Tomar atalhos novos e deixar caminhos velhos

Crescemos a saber que é a partir da repetição que aprendemos. Fazemos muitas e muitas vezes até já não precisarmos de pensar nisso. E simplesmente fazemos, criamos hábitos, rotinas. Fazemos isso durante bastante tempo ao longo do nosso desenvolvimento. Ao ponto de parecer que não sabemos fazer de outra maneira. E chegamos a adultos a ter de fazer diferente, adaptado, flexível. Ao inicio torna-se difícil, é verdade. Mas rapidamente conseguimos compreender os benefícios. Ainda que nem sempre seja assim para todos. Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) costuma ser uma dificuldade. Mas é fundamental ajudar as pessoas a encontrarem o seu caminho. E para isso precisamos de os ajudar a conseguir chegar até ao diagnóstico e à sua compreensão.

Ainda que neste momento se viva com grande intensidade a situação do surto de Corona vírus. É importante poder retomar progressivamente a vida quotidiana e com as questões do quotidiano e que importam em muito a todos nós. No caso das pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) a possibilidade de ser avaliado e diagnosticado continua a ser fundamental.


Os acontecimentos das últimas semanas com o surto de Corona vírus veio criar instabilidade e incerteza na vida de todos nós e nas pessoas adultas com PEA também. E naquelas que não sabem que têm PEA provavelmente ainda mais. Isto porque, além de estarem a procurar fazer frente a todo um conjunto de obstáculos derivados das medidas implementadas por causa do vírus. Também estão a procurar fazer frente às situações com que se têm deparado devido a algumas das suas características que foram activadas. E adicionalmente também passaram a perceber que essas mesmas características parecem trazer algum incómodo e espanto às pessoas com que vivem, sejam os/as companheiros/as, filhos, amigos ou colegas de trabalho. Como assim? E nunca ninguém tinha dado conta de nada?


Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) como é sabido há uma grande heterogeneidade na apresentação das expressões comportamentais de cada um, sejam crianças, jovens ou adultos, assim como, serem homens ou mulheres. E se pensarmos nas pessoas adultas com mais de 25 - 30 anos precisamos de pensar que na altura em que os mesmos estavam a passar pela sua infância e juventude ainda não havia assim tanto desenvolvimento como hoje em relação a vários destes aspectos no Espectro do Autismo. Alguns aspectos dos critérios de diagnóstico dos manuais de diagnóstico ainda não tinham sido alterados para o que existe hoje. Nomeadamente, apenas em 1994 é que a Síndrome de Asperger foi introduzida na DSM como uma categoria de diagnóstico separada. Se pensarmos, em 1994 eu tinha 20 anos.


Mas principalmente a conscientização e sensibilização para a possibilidade de se poder fazer um diagnóstico de PEA na pessoa adulta mesmo quando ela nunca antes tinha sido diagnosticada. E a própria formação dos profissionais de saúde para aquilo que pode ser a expressão comportamental do adulto com PEA. Estes e outros factores têm feito com que neste momento seja possível dar uma resposta diferente a muitas destas pessoas.


E ainda há quem possa ficar a pensar que o facto da pessoa adulta passar a ter conhecimento de que tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo isso possa ser traumatizante! Na verdade é traumatizante. Mas não pelas razões que possam estar a pensar. O que a pessoa vai dizer, e já o têm dito, é de como é que é possível que apenas agora depois destes anos todos é que tenham descoberto esse seus diagnóstico!? Ou de como é que após inúmeras idas a vários especialistas médicos e da psicologia com várias queixas, algumas delas semelhantes às que apresentam na actualidade, apenas neste momento é que tenham percebido que é uma Perturbação do Espectro do Autismo?! As pessoas não vão ficar mais traumatizadas por saberem do seu diagnóstico em si. Muitas já desconfiavam de poder ser algo muito próximo disso - PEA. As pessoas apenas queriam e querem poder compreender-se e ao outros também.


É um direito que assiste a todos nós poder saber o que se passa connosco! Isso é aquilo que todos nós, independentemente da nossa proveniência, formação, idade, etc., precisamos de pensar - É um direito da pessoa saber qual o seu diagnóstico e de como isso a pode ajudar a se compreender e a entender os outros e a vida!


As pessoas no Espectro do Autismo vivem já elas próprias um conjunto grande de dificuldades e obstáculos que sentem ter e querer ultrapassar. Como tantos outros de nós na vida adulta as dificuldades apresentam uma maior complexidade e uma maior necessidade de poder colaborar com outras pessoas, independentemente da relação que se tenha com elas, para alcançar esses mesmos objectivos.

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