Tribalistas

Na véspera do dia de Santo António em Lisboa celebra-se o dia dos namorados no Brasil. Em Lisboa não haverá arraial, mas no Brasil não sei não! Hoje, tal como dia 14 de fevereiro em Portugal, há de tudo um pouco nas redes sociais. Desde as fotos apaixonadas com ou sem photoshop, aos memes dos solteiros, não esquecendo as crónicas do habitual sobre a exploração capitalista destes dias ou mais actualmente "como celebrar o amor em tempos de pandemia". Mas hoje gostaria de vos escrever sobre a celebração do Amor no Espectro do Autismo. Isso mesmo, leu bem. As pessoas autistas também celebram o amor. Ainda que conheça muitos que se apressam a dizer que não lhes faz sentido nenhum haver um dia para isso. Da mesma forma que dizem que não lhes faz sentido o mesmo para o Natal, Ano Novo e até o seu próprio aniversário. Mas ainda assim, isso não quer dizer que as pessoas do Espectro do Autismo não amem.

Não tenho paciência pra televisão

Eu não sou audiência para a solidão

Eu sou de ninguém

Eu sou de todo mundo

E todo mundo me quer bem

Eu sou de ninguém

Eu sou de todo mundo

E todo mundo é meu também


Tribalistas, in Já sei namorar (2004)



Lembrei-me de dar o nome de Tribalistas a este post para celebrar a noção de pertença a uma tribo especifica, única, do Autismo. Uma neurotribo nas palavras de um outro autista Steve Silberman. Pareceu-me uma boa forma de celebrar o dia dos namorados e o Amor, escrever um post sobre a educação sexual. Até porque a descoberta da nossa sexualidade também é a despertar do amor romântico. E ainda continuamos a ver crónicas e pessoas a perguntar se as pessoas autistas podem sentir ou expressar amor. Ainda que este seja um tópico sensível, pois as normas que circundam a educação sexual difere entre as culturas. É ainda mais sensível ao falarmos em fornecer educação sexual às pessoas autistas, pois a Sociedade tem percepções erróneas a respeito da sexualidade das pessoas com esta condição. Os déficits de comunicação social para pessoas com PEA tornam a educação sexual para essa população ainda mais complexa. Dada a complexidade, há algumas considerações que os pais, professores e terapeutas precisam ter em mente ao ensinar educação sexual a pessoas com PEA.


Existem pelo menos quatro preocupações que justificam o ensino da educação sexual nas pessoas autistas. Primeiro, as pessoas autistas são abusadas sexualmente a uma taxa mais alta do que a população típica. Sem educação, estas pessoas podem não entender que o que está a acontecer com elas está errado e, portanto, podem não denunciar o abuso. Segundo, as pessoas autistas têm o direito de desenvolver relacionamentos significativos, casar e tornar-se pais. Sem educação, as pessoas autistas podem ter dificuldade em desenvolver relacionamentos para facilitar esses resultados. Terceiro, a falta de educação pode levar a comportamentos desafiadores. Na falta de educação, as pessoas autistas respondem às suas necessidades biológicas, mas podem cometer erros ao demonstrar a sua sexualidade. Quarto, a educação sexual é necessária para promover a saúde e a higiene. Sem educação, as pessoas autistas correm risco de problemas de saúde relacionados ao sexo, que variam desde a falta de cuidados básicos até doenças sexualmente transmissíveis. Como sociedade, entendemos a importância da educação sexual, mas ainda lutamos com as questões de quem é responsável por ensinar essas competências e o que exactamente deve ser ensinado.


Se dúvidas tivesse que as pessoas autistas sentem, expressam ou desejam Amor, rapidamente deixaria de as ter assim que comecei a acompanhar pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Seja o amor incondicional que sentem pelos seus filhos, ao amor apaixonado pelos seus companheiros e companheiras. Mas também o amor fraternal e pelos pais, todos eles, de uma forma ou de outra vivem estes sentimentos, não obstante da forma como o sentem. E caso tenham dúvidas sobre esta questão de que todos nós sentimos o Amor de forma diferente, pensem que um certo poeta que também celebrou o amor escreveu em tempos, "Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; (...)".


A Organização Mundial de Saúde em 2006 dizia "um aspecto central dos ser humano ao longo do ciclo de vida compreende o sexo, identidade de género e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é experenciada e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relações. Enquanto a sexualidade pode incluir todas estas dimensões, nem todas elas são sempre experenciadas ou expressas. A sexualidade é influenciadas pela interacção de factores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais.".


Não tenham dúvida de que as pessoas autistas, independentemente de algumas das suas características e da forma como estas se relacionam com outras variáveis, que acabam por lhe trazer maiores dificuldades, possa sentir amor. Desde a adolescência que os jovens autistas começam a sentir um turbilhão de informação, nomeadamente hormonal, a circular livre e rapidamente pelo seu corpo. Mesmo que por vezes não a consigam compreender não deixam ainda assim de a sentir e muitas vezes procurar redirecionar para o lugar adequado. Se é correspondido ou não isso vai depender de regras de outra natureza. Ou de um jovem adulto autista que enquanto estudante universitário sente aquilo que muitos chamam de amor à primeira vista e que depois de algum tempo e coragem decide avançar para a pedir em namoro e acaba por casar e ter filhos. Seja esta ou outra história de amor, ela está presente no Espectro do Autismo. Mas também é preciso que esse terreno possa ser fertilizado com condições para que esse mesmo amor possa ser sentido de forma mais saudável e capaz de responder às necessidade de cada uma das pessoas.

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