Doi-me a vergonha
- pedrorodrigues

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Doi-me a vergonha! disse Ana (nome fictício) de 43 anos. Que disparate é esse rapariga! dizia-lhe a mãe! Doer-te a vergonha! continuava a mãe. Completo disparate! continuava. Sim, doi-me! reafirmava Ana, disposta a dizer tudo aquilo que não tinha dito. Eu lembro-me das vezes em que tu e o pai me deixavam ficar atrás de vocês quando iamos passear na rua e depois não me apresentavam às outras pessoas! começa a dizer Ana. Como assim, nós pensavamos que tu não querias ou gostavas de falar com as outras pessoas! referia a mãe. E não gostava, assim como ainda hoje não tenho especial apreço! retorquiu imediatamente Ana. Mas isso não quer dizer que tu e o pai me escondessem! acrescenta Ana. Ou na escola, quando a minha irmã não me chamava para ir brincar com ela e as amigas. Ou quando eu tomei coragem para ir lá ter com elas e a minha irmã disse apenas que já não podia entrar mais ninguém! continua Ana. Mas a tua irmã sempre gostou muito de ti, mas não te conseguia compreender! refere a mãe. Pensas que eu não percebia a cara que vocês fazia no restaurante e saiamos à pressa mesmo sem ter terminado. E rapidamente deixamos de ir aos restaurantes! refere Ana. Cada vez que isso acontecia o meu corpo contorcia-se! diz Ana. Sentia todas as minhas células do corpo a mirrarem como se estivessem a morrer de sede. Por isso andava sempre encolhida. Não era por causa da escoliose. Essa veio depois de tantas situações de vergonha. Tantas que até eu aprendi a ter vergonha de mim mesmo. Se todos os outros tinham, porque é que eu não haveria de ter também? Foi a única coisa que todos nós sempre concordamos - ter vegonha de mim! conclui.
Este breve excerto, para além de impactante e emotivo, descreve aquilo que muitas pessoas autistas sentem ao longo da vida - Vergonha. Vergonha enquanto emoção social intensa ligada à consciência de si sob o olhar do outro. E ainda que se tenha esta compreensão sobre o fenímeno em si, no autismo tem-se falado muito mais sobre o estigma e o seu impacto na pessoa autista e não tanto da vergonha.
A vergonha e a culpa pertencem ao conjunto das emoções autoconscientes, distinguindo-se das emoções básicas pela sua dependência de processos de autorrepresentação e atribuição causal. Estas emoções emergem quando o indivíduo avalia o seu comportamento ou o seu eu à luz de padrões internos ou normas sociais, sendo, por isso, fundamentais na regulação da vida em comunidade. Enquanto a culpa se centra num comportamento específico e mobiliza a reparação, a vergonha incide sobre o eu global, convocando uma experiência de desvalorização profunda que tende a conduzir ao retraimento, à evitação e à sensação de inutilidade. Ambas são, em condições reguladas, adaptativas, na medida em que orientam o comportamento para a aceitação social e para a manutenção das relações. Contudo, quando desreguladas, quer pelo excesso quer pela ausência, podem comprometer seriamente o funcionamento interpessoal e o bem-estar psicológico.
No contexto do autismo adulto, a vergonha assume frequentemente um papel nuclear, ainda que subexplorado tanto na investigação como no discurso público. A exposição contínua a expectativas neuronormativas, onde a diferença é reiteradamente interpretada como défice, cria um terreno fértil para a internalização de narrativas de inadequação. Inicialmente, esta vergonha é frequentemente vivida como algo que parece pertencer ao olhar do outro, uma experiência de ser visto através de uma lente que diminui, estranha ou desqualifica.
“Eu não percebia exatamente o que estava errado, mas sentia que havia sempre algo em mim que causava desconforto. As pessoas olhavam-me como se eu estivesse fora do sítio certo, como se estivesse a falhar uma regra que todos conheciam menos eu.”
“Lembro-me de estar em conversas e sentir um silêncio estranho depois de falar. Não era o que eu dizia, era como se a minha presença em si criasse um ruído. Comecei a acreditar que havia algo de errado comigo, mesmo sem saber o quê.”
Estes relatos ilustram a emergência da vergonha externalizada, na qual o sujeito se experiencia como sendo negativamente avaliado pelos outros. A interação social torna-se um espelho distorcido, onde a imagem devolvida é a de inadequação. Com o tempo, esta experiência repetida deixa de necessitar da presença real do outro. A vergonha instala-se internamente, cristalizando numa autoimagem marcada pela insuficiência.
“Chegou um momento em que já não precisava que ninguém dissesse nada. Eu antecipava tudo. Antes de entrar numa sala, já sabia que ia falhar. Antes de falar, já sentia vergonha.”
“Hoje percebo que não são sempre os outros que me estão a julgar. Sou eu. Mas aprendi isso com anos de sentir que não era aceitável como sou.”
Aqui, a vergonha internalizada manifesta-se como uma narrativa identitária, uma verdade emocional difícil de questionar. O eu deixa de ser apenas alguém que, por vezes, não corresponde a expectativas, passando a ser vivido como intrinsecamente defeituoso. Esta transformação tem implicações profundas na forma como a pessoa se posiciona no mundo, conduzindo frequentemente ao evitamento de relações, à autocensura e à redução da expressão autêntica.
Importa ainda considerar que a alexitimia, frequentemente associada ao autismo, pode dificultar a identificação e a nomeação da vergonha, tornando-a uma emoção difusa, muitas vezes mascarada por irritabilidade, exaustão ou necessidade de afastamento. Em muitos casos, a vergonha não é reconhecida como tal, mas vivida corporalmente ou traduzida em comportamentos de retirada.
“Às vezes só sinto um peso enorme e uma vontade de desaparecer. Não penso ‘tenho vergonha’, mas é como se tudo em mim dissesse que não devia estar ali.”
“Fico irritado, fecho-me, afasto-me. Só mais tarde percebo que, por baixo disso tudo, estava a sentir-me exposto, como se tivesse sido ‘descoberto’.”
Neste sentido, a vergonha pode operar como um elo invisível entre o estigma social e a elevada prevalência de dificuldades de saúde mental, como a depressão, a ansiedade, a automutilação e a ideação suicida em adultos autistas. A sua natureza silenciosa e profundamente dolorosa exige uma atenção clínica deliberada, que vá além da gestão sintomática e procure compreender os significados subjetivos atribuídos à experiência de ser diferente.
Abordar a vergonha no autismo implica, assim, um reposicionamento ético e clínico. Torna-se essencial integrar práticas terapêuticas que promovam a autocompaixão de forma adaptada ao perfil cognitivo autista, bem como adotar modelos afirmativos da neurodiversidade que desafiem a lógica do défice e valorizem a diferença como expressão legítima da condição humana. Trabalhar a vergonha implica também torná-la nomeável, compreensível e partilhável, permitindo que aquilo que foi vivido em silêncio possa ser reconhecido na relação terapêutica.
“Pela primeira vez, alguém não tentou corrigir-me, só quis perceber-me. E isso mudou a forma como comecei a olhar para mim.”
Reconhecer e trabalhar a vergonha não é apenas aliviar sofrimento, é abrir espaço para uma reconstrução do eu que permita às pessoas autistas existir com maior autenticidade, dignidade e possibilidade de florescimento.




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