Vestir a camisola

Já ouvimos várias vezes esta designação. Assim como já vestimos várias vezes a camisola. Ou seja, já nos empenhamos incondicionalmente numa causa, numa tarefa ou num projecto. No Espectro do Autismo, por várias ordens de razão, são vários aqueles que também vestem a camisola. Por vezes até o fazem mesmo que a camisola pareça de forma clara não servir. Sejam os próprios com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) que procuram advogar determinadas questões às quais se contradizem. Os pais das pessoas com PEA que parecem acreditar de forma inabalável em determinadas crenças ainda que todas as evidências apontem em sentido contrário. E claro, os próprios profissionais de saúde, que procuram esconder algum do seu receio em afirmar as suas próprias ideias ou convicções porque estas podem contrariar algum consenso construído por uma certa maioria. E o que é que isto tudo tem a ver com Pandas?

Em outubro de 2013 com a saída da DSM 5, que já em outras versões nos vinha habituando a quadros clínicos e diagnósticos controversos e longe do que é a pratica clínica, desta vez também não defraudou as nossas expectativas. E no caso das questões que tem mais a ver com a Perturbação do Espectro do Autismo, surgiram alguns outros diagnósticos que parece não fazer sentido a sua conceptualização. É o caso da Perturbação da Comunicação Social (Pragmática). Se formos ler os critérios de diagnóstico desta perturbação e tivermos estado desatentos na leitura do titulo podemos facilmente ficar com a ideia de que estaremos a ler os critérios da Perturbação do Espectro do Autismo.


A titulo de exemplo é descrito na Perturbação da Comunicação Social " dificuldades persistentes no uso da comunicação verbal e não-verbal para fins sociais, que se adequem ao contexto ou necessidades do interlocutor; dificuldade no cumprimento das regras de conversação e narrativa, assim como dificuldades na compreensão de inferências e sentidos não literais ou ambíguos. ". Muitos dirão logo que isto é uma Perturbação do Espectro do Autismo. Outros perguntarão. mas afinal de contas em que é que nós ficamos?! Não é então de estranhar que uma mesma pessoa possa ter mais do que um diagnóstico quando observado por diferentes profissionais.


Mas para além da DSM 5 ou a ICD 10 enquanto manuais de diagnóstico para as perturbações mentais. Existe todo um conjunto de movimentos, normalmente associado a certas equipas de investigação que vão libertando a ideia de outros possíveis diagnósticos.


A. tinha 2 anos quando os seus pais começaram a suspeitar que ele pudesse ter autismo. A. tinha problemas para fazer contacto ocular, mas havia também a evidência de outros sinais. Ele era uma criança calma e curiosa a maior parte do tempo, mas alguns dias na pré-escola ficava sem foco e descoordenado, mexendo em tesouras enquanto tentava cortar papel para projectos de arte. Na altura em que entrou no 1º ciclo, as suas características comportamentais tinham piorado. Ele começou a sentir maior ansiedade de separação e sobrecarga sensorial na sala de aula devido ao maior barulho. Passou a ficar mais desregulado e com alguns comportamentos mais reactivos e agressivos. Quando ele tinha 6 anos, por exemplo, ele acreditava que seu melhor amigo lhe dizia coisas desagradáveis ​​sobre ele e arranhou o amigo no rosto com um lápis. Em casa, A. costumava andar em círculos, com sinais evidentes de ansiedade. Ele acabou por ficar com tanto medo de que a sua comida estivesse envenenada, que se recusou a comer por longos períodos de tempo.


Os pais levaram-o a alguns especialistas diferentes durante esse período, incluindo terapeutas ocupacionais e psicólogos. Ninguém estava disposto a atribuir um rótulo à condição de Adam. Um médico diagnosticou A. com Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção e prescreveu uma intervenção farmacológica. Mas a terapêutica pouco efeito parece ter tido a fazer diminuir os pensamentos obsessivos.


Após isso os pais levaram-no a um outro centro especializado em autismo que após a observação da criança refere que a mesma não tinha PHDA nem Perturbação do Espectro do Autismo. Mas teria sim - PANDAS. Muitos estarão nesta altura a pensar que é uma brincadeira. Mas não é. PANDAS é um diminuitivo para Perturbação Neuropsiquiátrica Autoimune Pediátrica associada com infecção por estreptococos.

Este diagnóstico já foi proposto em 1998 por uma pediatra Susan Swedo que relacionava a associação entre uma infecção na garganta, comportamentos obsessivo-compulsivos e perturbação de tiques. A própria pediatra referiu que a prevalência era de 1 em cada 200 crianças. A partir de então são vários os profissionais de saúde que em alguns estados dos EUA que se procuram debruçar e estudar a incidência deste mesmo diagnóstico propondo um conjunto de terapêuticas para a sua intervenção. E no decorrer destes anos têm sido inúmeras as famílias que na procura de uma resposta para as características dos seus filhos acabam por aceitar o diagnóstico de PANDAS. Entre outras razões porque as características apresentadas são coincidentes com aquelas descritas por estes profissionais.


O propósito aqui não é contestar a possibilidade do surgimento de outros diagnósticos. É compreensível que com o desenvolvimento de novos instrumentos de diagnóstico e uma outra compreensão do comportamento humano e com a evolução das neurociências que possamos chegar a outras conclusões. Mas é fundamental que esta mesma evolução possa acontecer de acordo com um consenso da própria comunidade cientifica correndo o risco de uns e outros começarem a diagnosticar de acordo com a sua própria tabela de critérios de diagnóstico.

0 visualização

Informação útil:

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com