Um primeiro olhar
- pedrorodrigues

- 25 de jan. de 2021
- 2 min de leitura
Ainda é recente a ideia das mãe frigorifico e da responsabilidade destas enquanto causa do autismo nos seus filhos devido à sua frieza emocional. Foi entre 1950 e 1960 que o psicanalista Bruno Bettelheim propôs o termo. Apesar de termos avançado bastante no conhecimento em relação ao autismo, nomeadamente na sua identificação. Ainda há muita informação que continua por ser pouco ou nada conhecida. A maternidade no autismo é uma delas. Enquanto andamos à procura de um consenso em relação ao rácio por sexo de casos de autismo, em que muitos continuam a insistir numa prevalência de 4:1 (homens:mulheres). O certo é que a experiência clinica no acompanhamento de pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo, nomeadamente de mulheres adultas, dá-nos uma perspectiva qualitativamente mais abrangente, nomeadamente em relação à maternidade. Até porque continuamos sem saber o número de autistas adultos que são pais, mesmo que alguns estudos nos apontem que cerca de 17% a 23% de pais com crianças autistas apresentam um fenótipo do autismo alargado. E como tal, é possível que várias mães de crianças autistas possam ser autistas e não estarem diagnosticadas. Até porque as mulheres no espectro do autismo são em média diagnosticadas mais tardiamente do que os homens. E como tal, a vivência da maternidade no espectro do autismo é algo relativamente inexplorado. É falado sobre as experiências sensoriais intensificadas durante o período perinatal, incluindo a amamentação; o desejo de uma orientação clara dos profissionais de saúde e familiares; o stress sentido da pressão percebida para ser uma mãe perfeita; e a estigmatização de mães autistas como ‘maus pais’ por profissionais de saúde. No entanto, continua a ser fundamental mais investigação e uma atenção selectiva para a vivência da maternidade no autismo, para além do período perinatal. Para mulheres com dificuldade intelectual e desenvolvimental e condições psiquiátricas, a maternidade é muitas vezes uma experiência desejável, mas para as mães com uma condição psiquiátrica, o estigma associado com a sua condição tem um grande impacto em como elas se vêem como mães. Com relativa frequência as dificuldades sentidas e reportadas por estas mães prendem-se com a maior dificuldade na comunicação com os profissionais de saúde, percepção negativa da sua maternidade, como medo de julgamento das suas competências parentais por outras pessoas, e de taxas altas de depressão pós-parto. Além disso, existem outros desafios que são únicos para uma mãe autista, nomeadamente decidir quando revelar ou não a sua condição. Ainda que a generalidade das mães autistas refira a maternidade como uma experiência gratificante. Contudo, a viagem da maternidade no autismo é sentido como uma experiência mais isolada, principalmente quando comparado com as mães não autistas. O que torna as experiências de sentir que se está a agir como má mãe de forma mais intensificada, também por se estar a viver a situação mais isolada e sem a partilha deste sentir. Este exemplo da maternidade vivida no espectro do autismo, há semelhança de tantos outros temas fundamentais na vida adulta precisa de ser tida em conta. Não somente pela perspectiva das dificuldades sentidas pelas pessoas autistas ao passarem por estas experiências, principalmente justificadas por algumas das suas características comportamentais. Mas principalmente por uma perspectiva que dignifique a experiência humana vivida pela pessoa autista adulta nas suas mais variadas dimensões.




Fui mãe de cinco filhos, todos tive sensações diferentes.
Mas não fui indiferente. Senti que só eles me amavam, pois não me julgavam.
Fiz deles meus amigos, mas não meus dependentes e cada um tomou seu rumo na vida, e ficou somente a pequena com 7 anos também autista, que faço questão de prepará-la para o mundo no futuro e no presente.
Mas foi e é difícil sim. Muito difícil. Sempre fui julgada por não saber cuidar direito, mas fiz questão de cuidar do meu jeito, e eles me apoiam.