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Uma casa na pradaria

Em 1980, sábado às 16h00, significava correr para a televisão o mais que podias. Quem não se lembra da família Ingalls? Do pai Charles Ingalls, sua esposa Caroline e as filhas Mary, Carry e Laura. Éramos transportados para o Oeste selvagem, a terra das oportunidades, a colonização de terras selvagens e a conquista de um lugar entre a sociedade americana. Apesar do revivalismo saudável, lembrei-me desta série por causa da importância que a questão da habitação própria tem nas pessoas autistas adultas. Quando pensamos numa pessoa adulta, vêm-nos à ideia algumas palavras, tais como, autonomia, independência, mercado de trabalho, ter habitação própria, etc. No caso da questão da habitação, apesar de ainda existir, pelo menos em Portugal, esta questão cultural de que saímos de casa dos pais quando é para casar. O certo é que as dinâmicas tem sofrido bastantes alterações nos últimos anos. São cada vez mais os jovens adultos que procuram, mesmo que sozinhos, um espaço próprio para viverem, enquanto outros fazem-no com amigos ou colegas. Há uma maior diversidade sem dúvida, mas continua a ser necessário um conjunto de requisitos base para que a pessoa possa equacionar essa mesma possibilidade. Uma delas passa pela autonomia financeira. O jovem adulto necessita de estar integrado no mercado de trabalho e poder ter alguma estabilidade financeira, ainda que adaptado à sua idade, para poder enfrentar o mercado imobiliário de arrendamento ou casa própria através de empréstimo. Mas não é apenas esta a questão. Além desta estabilidade, é igualmente fundamental a pessoa ter um conjunto de competências funcionais de como gerir uma casa e um orçamento (uni)familiar. E se pensam que esta questão é menor, procurem gerir sozinhos a vossa própria casa durante um mês e depois reavaliem a importância destas competências! Limpar uma casa, gerir a roupa, despensa, refeições, pagar contas e outras burocracias parece uma tarefa infindável e que afunda muitos de nós em múltiplas tarefas e que nem sempre temos ou sentimos que temos as competências suficientes. Mas todo este processo que dá os seus primeiros passos por volta dos 25 anos de idade para muitos de nós, começa a ser desenhado muito antes dessa altura. Independentemente dos desafios que vão sendo encontrados ao longo da vida da pessoa autistas, sejam aqueles relacionados com determinadas aquisições no período da primeira infância, e depois as questões relacionadas com as aprendizagens académicas e outras competências, nomeadamente sociais e funcionais. O certo é que torna-se fundamental, a partir de determinada período durante a adolescência, começar a ajudar a pessoa autista a estar consciente da necessidade e importância do seu processo de autonomização para a vida adulta. Haverão certamente pessoas autistas com diferentes necessidades, nomeadamente se tiverem associado uma dificuldade intelectual ou outras questões genéticas, etc. Ainda assim, parece fundamental que possa ser conceptualizado a importância desta etapa e do que a mesma representa para a dignidade humana da pessoa autista na vida adulta o facto de poder ter acesso a habitação própria. Seja esta alcançada pelos seus próprios meios e de uma forma independente, como é o caso de algumas pessoas autistas adultas. Mas também parece ser importante poder considerar a hipótese da criação de residências autónomas e com determinado nível de apoio funcional e logístico para o suporte às pessoas autistas ali residentes. Adicionalmente, será importante que os responsáveis políticos possam entender que é fundamental poder ajudar a que as pessoas autistas e pessoas com outras condições neuropsiquiátricas, e com determinadas fragilidades, nomeadamente no assegurar da sua autonomia financeira, possam beneficiar de apoios para prosseguirem as suas vidas adultas de uma forma condigna com a sua condição de pessoa adulta. A forma de entendermos o que significa por autonomia e independência, e como é que a mesma se adapta a pessoas com diferentes perfil de funcionamento, parece em muito condicionar o delineamento e antevisão de determinadas necessidades fundamentais. Além de criar em muito de nós, inclusive profissionais de saúde, decisores políticos, além dos pais, uma postura vincadamente paternalista.


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