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Vozes de burro não chegam ao céu

Conhece a expressão? Não? A expressão - vozes de burro não chegam ao céu, aplica-se a quando alguém nos deseja mal ou diz alguma coisa infundada ou gratuita com a intenção de nos ofender ou melindrar. Ao ver esta fotografia não consegui não pensar em algumas coisas que tenho assistido ultimamente, ainda que não sejam novidade dentro do autismo. E como ainda hoje se continua a debater a utilização do puzzle em cor azul como sinal simbólico representante do autismo, não obstante as pessoas na comunidade autista dizerem que está na altura de mudar, ainda mais presente ficou esta vontade de escrever este post. Ao que parece continuam a haver profissionais de saúde que ao tomarem conhecimento de que o seu cliente fez uma avaliação a referir que tem o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, não deixam de partilhar de uma forma aparentemente nada cuidada o seu desagrado e opinião contrária face ao mesmo, deixando o seu cliente a desmoronar. Já várias vezes se tem assistido e ainda continuam, as situações das crianças e jovens que os professores dizem que estes não são nada autistas e que como tal não se justificam a implementação de quaisquer medidas a nível educativo. Isto mesmo quando os pais destas crianças e jovens fazem questão de partilhar o relatório de avaliação clinica realizada. Em relação aos profissionais de saúde, é preciso dizer que é importante poder respeitar a sua decisão clinica e poder inclusive debater em conjunto a mesma, quando ambas são diferentes. No entanto, é fundamental poder ter em conta que perante o cliente é fundamental respeitar a sua pessoa e ajuda-la a encontrar uma resposta para as suas questões e não o contrário. Se nós enquanto profissionais de saúde temos dúvidas em relação a alguma apreciação clinica que foi realizada, isso é uma situação plausível. Estamos sempre a aprender ao longo da vida e por demais conhecimento que possamos acumular em determinada área, haverá certamente lugar para continuar a fazer aprendizagens. Contudo, dizer - Agora todos são autistas!! ou Parece que ser autista virou moda!! e outras designações afins, é no mínimo um comportamento que fere as questões éticas e deontológicas que todos nós prometemos cumprir. Ninguém anda à procura de um diagnóstico. E isso inclui o autismo. Até porque é conhecido de todos, principalmente dos profissionais de saúde, o estigma social existente em relação à saúde mental e às pessoas com um diagnóstico psiquiátrica, nomeadamente de Perturbação do Espectro do Autismo. Além do mais é preciso ter em conta aquilo que vai sendo publicado em termos científicos face à própria epidemiologia do autismo. E se pensarmos que actualmente 1 em cada 100 pessoas apresenta um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, podemos pensar que faltam muitas pessoas, principalmente adultas por diagnosticar. E dentro destas principalmente as mulheres. Também é sabido que esta condição apresenta uma grande heterogeneidade, além da ocorrência de um conjunto de outras perturbações psiquiátricas associadas. E como tal, há uma maior dificuldade em fazer o diagnóstico. Não querendo com isso dizer que as pessoas andem à procura de ser autistas ao invés de terem uma Perturbação Bipolar, do Humor, Obsessivo-Compulsiva, Esquizofrenia, Ansiedade Social, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, etc. Tal como no exemplo da fotografia, se a pessoa não está a conseguir montar o puzzle tal como esperado, é preciso parar para pensar um pouco na razão de isso estar a acontecer. E inclusive em conjunto com a pessoa poder escuta-la para lá das nossas convicções e enviesamentos ou até julgamentos morais e poder reflectir sobre outras possibilidades. A tolerância e o respeito pelo Outro também são características que nunca sairam de moda, percebe?


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