Um passo de cada vez

Passo número 1: "Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que tínhamos perdido o domínio sobre as nossas vidas.". Este é o primeiro dos 12 passos do programa com o mesmo nome criado nos EUA em 1935. Muitos outros passos têm sido dados até então na compreensão, intervenção, prevenção e redução de danos face ao consumos de substâncias. Mas como em muitos caminhos por vezes a vida troca-nos as voltas e os passos também. No presente momento entramos em Portugal na 4ª semana de quarentena e com várias medidas de isolamento fisico/social. As preocupações que no inicio se pareciam centrar única e exclusivamente na redução do contágio. Na última semana parece estar a olhar para o horizonte e a ver o impacto a médio-longo prazo que a situação de pandemia está e vai continuar a causar ao nível da saúde mental. Seja a dos profissionais de saúde que estão na linha da frente, mas também dos pais que estão a procurar conjugar uma díade já de si difícil de gerir - trabalho e família. Mas também as crianças e os jovens que se vêm em casa a procurar adaptar a um conjunto de rotinas igualmente diferente, nomeadamente no que diz respeito às actividades escolares. E aqueles que já de si estão mais vulneráveis, nomeadamente as pessoas com perturbações psiquiátricas e com situação de patologia dual associado ao consumo de substâncias psicoactivas.

Antes do cenário actual da Pandemia Covid-19 o quadro de consumo de substâncias psicoactivas e álcool em Portugal era conhecido. Nomeadamente, os interessados poderão consultar os relatórios existentes no site do SICAD - Serviço de Intervenção dos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (www.sicad.pt).


Por exemplo, no que diz respeito aos números do consumo de álcool temos as seguintes informações - "No INPG 2016/17 - IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal 2016/17 - realizado na população de 15-74 anos residente em Portugal, as prevalências de consumo de qualquer bebida alcoólica foram de 85% ao longo da vida, 58% nos últimos 12 meses e 49% nos últimos 30 dias, sendo um pouco inferiores as do grupo de 15-34 anos (83%, 52% e 41%). Entre os consumidores atuais, o consumo diário/quase diário de alguma bebida alcoólica era de 43% (20% dos inquiridos), com 35% dos consumidores a ingerirem diariamente vinho e 15% cerveja, nos últimos 30 dias. As prevalências de consumo binge e de embriaguez severa nos últimos 12 meses foram de 10% e 5% nos 15-74 anos (17% e 9% dos consumidores), e de 11% e 7% nos 15-34 anos (22% e 14% dos consumidores). Quanto a padrões de consumo abusivo ou dependência de álcool, 2,8% da população (4,9% dos consumidores) tinha, nos últimos 12 meses, um consumo considerado de risco elevado/nocivo e 0,8% (1,3% dos consumidores) apresentava sintomas de dependência (AUDIT), sendo as proporções correspondentes nos 15-34 anos de 2,4% e 0,4% (4,7% e 0,7% dos consumidores).".


A situação do consumo de álcool continua a ser um fenómeno preocupante a nível mundial e em Portugal também, nomeadamente por todas as razões e mais aqueles que se prendem com as questões culturais. A memória ainda é fresca para a frase "Beber vinho é dar de comer a um milhão de Portugueses.". Além do mais o álcool é visto de uma forma mais socialmente aceite comparativamente a outras substâncias, nomeadamente o tabaco. Por exemplo, se estivermos numa ocasião social e alguém nos oferecer um copo de vinho e nós recusarmos é algo mais estranho do que no caso da oferta ter sido um cigarro. Recusar um cigarro é visto nos dias de hoje como algo mais socialmente aceite contrariamente ao álcool. Nomeadamente nesta última situação é muito comum que a pessoa que esteja a oferecer um copo de vinho continue a insistir na situação com a outra pessoa. Podendo até no extremo a recusa ser visto como uma atitude menos agradável por parte da pessoa que recusa. Ainda em relação ao álcool parece importante falar da conjugação deste com um conjunto significativo da população, nomeadamente com perturbação psiquiátrica e com traços nomeadamente de ansiedade. É comum as pessoas usarem o álcool como uma ferramenta para os desinibir socialmente. As pessoas com uma Perturbação de Ansiedade Social que o digam quantas vezes ingeriram determinadas quantidades de álcool para sentirem que conseguem aguentar um determinado evento social. Mas não são os únicos a terem questões com o uso desregrado de álcool. Por exemplo, começo a encontrar cada vez mais pessoas com uma Perturbação do Espectro do Autismo a recorrerem ao uso de álcool para conseguirem ultrapassar determinou obstáculos sociais.


Ainda no mesmo relatório mas em relação ao consumo de substâncias psicoactivas se pode ler - "No IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal 2016/17 (INPG 2016/17) realizado na população residente em Portugal (15-74 anos), as prevalências de consumo de qualquer droga foram de 10% ao longo da vida, 5% nos últimos 12 meses e de 4% nos últimos 30 dias, verificando-se aumentos face a 2012, sobretudo do consumo recente e atual. A cannabis, a cocaína e o ecstasy foram as substâncias ilícitas com as maiores prevalências de consumo, embora as duas últimas muito aquém da cannabis. De um modo geral, a população de 15-34 anos apresentou consumos recentes mais elevados do que a de 15-74 anos. Em relação a consumos recentes mais intensivos de cannabis, 3% dos inquiridos (64% dos consumidores) consumiu 4 ou mais vezes por semana nos últimos 12 meses, e 2% (55% dos consumidores) todos os dias. Quanto ao consumo atual, 3% dos inquiridos (69% dos consumidores) disse ter um consumo diário/quase diário nos últimos 30 dias. Em relação a padrões de consumo abusivo e dependência de cannabis, em 2016/17 cerca de 0,7% da população de 15-74 anos residente em Portugal tinha um consumo considerado de risco elevado (0,4%) ou de risco moderado (0,3%), quase duplicando o valor correspondente (1,2%) nos 15-34 anos (0,6% com consumo de risco elevado e 0,6% de risco moderado) (CAST). Tal também sucede nos resultados de outro teste (SDS), em que 0,8% da população de 15-74 anos apresentava sintomas de dependência do consumo de cannabis, sendo a proporção correspondente nos 15-34 anos de 1,4% (19% dos consumidores recentes).".


No consumo de substâncias psicoactivas e em relação à população com quem tenho trabalhado mais a nível clinico ultimamente é possível verificar-se um ligeiro aumento nos números. São alguns aqueles que com Perturbação do Espectro do Autismo usam a canibais e outras para poder aliviar alguma da sua sintomatologia, nomeadamente a ansiedade. Os resultados conhecidos em termos dos consumos é um fenómeno multifactorial e que se cruza com um conjunto igualmente complexo de factores psicossociais e ambientais. E todos eles juntos num contexto de pandemia e com medidas aumentadas de isolamento potencia o aumento dos consumos mas também o impacto e a gravidade da situação.


Por exemplo, a Associação Portuguesa de Patologia Dual, produziu recentemente um comunicado relativo aos cuidados com estes doentes. Salientando alguns tópicos considerados importante: 1) devido à quarentena e dos rigorosos controlos policiais implementados para os fazer cumprir, é muito provável que haja falta de substâncias psicotrópicas no mercado ilegal; 2) a dificuldade em adquirir as substâncias psicotrópicas pode induzir quadros de abstinência; 3) a falta das substâncias psicoativas pode provocar a descompensação da patologia psiquiátrica, com a possibilidade de os doentes apresentarem alterações de comportamento; 4) a coabitação corre o risco de vir a ser muito difícil para muitas famílias, que, para além de suportar o stress induzido pela quarentena, ainda terão de acolher os seus familiares e que atualmente vivem na rua; 5) muitos doentes vivem em situação de marginalidade e poderá ser necessário colocá-los em quarentena, o que será, para muitos deles, difícil de suportar; 6) é preciso recordar que, se a saúde mental é já habitualmente dotada de recursos precários, estes doentes, devido à sua especial complexidade clínica e seus custos elevados, podem sofrer duramente os efeitos duma pandemia que está em risco de esgotar os recursos sanitários.


A ansiedade sentida, mas penso que a angústia que se tem apoderado de cada vez mais pessoas que já se encontravam em situações de vulnerabilidade e fragilidade psicossocial, mas também aqueles que devido à sua predisposição neste contexto têm ficado igualmente mais vulneráveis é compreensível que o consumo de substâncias possa estar a ser usado como um amortizador de todo este sofrimento. Não estou a querer justificar os consumos, senão a procurar enquadra-los. Seja no presente contexto mas também naquilo que têm sido as várias políticas de saúde e de saúde mental postas em prática para dar uma resposta. A importância de precocemente dar às crianças ferramentas para lidar com a frustração e a aprenderem a adiar o desejo. Assim como a possibilidade de nos conferirmos o direito a nos sentirmos tristes, ansiosos ou angustiados leva a que tenhamos a possibilidade de exteriorizar simbolicamente o nosso mal estar. Seja através da palavra no diálogo com o Outro, ou através das artes. Tudo isto ao invés de nos sentirmos impelidos a obter aquilo que queremos no momento imediato e fugirmos o mais rapidamente possível de todo e qualquer sofrimento.

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