Velocidade furiosa 10.0

Sim doutor, o meu filho costumava alinhar frequentemente os carros! Quantas vezes esta e frases semelhantes foram repetidas nas consultas de Pediatria, NeuroPediatria e Psicologia? Sim Doutor, ele fica imenso tempo ali a fazer o mesmo. E se ninguém lhe disser nada, é capaz de passar ali o dia inteiro! Este, tal como algumas outras actividades, são aquilo que nós observamos na Perturbação do Espectro do Autismo, como "Padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou actividades" (DSM 5, 2013). Ainda vai sendo muito frequente pensar que estas e outras actividades, interesses e comportamentos podem e devem ser eliminados do repertório comportamental da pessoa autista por via da terapia. Isto porque se conceptualiza que estes têm um impacto significativo na vida da pessoa autista em vários contextos sociais, pessoais, académicos e profissionais. Penso conseguir compreender que o desenvolvimento de um comportamento intenso, tal como se observa frequentemente em algumas pessoas autistas, possa ter um impacto significativo na vida da pessoa. No entanto, talvez possa haver um outro enquadramento deste mesmo comportamento e procurar-se a via da integração deste comportamento ou actividade na vida da pessoa. Seja porque é algo que a pessoa escolhe realizar, mas também porque é gerador de bem estar, e pode inclusive vir a ser uma área de interesse em que a possa autista possa vir a investir em termos académicos e/ou profissionais. Por exemplo, Armani Williams, dos EUA, foi diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos dois anos de idade. Durante os primeiros anos de vida foi não verbal. A partir de determinada altura da sua vida, a família começou a ver o interesse demonstrado por Armani no que dizia respeito aos carros. E aos 8 anos de idade, Armani fazia corridas. A família apercebendo-se da sua competência para realizar aquele comportamento de condução procurou investir e desenvolver as competências do seu filho. Após vários anos de trabalho árduo, Armani é o primeiro corredor profissional da NASCAR com Perturbação do Espectro do Autismo. É verdade que muitas crianças no Espectro do Autismo fazem este mesmo alinhamento de carros sem aparente funcionalidade e nem todos irão ser corredores de Formula 1. Até porque as suas escolhas irão sendo orientadas para outras áreas da sua escolha. No entanto, penso que seja importante poder reflectir sobre a importância de integrar a realização destes mesmos comportamentos, interesses ou actividades na vida da pessoa. Seja porque é uma escolha e uma vontade da mesma, e é importante poder respeita-la. Porque estas mesmas actividades devolvem à pessoa algum sentimento de bem estar e harmonia. E também porque o envolvimento da pessoa nestas mesmas actividades leva a que em muitas situações a pessoa autista passe a ter um conhecimento alargado sobre o tópico. Vai sendo altura de podermos todos mudar um pouco o nosso paradigma e poder olhar de uma perspectiva algo diferente para o autismo.


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