Segurar Histórias, Construir Caminhos
- pedrorodrigues

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Hoje, 30 de abril, encerra-se simbolicamente um mês dedicado à consciencialização do autismo. Trinta dias de partilha, de informação clínica e científica, sustentada por uma visão integradora, mas profundamente humana, da pessoa autista. Um esforço contínuo para contrariar a desinformação persistente, que ainda circula com facilidade, muitas vezes sem rigor, outras sem sensibilidade.
Ao longo deste percurso, procurei não apenas esclarecer, mas também dar visibilidade a uma vivência frequentemente silenciosa. Existe uma realidade que não se mostra de imediato, uma experiência interna que raramente é observada na sua totalidade, mas que permanece presente, constante, quase como um pulsar discreto, porém ininterrupto.
Recordo 2018, o momento em que nasceu o site Autismo no Adulto. Não surgiu apenas como um projecto, mas como um compromisso. Um lugar pensado para que a pessoa autista pudesse reconhecer-se, ver-se reflectida, encontrar linguagem para aquilo que tantas vezes não foi nomeado. Nessa altura, já a prática clínica me mostrava, diariamente, a urgência desta construção.
A imagem que me acompanha desde então, uma figura numa clareira, segurando uma mala, tornou-se um símbolo íntimo desta missão. Não se trata de uma mala qualquer. Não é minha. É uma mala que transporta histórias, sonhos, fragilidades e resistências. Algumas marcas são suaves, outras densas, moldadas por anos de incompreensão ou esforço invisível. Segurá-la é um gesto de respeito. É reconhecer que cada pessoa carrega o seu próprio percurso.
Há quem inicie esta viagem cedo. Outros chegam mais tarde, muitas vezes já a meio de um caminho feito sem mapa, sem explicação, com dúvidas persistentes e, por vezes, dor acumulada. Ainda assim, continuam. Persistem. E essa continuidade, mesmo quando tudo parece incerto, revela uma força que merece ser reconhecida.
O site tornou-se, ao longo do tempo, um espaço de acolhimento e de conhecimento. Mais de 1200 textos publicados, programas de sensibilização gratuitos dirigidos a pessoas autistas, a quem suspeita de o ser, mas também a jornalistas e profissionais de saúde. Um espaço que se estende ainda a professores, instituições de ensino superior e contextos organizacionais, incluindo a gestão de recursos humanos.
Este último dia de abril não representa um fim. É, antes, um ponto de continuidade. Um lembrete de que a consciencialização não se esgota num mês. Prossegue, transforma-se, aprofunda-se.
Daqui a um mês, a 31 de maio, nasce mais um passo neste percurso, com o lançamento do livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas. Um contributo pensado para profissionais de saúde, com o propósito de promover práticas mais informadas, mais sensíveis, mais inclusivas.
Entre a prática clínica e os espaços de formação, permanece o mesmo compromisso. Levar conhecimento, promover reflexão e, acima de tudo, contribuir para uma sociedade onde a neurodivergência seja compreendida com rigor e respeitada com autenticidade.




Comentários