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Um espectro de custos

Alguns terão consciência dos custos associados aos cuidados médicos e terapêuticos quando se tem alguém ao encargo com uma perturbação mental. Até porque vivem essas situações na primeira pessoa. E sentem que a resposta fornecida pelo Sistema Nacional de Saúde é escasso em vários domínios das respostas necessárias. Alguns poderão ter a sensação que esse custo não o atinge. Até porque não tem o próprio ou alguém a seu encargo com uma perturbação mental. Mas engana-se. O facto de não haver uma resposta concertada para a Saúde Mental, e mais especificamente para a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) leva a que haja um custo a ser pago por todos nós. E não pensem que é pouco!

Pensem que a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é possível de ser diagnosticada na infância. E como o próprio nome indica tem uma grande heterogeneidade de apresentações e com diferentes níveis de gravidade. As consultas médicas de especialidade começam a ter de ocorrer com mais frequência. Para além dos custos directos com o preço da consulta de Neuropediatria no regime privado. Sim, no regime privado, até porque é sabido que a resposta pública desta especialidade é bastante mais demorada. Mas também precisamos de considerar as horas ou dias de ausência dos pais para acompanhar os seus filhos às consultas. E que neste caso são mais frequentes. para além das consultas médicas, há a considerar a Terapia da Fala, Psicomotricidade ou Psicologia. E neste caso a frequência é maior. Podemos estar a falar de consultas bi ou tri-semanais no caso da Terapia da Fala e Psicomotricidade. As de psicologia poderemos falar em casos mais severos de uma frequência bi-semanal. Ainda que tudo isto dependa do modelo de intervenção. Por exemplo, se for de acordo com o Modelo ABA haverá certamente um número de horas de intervenção com uma equipa multidisciplinar por semana bastante considerável.


E esta situação não vai deixar de ocorrer com o tempo. Até porque a PEA é uma condição que acompanha a pessoa ao longo do ciclo de vida. E como tal as terapias e as consultas vão continuar. E com um custo directo nos preços das mesmas mas também no número de vezes que os pais necessitam de se ausentar nos seus empregos. Em situações mais graves o próprio grupo familiar chega a ponderar a possibilidade de um dos progenitores deixar de trabalhar para ficar com os filhos em casa no apoio às terapias e para dar uma resposta adaptada às necessidades. Nesta situação está previsto a legislação um valor a atribuir ao agregado familiar para prestar este tipo de apoio.


Ao nível da Escola há a necessidade de recrutar um conjunto de técnicos especializados (Professores Educação Especial, etc.) para poder dar uma resposta às necessidades no contexto onde as crianças e os jovens estão.


Se pensar que continua a existir um número de situações significativas de casos que não são diagnosticados precocemente nem em tempo útil. Aquilo a que assistimos é a um agravamento não só do caso clínico da pessoa mas normalmente com um agravamento da saúde mental do próprio agregado familiar. E consequentemente com um aumento do número de baixas por situação psiquiátrica relevante. Nestas situações e atendendo à gravidade as respostas a dar são por norma mais e os resultados nem sempre são aqueles desejados. Até porque se perdeu um período fundamental do desenvolvimento para intervir.


Voltando aos casos em que a detecção e a intervenção foi feita precocemente e até tem tido resultados significativos nas características comportamentais da pessoa e a tornar mais funcional, a nível social, pessoal e funcional. É sobejamente sabido das dificuldades da entrada e manutenção dos jovens com Perturbação do Espectro do Autismo nas Universidade e cursos superior, sejam técnicos ou não. O número de abandono escolar no Ensino Superior ainda é superior a 60% e são muitos aqueles que optam por nem sequer continuar a sua formação. O que faz com que este grupo possa estar menos capacitado para a etapa seguinte - mercado de trabalho.


A entrada nesta etapa na vida adulta continua a ser muito difícil. Seja porque os próprios possam não estar suficientemente capacitados para dar uma resposta adequada às exigências do mercado. Mas também porque o próprio mercado não está capacitado, sensibilizado e preparado o suficiente para receber as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo.


Em suma, há um número significativo de adultos com PEA que vão continuar dependentes do Estado ao longo da sua vida absorvendo um determinado conjunto de recursos que podia e deviam estar a ser aproveitados de outra forma com este mesmo grupo ao longo do ciclo de vida. Se pensarmos que 1 em cada 100 nascimentos uma pessoa tem uma Perturbação do Espectro do Autismo. Façam as contas aos custos que são claramente divididos por todos. Até porque a saúde mental é uma responsabilidade de todos nós.

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