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Stim & shout

Desculpe, não consigo parar!, diz Carlos (nome fictício) com um ar visivelmente envergonhado. Eu faço isto desde sempre, acrescenta. Já me levaram a vários especialistas e pediram-lhes para eles me ajudarem a deixar de fazer, conclui. Carlos tem agora 32 anos. Foi diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos 5 anos. Entre várias características comportamentais, as estereotipias motoras eram bastante marcadas. Agora já não desato a correr em volta da mesa da cozinha se a minha mãe fizer lasanha, que é o meu prato favorito, refere. Ou no trabalho não fico a dar voltas na hora do almoço tal como fazia quando estava na escola, adiciona. Há coisas que simplesmente deixaram de acontecer. Não sei o que aconteceu. Também nunca me explicaram. Outras coisas aprendi a gerir de forma diferente, tal como tenho aprendido tantas outras coisas, desabafa. Ao longo da minha vida sempre tive alguém a apontar-me o dedo. Alguns riam-se ou gozavam. Na escola faziam imenso isso. Depois deixaram de me gozar e passaram simplesmente a ignorar-me ou a fugir de mim. Pareciam ter medo que alguma coisa que eu tivesse fosse contagioso. Era assim que me sentia. Ainda hoje me sinto assim em alguns momentos mais delicados. Até a minha família não compreendia. Nas festas de família por vezes não deixavam os meus primos brincar comigo. Uma vez ouvi eles dizerem aos meus pais que tinham medo que eu fosse violento. Os meus pais não desmentiram. Foi nessa altura que percebi que aquilo envergonhava o meu pai e ainda mais o meu irmão. Na adolescência estava sempre a arranjar desculpas para eu não poder ir com ele. Aquilo que fui sentindo é que tinha alguma coisa errada. E foram muitas as vezes que quis que elas saíssem do meu corpo. Numa altura cheguei a bater tantas vezes com as mãos na parede para ver se deixava de as abanar. Ficaram em ferida. Mas continua na mesma. Desisti, simplesmente desisti. Fui procurando fazer as coisas na minha vida. A maioria delas em silêncio, quase sempre acompanhado pelo sofrimento. Compreende?, perguntou-me. Aquilo que eu gostava que você me ajudasse é a colar os pedaços partidos do meu corpo. É isso, consegue?, finaliza. A investigação e os relatos dos próprios autistas sugere que pessoas não autistas muitas vezes entendem mal o comportamento das pessoas autistas, provavelmente contribuindo para os desafios sociocomunicativos destes. Isso aplica-se particularmente às "estereotipias motoras", como "agitar as mãos ou dedos" ou "movimentos complexos de todo o corpo". Desde o inicio da história do autismo, que esses comportamentos foram considerados actos auto-estimulantes que bloqueavam estímulos externos e interfeririam com a pessoa e os outros. Os movimentos motores estereotipados ou repetitivos são caracterizados como características centrais no diagnóstico de autismo, mas muitos adultos autistas (e o movimento da neurodiversidade), têm procurado reivindicar estes como estimulantes. Apoiados por um crescente corpo de pesquisas científicas, os adultos autistas argumentam que esses comportamentos podem servir como mecanismos de enfrentamento úteis, embora poucas investigações tenham examinado o stimming da perspectiva dos adultos autistas. Se por um lado são muitos os autistas adultos que vêm e sentem o stimming como um mecanismo de auto-regulação, também é verdade que o sentem como não sendo aceite a nível social, ainda que pensem que a explicação destes mesmos comportamentos possam ajudar muitas das pessoas não autistas a melhor compreende-los. São vários os adultos autistas que destacam a importância do stimming como um mecanismo adaptativo que os ajuda a acalmar ou comunicar emoções ou pensamentos intensos e, portanto, opõem-se veemente ao tratamento que visa eliminar este comportamento. Até porque algumas teorias mais recentes sugerem que o stimming parece fornecer um feedback gerado pelo próprio e com maior nível de confiança em resposta às dificuldades com circunstâncias imprevisíveis e novas. Como tal, o stimming pode fornecer não apenas alívio da estimulação sensorial excessiva, mas também excitação emocional como ansiedade. E os próprios autistas adultos reportam que o stimming lhes devolve um ritmo suave e que os ajuda a lidar com uma percepção distorcida ou sobrestimulante e que resulta em distress, e que os pode ajudar a gerir a incerteza e ansiedade. O stimming ajuda-me a falar comigo mesmo num determinado compasso ritmado. E quando o estou a fazer, posso pensar no ritmo a que estou a mover a minha mão ... o que é muito útil porque é tal como quando você está a fazer o seu monólogo interno e as coisas vêm uma de cada vez e não tudo o mesmo tempo ao ponto de ter uma voz a gritar na sua cabeça para fazer tudo ao mesmo tempo, exemplifica. O facto de Carlos saber que encontrou um lugar onde pode ser ele próprio, inclusive com o seu stimming, foi deixando-o mais confortável ao longo da sessão.


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