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U (/juː/) care. Se experimentar fazer uma pesquisa sobre a Perturbação do Espectro do Autismo no Ensino Superior irá deparar-se com alguns manuais, principalmente em língua Inglesa. E na grande maioria estes têm títulos como "Teaching University student with Autism Spectrum Disorder" ou "A freshman survival guide for students with Autism Spectrum Disorder", mas também "The Parent's guide to College for students on the Autism Spectrum", etc. Ou seja, continuamos a ter o ónus da situação colocado na pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo. Como aquela que precisa de ser mudada, moldada, aperfeiçoada para se melhor adaptar ao mundo neurotipico, neste caso especifico, à Universidade. Como se a Universidade fosse um espaço neurotipico e não um espaço neurodiverso. Mas quando pensamos na Comunidade Académica, temos para além dos alunos, os professores, investigadores e funcionários. Tendo em conta que todos estes intervenientes necessitam de contactar uns com os outros numa base regular, parece-nos fundamental capacitar todos os intervenientes e não apenas os alunos com Perturbação do Espectro do Autismo. E se tivermos em atenção a uma das queixas fundamentais e recorrentes dos alunos com PEA no Ensino Superior, esta centra-se nas suas dificuldades em interagir com o pessoal docente. Seja nas questões relacionadas com o processo de avaliação, mas também na realização dos trabalhos de grupo/individual ao longo do semestre ou a forma como as aulas são conduzidas e os materiais e conteúdos são partilhados, etc. Como podemos perceber, todas as situações que descrevem a interacção do aluno com o docente universitário é sentido como difícil. E quando não tem uma resposta adequada leva a que o aluno não consiga realizar a Unidade Curricular. Por exemplo, se num primeiro semestre no 1º ano o aluno apenas conseguir realizar duas das cinco Unidades Curriculares, conseguimos compreender o acumular de dificuldades e que normalmente culmina no abandono precoce do aluno com PEA do Ensino Superior. No Reino Unido estima-se que cerca de 60% dos alunos com PEA que vão para o Ensino Superior não terminam a sua formação. Mas então, e quem ajuda os docentes universitários a compreender a pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo? Por exemplo, ninguém questiona a necessidade de haver professores capacitados ao longo da educação escolar obrigatória. Então, porque não pensar desta forma para o Ensino Superior? As Universidades têm a missão de atrair, educar, e reter diversos alunos. E para cumprir este objetivo, é necessário compreender a natureza dos diversos perfis de alunos e as práticas educacionais que prometem maximizar o sucesso para todos. Nos últimos anos temos verificado que cada vez mais jovens com condições neuropsiquiátricas estão a completar o Ensino Secundário e a entrar no Ensino Superior. Para além de alunos com Perturbação de Ansiedade e Depressão, sendo as duas condições psiquiátricas mais comuns na população em geral. Vemos chegar às Universidades alunos com Dificuldades de Aprendizagem Especificas (e.g., Dislexia), Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, mas também com Perturbação do Espectro do Autismo. Para compreendermos então porque continua a haver uma percentagem tão grande destes alunos que não conseguem terminar a sua formação superior, não obstante ter chegado a esta etapa, parece-nos fundamental começar por pensar no percurso destes próprios alunos principalmente no Ensino Secundário. E neste ponto, sublinho aquilo que nos parece ser fundamental, que á a transição do processo do aluno com Perturbação do Espectro do Autismo do Ensino Secundário para o Ensino Superior. Ou seja, parece-nos ser evidente que todo o processo de trabalho conjunto com o aluno e sua respectiva família no Ensino Secundário, possa ter uma continuidade no Ensino Superior, ainda que de uma forma adaptada à nova realidade. Nomeadamente, as estratégias que foram sendo usadas e as adaptações necessárias, podem e devem ser transitadas para a nova etapa do aluno. Mas a questão ainda se mantém, sobre quem pode ajudar os docentes universitários a compreender o aluno com Perturbação do Espectro do Autismo? E se perguntássemos aos docentes universitários quais as suas ideias sobre os pontos forte e fraco a nível académico dos alunos com Perturbação do Espectro do Autismo? Ou quais as ideias que os docentes universitários tê, sobre as competências de pensamento critico e os desafios exibidos por estes alunos? Mas também quais as práticas institucionais que os docentes julgam serem eficazes para os alunos com esta condição? Quais seriam as respostas obtidas? Provavelmente iríamos ter um número muito reduzido de respostas, principalmente devido ao desconhecimento que existe, também nos docentes universitários do que é a Perturbação do Espectro do Autismo. Mas também poderíamos observar todo um conjunto de respostas que estariam ancoradas naquilo que são as crenças e os mitos acerca da Perturbação do Espectro do Autismo. Como tal, a partir daqui, podemos verificar a pertinência e a importância da capacitação dos docentes universitários para compreender esta condição. E ao estarmos a referir a importância para o Espectro do Autismo, a mesma deve ser entendida para todo um conjunto de outras condições. O que nos leva a sublinhar a importância de se olhar para o modelo do Desenho Universal para a Aprendizagem como parte da resposta para esta questão aqui levantada. Com efeito, cumpre universalizar o acesso à educação para todos, assegurar que todas as pessoas – crianças, jovens e adultos – tenham oportunidades educativas que vão ao encontro das suas necessidades de aprendizagem e promover a equidade, sendo que estas constituem preocupações fundamentais assinaladas na Conferência Mundial sobre Educação para Todos e reafirmadas posteriormente. O Desenho Universal para a Aprendizagem refere-se a estratégias educacionais destinadas a envolver e apoiar diversos grupos de alunos que podem variar, por exemplo, em idade, sexo, raça / etnia, status de imigrante, histórico de idioma ou status de deficiência. Este modelo não é uma abordagem de tamanho único que sirva para todos, mas sim uma abordagem adaptativa e flexível para a educação que incentiva a tolerância e a aceitação da diversidade no ambiente universitário, proporcionando aos alunos várias e variadas oportunidades para participar na co-construção de informações e para demonstrar a sua compreensão. Para que possamos compreender de uma forma mais alargada esta conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem deixem-me partilhar com vocês que este conceito já data do inicio dos anos 70 do século XX, em referência a arquitectónicos que foram implementados para tornar os edifícios acessíveis a uma maior diversidade de cidadãos. O princípio fundamental desta abordagem é o afastamento das modificações post hoc. Em outras palavras, em vez de adicionar uma rampa para cadeiras de rodas num prédio para atender pessoas que estão em cadeiras de rodas. Esta mesma rampa deveria ser projectada como parte integrante do edifício, logo na fase de projecto. A rampa não seria útil apenas para um pessoa que usa cadeira de rodas, mas pode ser usada por um trabalhador que empurra cargas pesadas para o edifício ou por uma mãe ou pai com um carrinho de bebé. Para qualquer um de vocês esta explicação do Desenho Universal para a Aprendizagem não vos deixa qualquer dúvida e importância da sua aplicação. Então por que não a aplicar a outras condições e em todo o contexto universitário? Não obstante todo este conhecimento desenvolvido e acumulado, principalmente a partir do trabalho realizado nas Universidades, parece-nos no mínimo irónico, que os alunos com Perturbação od Espectro do Autismo e outros com várias condições, continuem a sentir um conjunto tão grande de dificuldades que os leva a abandonar precocemente o Ensino Superior. É fundamental poder ir ao encontro dos docentes universitários e poder compreender as suas fragilidades seja no conhecimento em relação à Perturbação do Espectro do Autismo, mas também no saber interagir com estes seus alunos. Não se trata apenas de poder dar mais tempo para a realização da avaliação, permitir que os trabalhos sejam realizados individualmente ao invés de ser em grupo, entregar antecipadamente os materiais pedagógicos para que os alunos possa preparar-se antecipadamente, etc. O relação entre o docente e o aluno no processo de ensino-aprendizagem precisa de ser trabalhada. Se pensarmos que estes alunos com Perturbação do Espectro do Autismo apresentam hipersensibilidades sensoriais, o contacto fisico e de proximidade, a entoação de voz, entre outros estímulos precisam de ser adaptados. É preciso olharmos para os docentes no Ensino Superior como alguém fulcral neste processo, mas que precisa de ser ajudado a construir uma outra representação mental da pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo.


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