Um espectro de sem abrigo

Desde 1948 na Declaração Universal dos Direitos Humanos que o direito de cada pessoa a um nível de vida condigno está consignado. A natureza deste fenómeno é complexa e multidimensional. Nomeadamente, das situações e dos processos que conduzem à existência de pessoas em situação de sem-abrigo. No âmbito da caracterização desta população têm sido vários os relatórios que apontam uma percentagem preocupante de pessoas com perturbações mentais. O combate à erradicação deste fenómeno passa obrigatoriamente pela melhoria das condições de saúde mental das mesmas. Mas intervir em situações de sem-abrigo com perturbação mental obriga a um trabalho diferenciado e adaptado às situações especificas, nomeadamente quando as pessoas têm ou suspeita-se terem uma Perturbação do Espectro do Autismo.

"Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha tecto

Não tinha nada Ninguém podia Entrar nela, não Porque na casa Não tinha chão"


Vinicus de Moraes


Considera-se pessoa em situação de sem-abrigo aquela que, independentemente da sua nacionalidade, origem racial ou étnica, religião, idade, sexo, orientação sexual, condição socioeconómica e condição de saúde física e mental, se encontre: sem tecto, vivendo no espaço público, alojada em abrigo de emergência ou com paradeiro em local precário; ou sem casa, encontrando-se em alojamento temporário destinado para o efeito.


O Zé carlos (nome fictício) viveu nas ruas por 45 anos e, nos últimos anos, tornou-se cada vez mais debilitado fisicamente. Apesar disso, ele recusou todas as ofertas de ajuda, e ficou claro para as equipas de apoio que ele achava a interacção social de qualquer tipo muito angustiante. Foi somente quando por uma necessidade de internamento hospitalar que se percebeu que ele poderia ter uma Perturbação do Espectro do Autismo. E só posteriormente a este achado é que as equipas locais de intervenção passaram a ser capazes de adaptar a sua abordagem para apoiá-lo a sair das ruas para um albergue.


O Zé Carlos e outros/as com uma Perturbação do Espectro do Autismo têm um conjunto de características que os torna mais propenso a virem a ser um sem-abrigo. Por exemplo, situações que vão sendo desenvolvidas desde cedo como uma maior dificuldade em se enquadrarem nos padrões sociais normativos. Por exemplo, o Zé Carlos mostrava desde cedo uma maior dificuldade em ter redes sociais ou qualquer outro tipo de cartões bancários ou outros. Referia que o identificava perante as autoridades e o governo e era algo que Zé Carlos sempre fugira. O próprio número de contacto o Zé Carlos nunca o passou a ninguém com receio de poder ser identificado. E ao fim de algum tempo deixou mesmo de usar telemóvel. Se pensarmos nos dias de hoje há uma quantidade infindável de situações em que nos vemos obrigados a ser identificados. E este tipo de sentimento pode afastar-nos. Mas há todo um outro conjunto infindável de normas sociais que muitas pessoas no espectro do autismo sentem dificuldade em compreender e em seguir.


Quando chegados à vida adulta e com uma maior dificuldade em se tornarem autónomos e assegurarem a sua subsistência através de um trabalho, a probabilidade de ficarem mais desprotegidos aumenta. O facto de no espectro do autismo haver uma maior probabilidade de desenvolvimento de outras perturbações psiquiátricas associadas ao quadro clínico torna-se mais complexo e são muitas as situações em que a desregulação emocional e os episódios de conflito aumentam, havendo necessidade de pedidos de internamento compulsivo.


Há pouco foco sobre se as pessoas autistas podem estar super-representadas entre a população de rua. O autismo é uma condição caracterizada por diferenças na maneira como o cérebro se desenvolve. As pessoas autistas mostram dificuldades com as competências sociais, processamento sensorial incomum e tendência à inflexibilidade e interesses restritos. Muitas pessoas autistas, com o apoio certo, vivem uma vida plena e satisfatória. Infelizmente, esse apoio costuma faltar e muitos adultos autistas lutam para encontrar emprego e moradia sustentáveis.

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