um idiota, compreende?, perguntava-me. E ainda por cima era a primeira vez na vida que me confrontava com essa possibilidade - a de ser um idiota. Sempre tinha vivido a pensar que os idiotas eram os outros e que eu era uma pessoa muito inteligente. Nada daquilo me fazia sentido e tudo parecia tornar-se cada vez mais intenso.


Parecer normal era exaustivo. Mas ainda me sentia um estranho e não me encaixava com os colegas. O atendimento dos pacientes não era problema, mas os acompanhantes já não posso dizer o mesmo. A quantidade de perguntas que tinham para fazer e todas as outras coisas para além da situação clinica que me traziam. Tudo aquilo era demais e eu não me sentia treinado para nada daquilo. Mas descobrir que havia uma razão biológica para eu ser obviamente inteligente, mas ainda assim ter de lutar com coisas aparentemente simples, finalmente ajudou-me a entender e aceitar as minhas diferenças. Poder passar a receber acompanhamento específico para o autismo. Além de passar a conectar-me com outros adultos autistas, incluindo médicos, ajudou-me a reformular as minhas experiências, aumentar a minha autoestima, gerir melhor os meus níveis de energia e ter a confiança para pedir os ajustes necessários a fazer no meu trabalho. Actualmente, estou a procurar novos caminhos na psicoterapia. Mas sinto que, se o meu autismo tivesse sido compreendido e apoiado mais cedo, acredito que teria tido uma carreira médica de sucesso, assim como para outras pessoas no espectro autista.


Sempre houve médicos autistas, sabe disso não sabe?, pergunta-me. Mas agora o campo da medicina, e o mundo em si, são mais desafiadores para o clínico neurodivergente navegar do que antes. O autismo não é desculpa para incompetência ou má conduta, mas também não é uma razão para que os empregadores impeçam a prática bem-sucedida e a progressão na carreira de médicos com autismo. Sei que tudo isto soa um pouco a activista, mas sinto que falta assumir esta posição, percebe? E tenho estado a reflectir sobre essa possibilidade também, acrescenta.


Sempre fui autista. Eu não sabia disso em criança, quando era totalmente obcecado pelo corpo humano e determinado a ser um médico, nem como um jovem adulto lutando contra a faculdade de medicina e os anos de formação. Não sei como cheguei a ser um anestesista especializado aos 40 anos, e principalmente sem que antes alguém o percebesse? Percebe a minha dúvida e estupefação, não percebe?, refere. Eu sempre tive que lutar contra os desafios sociais e sensoriais que acompanham o autismo, mas até recentemente, sem ter nenhuma ideia do que estava a acontecer. Até porque a vida parecia constantemente tão difícil e as outras pessoas pareciam ser tão estranhas. Sinto que houve múltiplas oportunidades para um diagnóstico preciso, mas que foram perdidas enquanto eu lutava em vão durante a minha vida adulta para encontrar ajuda para a ansiedade e depressão recorrentes.


Mas quando o meu filho foi diagnosticado como autista foi o princípio de tudo. Finalmente muitas coisas passaram finalmente a fazer sentido. O meu estilo de vida não convencional e a minha carreira, meus interesses sequenciais que são incomuns na sua variedade e intensidade, minhas preferências sensoriais e minha necessidade absoluta de solidão. Finalmente, entender que minha experiência de mundo é diferente daquela de pessoas não autistas permite-me entender as minhas necessidades e garantir que elas sejam atendidas, e neste ponto eu adoro ser autista. E com isso senti que os meus problemas de saúde mental têm reduzido drasticamente, nomeadamente a minha sintomatologia depressiva e ansiogénica. E a psicoterapia tem ajudado a encontrar um espaço onde tudo isto pode ser arrumado, mas isso você já sabe!, diz-me.


Ser diagnosticado ou a pessoa identificar-se como autista pode ser difícil para um médico. Pode parecer uma ideia que leva a um isolamento ainda maior. Até porque o autismo permanece amplamente incompreendido e, infelizmente, ainda é uma condição estigmatizada. A minha procura para me conectar com outros médicos autistas levou-me a ter essa consciência mais presente. Mas ao mesmo tempo a pensar na importância da ligação entre as pessoas autistas, sejam médicos ou não. No caso da medicina, sinto que há um enviesamento para a selecção de traços autistas, principalmente para aqueles que com esta condição apresentem uma maior funcionalidade. Aqueles que são altamente perfeccionistas e intensamente focados com grande foco de atenção aos detalhes e muitas vezes têm pontos fortes específicos no reconhecimento de padrões, habilidades que são claramente vantajosas na medicina. Até porque as pessoas autistas costumam ser pensadores criativos e solucionadores de problemas e, ao contrário das suposições populares, mostraram-se com alto grau de empatia. O facto de passar a haver um maior reconhecimento significa que mais alunos iriam entrar na faculdade de medicina com um diagnóstico de autismo existente. No meu caso, foi apenas quando as exigências na formação de pós-graduação e depois no exercício da prática independente, talvez juntamente com eventos adversos na vida, e que na maior parte superaram as estratégias de coping existentes. Nessa altura foi quando o diagnóstico surgiu. Tardio, mas felizmente surgiu. E com ele todos os apoios essenciais.


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