Uma cidade para nós

Quando me perguntam porque nunca fui viver para Lisboa, explico-lhes aquilo que muitas pessoas que vivem na Margem Sul sentem. Muitos continuam sem compreender, mas são empáticos com o facto de se ter uma ligação especial com determinado sitio onde vivemos - a nossa terra. Confesso que ao longo destes quarenta e alguns anos vi e vivi muitas transformações na minha terra, e nem todas são sentidas agradavelmente da mesma forma. A urbanização tem sido uma das forças motrizes mais significativas do desenvolvimento global recente. E mais da metade da população mundial vive hoje em cidades, e essa proporção continuará a aumentar rapidamente para chegar a 70% até 2050. Quando gerido adequadamente, a urbanização tem o potencial de criar oportunidades para uma vida melhor, proporcionar um caminho para sair da pobreza e actuar como um motor do crescimento económico. De facto, as cidades são frequentemente pontos focais para as actividades que são críticas para o desenvolvimento de um país inteiro. Mas enquanto a urbanização faz avançar a economia global, o aumento da desigualdade e a exclusão dentro das cidades podem inviabilizar o progresso do desenvolvimento. Nesse contexto, a comunidade internacional reconheceu a necessidade de criar cidades mais inclusivas e garantir que as pessoas possam colher os benefícios da urbanização. E tendo em conta as muitas características das pessoas autistas, nomeadamente os aspectos relacionados com a sensorialidade e a sobrecarga sensorial, navegação espacial, rede transportes públicos, falta de ofertas de emprego, uma rede habitacional adequada e de espaços verdes, etc. O design urbano típico não aprece de todo adequado para as pessoas autistas. E se queremos que as pessoas se sintam integradas num determinado espaço, precisamos de o pensar de acordo com a própria neurodiversidade populacional. Ou seja, pensar e contruir um espaço urbano apropriado para as pessoas autistas é cuidar de todos nós. Quem nunca sentiu que o ruido ambiental da sua zona de residência é excessivo? Ou a falta de espaços verdes, e ofertas habitacionais adequadas aos rendimentos e necessidades das pessoas? Na verdade, criar cidades inclusivas é cuidarmos de todos nós.

A geração de crianças autistas diagnosticadas está a envelhecer, e pressiona os cientistas, clínicos, pais e autistas a pensar no que vai acontecer com os autistas adultos. As cidades estão equipadas para pessoas não autistas, tipicamente criadas para uma pessoa idealizada sem deficiência ou qualquer limitação. Basta continuar a circular pelas nossas cidades e testemunhamos verdadeiros atropelos à circulação, mas mais do que isso, à vivência saudável, segura e inclusiva na cidade. Os ambientes urbanos adicionam uma sobrecarga sensorial, o trânsito em massa limita a acessibilidade para aqueles com determinada condição neurológica, fornece poucas unidades habitacionais acessíveis, oferecem muito pouca oportunidade de emprego, e não tem espaços verdes projetados para aqueles com autismo ou outros. O design urbano típico não leva em conta a paisagem e as proporções necessárias para os adultos autistas.


Se pensarmos em todo um conjunto de edifícios públicos, desde as escolas, passando pelas universidades, mas também a segurança social, finanças, centros de saúde, hospitais, etc. Estamos a falar de todo um conjunto de espaços que são habitados pelas pessoas ao longo da sua vida, nomeadamente pessoas autistas. É compreensível que há 80 anos quando começou a surgir os primeiros diagnóstico de autismo, as respostas, nomeadamente do planeamento arquitetónico para as cidades pudesse ainda não fazer sentido ter um enquadramento com perspectiva no funcionamento das pessoas autistas. Até porque durante muitos anos se pensou que o autismo existia durante a infância. A importância da investigação e dos clínicos centrou-se, e ainda continua muito centrada, no diagnóstico precoce, na descoberta das causas e dos marcadores biológicos e das respectivas intervenções. E muito pouco em pensar na adequação do espaço para a inclusão de todos em respeito pela neurodiversidade. Facto que nos leva a ter necessidade de medidas legislativas e outras para fazer com que as pessoas neurotipicas acedam a deixar estar uma pessoa autista na sala de aula com head phones ou óculos escuros, por exemplo. E aquilo que muitas pessoas autistas vão sentindo com muitas destas medidas é de que parece que lhes estão a fazer um favor. Quando na verdade, seja na Constituição da Republica e outra legislação exista um conjunto de artigos que referem estas questões como direitos inaliáveis de todos.


E todas estas situações e a falta de espaços adequados para a livre circulação e permanência das pessoas leva a um agudizar dos problemas das pessoas autistas. Sejam aquelas mais relacionados com a sua sintomatologia associada, nomeadamente, ansiedade e depressão. Mas também com o facto de se sentirem frustrados e penalizados de não conseguirem por si próprios resolverem as suas situações do quotidiano. Coisas aparentemente simples como as pessoas não saberem como tratar dos seus assuntos burocráticos, ou trem ideia de que vão ter de interagir com algumas pessoas para resolverem coisas como uma simples abertura ou encerramento de conta bancária, pode causar um aumentos dos níveis de ansiedade e impedir que a pessoa resolva a sua situação. Este facto pode levar a uma determinada situação de incumprimento que faz com que seja desenvolvido um mecanismo legal qualquer que a pessoa sente que não está capaz de resolver mais uma vez. Abrir uma conta bancária, pagar os seus impostos ou outros assuntos burocráticos do quotidiano são fundamentais para qualquer um de nós adultos. Podemos treinar as competências funcionais com as pessoas autistas em contexto clinico e até mesmo levar este treino para o contexto. Mas depois continuamos a sentir, e as pessoas autistas em particular, de que não há uma adaptação dos vários contextos com quem têm de continuar a interagir ao longo da vida. Um outro exemplo passa pela questão da prática de actividade física. Sabemos que as pessoas autistas apresentam uma maior predisposição para a obesidade. Entre vários factores, existe o facto das estruturas municipais e locais para a prática de actividade física, sejam publicas ou privadas, não estarem adaptadas para esta população.


Penso que poderia continuar infinitamente a dar exemplos. Para tal bastaria pensar em todas as coisas que faço no meu quotidiano com uma determinada facilidade e velocidade. E pensar que tudo isso ou a maior parte disso, é sentido como impossível, irrealista, incapaz de ser feito sem acompanhamento e que possa dar uma resposta em tempo útil às pessoas, para além de ser gerador de bem estar.

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