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#VaiFicarTudoBem

Pela mão de uma amiga internauta tomei ainda à pouco conhecimento do conceito "romantização da quarentena". Não consegui não ir procurar. Ao fazer breves leituras percebi que "a oeste nada de novo". Perdoem-me a referência ao livro de Erich Maria Remarque sobre a I guerra mundial. Mas foi a primeira imagem que me ocorreu. As desigualdades, sejam elas de que natureza forem sempre existiram, continuam, e muito infelizmente irão continuar. Pode soar cruel e desprovido de esperança. Mas tal como em “a oeste nada de novo”, a guerra pode ter vários ângulos de compreensão. Mas a sua base está muito mais entrincheirado no lado humano da guerra. Na ausência de actos heróicos, mas antes na sobrevivência, o matar para não ser morto, entre homens que não desejam ali estar. O que é que isto tem a ver com o Espectro do Autismo? Experimentem perguntar a qualquer pessoa do Espectro do Autismo ou a um familiar seu quantas vezes já se sentiram neste “lado humano da guerra”!

A série "Everything's gonna be Okay" serve de mote para reflectir sobre este novo conceito de "romantização da quarentena". Deste lado que sobrevive e que deseja muitas vezes não estar ali. E que não sente vontade ou desejo de pendurar nenhuma bandeira a dizer #VamosTodosFicarBem (ver a crónica do José Soeiro no Expresso). É verdade que existem muitas pessoas desalojadas que vivem nas ruas e que a ideia de ficarem resguardadas em casa pode ser a qualquer coisa menos a sério. Mas não é apenas agora! Já o era em momentos em que o frio apertava e as campanhas para pendurar casacos nas árvores proliferaram. Talvez isto tenha sido um outro exemplo da "romantização não da quarentena mas da giesta". E quando desatou a chover como se não houvesse amanhã houve que pensar rapidamente em que fazer para acudir a quem já sabia prever a chuva muito melhor do que qualquer meteorologista. Ou as crianças que foram enviadas para casa e que não tem que comer ou pelo menos não em condições adequadas. Mas estas situações já antes o aconteciam nos períodos de férias escolares em que havia a necessidade de reabilitar as cantinas escolares para a alimentação adequada das crianças da comunidade. E o que dizer das mulheres e crianças vitimas de violência doméstica e maus tratos diários? Quando se diz para ficarem todos em casa? Vitimas e agressores! A quarentena já está cá há muito e a sua romantização também. Padecemos dela e procuramos a esperança para escapar a ela. E no entretanto uns e outros tornam-se humanos nesta guerra.


No Espectro do Autismo há muito que esta sensação é conhecida e continua a ser vivida. A série "Everything's gonna be okay" fala de pessoas, mulheres com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e de Identidade de Género e que se amam. Quase tudo nesta última frase parece ser inconcebível para muitas pessoas - mulheres com Perturbação do Espectro do Autismo, que são lésbicas e que se amam. Estas pessoas continuam a lutar diariamente pela igualdade entre nós neurotipicos. Desde o primeiro diagnóstico feito por Leo Kanner em 1938 que esta desigualdade perdura. Primeiro crianças que não se igualavam a nenhuma das outras crianças e que nem sequer conseguiam ou desejavam socializar com elas. E depois estas crianças cresceram e tornaram-se jovens que pareciam continuar a não ser compreendidos e para os quais parecia não haver um projecto educativo e formativo e passaram muitos deles a serem entregues às famílias e outros às instituições. E daqui para a frente parece que mais ninguém sabia o que aconteciam. O Autismo parecia encerrar ali.


Mas estes continuavam a crescer, dentro da família ou das instituições e tornaram-se adultos. Donald Tripplet, o primeiro a ser diagnosticado por Leo Kanner em 1938 hoje tem perto de 90 anos. E passou todos estes 90 anos a lutar dentro das desigualdades, do não reconhecimento ou compreensão. Não que Donald não tenha tido ou ainda continue a ter momentos felizes na vida. Tem e estão documentados quando ele próprio os reportou. Mas são muitos mais os momentos em que Donald sentiu o "lado humano na guerra". É verdade que hoje podemos fazer uma "romantização da quarentena", da vida enclausurada de Donald. E aqui não me estou a referir ao enclausurar que algumas pessoas referem que as pessoas no espectro do autismo vivem - fechadas em si próprias. Estou a falar da enclausura que as pessoas no espectro do autismo vivem perpetuado pelo "lado humano na guerra". Nas inúmeras pessoas que não compreendem mas também parecem não desejar compreender, ou respeitar as pessoas no Espectro do Autismo.


Em "Everything's gonna be okay" fala-se de um lado humano de todos nós. De um desejo de amar e ser amados, sermos cuidados, não obstante por quem. Fala de um lado humano do sentir das pessoas que partilham um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e de Identidade de Género, e que se amam. Após tudo isto passar não sei se #VaiFicarTudoBem. Espero que o Covid-19 desapareça. Mas suspeito que continue a haver um rasto deixado por si. Um trilho de desigualdades que parece ter ficado diluído neste período em que muitas pessoas se mobilizam para tornar a vida de muitos mais fáceis. Mas que após algum tempo vai voltar a verificar-se um aumento no caudal deste rio de desigualdades. Certamente que continuará a haver quem continuem a fazer bloqueios para que este rio não cause maiores danos. E se multipliquem em campanhas para os desalojados e para a reactivação das cantinas para alimentar as crianças nos períodos escolares ou criar residências para as pessoas vitimas de violência doméstica. Haverá necessidade que todos nós nos possamos sentir afectados por tudo isto, vírus ou não. E que a necessidade de sobrevivermos, "de matar e não ser morto", o lado humano de todos nós, deixe espaço para nos romantizarmos mas não deixarmos de ser tolerantes.

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