Stigma "R" Us: Uma Sociedade asilada

Na Botânica, o Estigma é a porção distal de um pistilo que recebe os grãos de pólen trazidos pelo agente polinizador. É o lugar onde o grão de pólen inicia a germinação do tubo polínico. Penso que esta germinação representa aquilo que penso sobre o Estigma, mais frequentemente referenciado às questões psicossociais e mais especificamente à doença mental. No dicionário lemos, marca deixada por uma ferida; cicatriz; marca infamante feita com ferro em brasa, aplicada antigamente a escravos e criminosos; ferrete. Aqueles que os marcam não o fazem sozinhos. Os que são marcados não estão empoderados para poder dizer não a uma situação destas. Voltando à Botânica, é quase impossível pensar num conceito que tenha germinado desta forma como o Estigma. Passou de algo obscuro a uma evidência nos trabalhos académicos e nos discursos do quotidiano. Tem sido aplicado num número massivo de situações, desde a raça às diferenças étnicas, sistema prisional, estatuto das minorias sexuais, psoriase, incontinência, etc. Tem sido usado para explicar a vergonha, estranheza social, rejeição, incompreensão, e a exclusão das pessoas nestas situações. Está em todo o lado. Está em todos nós.

Tudo remonta aos Gregos. Estes eram aparentemente apologistas dos auxílios visuais. Percebiam que aquela ferramenta os organizava, individual e colectivamente. E criaram o termo Estigma para se referirem a sinais corporais projectados para expor algo de incomum e mau sobre o estatuto moral do significante. Os sinais eram apostados na pele através de corte ou de queimadura e anunciavam que o portador era um escravo, um criminoso ou um traidor. Esta seria uma pessoa manchada para todo o sempre, ritualmente poluída, a ser evitada, especialmente em locais públicos. Poderíamos culpar os Gregos disto e com isso absolver a nossa culpa. Mas se pensarmos que a última ilha de leprosos foi encerrada em 1957 na Europa (ilha de Espinalonga na Grécia) percebemos que o estigma é algo que perdura até aos dias de hoje.


Mais tarde, nos tempos cristãos, duas camadas de metáfora foram adicionadas ao termo: a primeira referia-se a sinais corporais da Santa Trindade que assumiam a forma de flores eruptivas na pele; o segundo, uma alusão médica a essa questão religiosa, referente a sinais corporais de uma perturbação física. Hoje, o termo é amplamente usado no sentido literal, mas é aplicado mais em termos de representação de desgraça do que em relação a qualquer evidência corporal em si. Além disso, ao longo dos tempos foram ocorrendo mudanças nos tipos de desgraça que passaram a suscitar preocupação.


A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o complemento de atributos considerados comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. As configurações sociais estabelecem as categorias de pessoas que provavelmente serão lá encontradas. As rotinas da relação social em contextos estabelecidos permitem-nos lidar com outras pessoas de forma antecipada, sem uma atenção ou pensamento especial. Por exemplo, quando um estranho entra no nosso raio de acção, é provável que as primeiras aparências nos permitam antecipar a sua categoria e atributos. Aquilo que frequentemente designamos de identidade social.


Apoiamo-nos nessas antecipações que temos, transformando-as em expectativas normativas, em acções apresentadas com justiça. Normalmente, não nos damos conta de que fizemos essas acções, ou estamos cientes do que elas são até que surja uma pergunta activa sobre se elas serão ou não cumpridas. É então que é provável que compreendamos que durante todo o tempo estávamos a fazer certas suposições sobre o que a pessoa diante de nós deveria ser. Enquanto um estrangeiro está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele possui um atributo que o torna diferente dos outros na categoria de pessoas disponíveis para ele e de um tipo menos desejável. No extremo, uma pessoa que é má, ou perigosa, ou fraca. Ele é assim reduzido na nossa mente de uma pessoa comum e habitual para uma pessoa contaminada e com menor valor.


Não é de estranhar que ainda hoje as pessoas digam com alguma estupefacção, "Mas a pessoa não parece nada autista!". Esta presença de um sinal, uma marca visível e que desse a todos nós a possibilidade de antecipar a interacção com essa pessoa. Mas se há situação em que essa marca real e visível não existe é na doença mental. E não é por acaso que se designa a doença mental como a doença invisível. Mas gostaria de chamar a atenção que o invisível deve ser entendido no sentido literal. Isto porque, a doença mental, o sofrimento psicológico e o mal estar das pessoas é invisível aos olhos mas não à relação. Tal como Antoine de Saint Exupéry escrevera em Principezinho, "O essencial é invisível aos olhos.".


A doença mental representa uma das ameaças mais graves à saúde pública mundial. Os estudos indicam que a doença mental é um dos principais constituintes da carga global de doenças em todo o mundo. Por exemplo, no Reino Unido, as doenças mentais constituem 28% da carga das doenças, enquanto as doenças cardíacas contribuem com aproximadamente 16%. E estes números são muito semelhantes em vários outros países. É uma realidade global. A investigação mostra que as doenças mentais e os problemas comportamentais relacionados, como ansiedade, depressão e uso de drogas, são os principais impulsionadores de incapacidade em todo o mundo Por exemplo, a Depressão Maior é a segunda causa principal de toda a incapacidade mundial e contribui significativamente para o número de suicídios e incidentes de doenças cardíacas isquémicas.


Um em cada quatro adultos e uma em cada dez crianças têm probabilidade de ter um problema de doença mental num determinado ano. Os serviços de saúde mental são frequentemente subfinanciados, sobrecarregados e os cidadãos sofrem longos períodos de espera. De facto, apenas 25% das pessoas com doenças mentais estão a receber um tratamento contínuo. O que significa que os 75% dos restantes devem estar a lutar com as suas próprias ferramentas com os seus próprios problemas, com acesso apenas ao apoio informal oferecido por familiares, amigos, colegas ou outras redes de apoio não treinadas.


Penso não valer a pena centrar o discurso no plano politico, ainda que a saúde mental seja um tema de estabelecimento de políticas de saúde pública. Mas chamo a atenção para este aspecto no sentido em que ao longo destes últimos sessenta anos ficamos centrados e absorvidos pela troca de responsabilidades políticas e medidas avulsas e que em nada benéfica a saúde mental das pessoas. E aqui estou a referir-me a todos e não apenas aqueles com um diagnóstico.


Numa altura em que se verificam grandes avanços na Medicina e mais especificamente na psiquiatria. Nomeadamente, no apoio fundamental na utilização das técnicas neuroimagiológicas para olharmos para as micro-expressões do comportamento humano a nível neuronal. E com isso o desenvolvimento de novos equipamentos para uma intervenção mais inovadora. Mas também num período em que as ciências psicológicas estão cada vez mais capazes de compreender, identificar, diagnosticar e intervir. com protocolos cientificamente validados. Continuamos a ter uma expressão tão significativa de pessoas com doença mental que não está a procurar ajuda ou fá-lo tardiamente. E o estigma tem um peso preponderante aqui.


O estigma definido como a percepção de que um determinado atributo torna uma pessoa inaceitavelmente diferente das outras, levando a preconceitos e discriminação contra elas. O estigma existe quando os seguintes componentes inter-relacionados convergem. No primeiro componente, as pessoas distinguem e rotulam as diferenças humanas. No segundo, as crenças culturais dominantes vinculam as pessoas rotuladas a características indesejáveis ​​- a estereótipos negativos. Na terceira, as pessoas rotuladas são colocadas em categorias distintas, a fim de realizar algum grau de separação entre o "nós" e "eles". Na quarta, as pessoas rotuladas sofrem perda de estatuto e discriminação que levam a resultados desiguais. Por fim, a estigmatização depende inteiramente do acesso ao poder social, económico e político que permite a identificação de diferenças, a construção de estereótipos, a separação de pessoas rotuladas em categorias distintas e a execução completa de desaprovação, rejeição, exclusão e discriminação.


Neste tempo em que tudo parece decorrer com uma maior velocidade, e não estou apenas a referir-me à internet, ainda que esta seja representativo desta nossa necessidade. as relações parecem estar menos capazes para atender a determinado tipo de informação. Ou seja, nós todos precisamos de processar cada vez mais e mais nova informação. Como tal, sentimos que precisamos de agir antecipadamente e de forma adequada às situações que nos surge. O exemplo da pessoa com que nos cruzamos na rua e rapidamente recolhemos uma determinada quantidade de informação acerca de si para igualmente rápido tomarmos uma decisão parece-me um bom exemplo. Se a pessoa apresentar determinadas características comportamentais que sejam mais salientes, isso poderá determinar o meu afastamento do raio de acção dessa mesma pessoa. E com isto tudo não estou a querer desculpabilizar as acções de nenhum de nós, mas apenas a tentar enquadra-las.


Precisamos de desacelerar sem que isso tenha de significar nenhuma mudança de paradigma utópico. Mas também é fundamental sensibilizar desde cedo as pessoas para esta questão das diferenças nas pessoas e nas coisas. Porque na verdade, esta necessidade de categorização ou de rotulagem parece servir o propósito de conferir à pessoa uma determinada segurança face a membros de determinados grupos. Se são pessoas com esquizofrenia é porque são perigosos e como tal são de evitar. Ou se são de etnia cigana, ainda que por outras razões que não de ordem da saúde mental, também há que os evitar por questões de segurança. Parecemos ter esta urgência em catalogar as pessoas e arruma-las de acordo com uma determinada hierarquia, normalmente realizada por uma determinada maioria que pode não apresentar essas características e como tal procura exercer sobre esses outros uma determinada força ou poder para os subjugar e controlar. Não é por acaso que durante tantos anos usamos este processo de asilo como forma de retirar da Sociedade os membros marcados com esta desgraça. Mas também não parece por acaso que estamos a demorar um infinitude de tempo para fazer a necessária desinstitucionalmização. Somos todos necessários, porque estamos todos envolvidos neste processo.

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