A liberdade do autismo
- pedrorodrigues

- há 2 dias
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Há datas que não são apenas memória, são respiração colectiva. O 25 de Abril é uma dessas datas, um pulsar contínuo que atravessa gerações, renovando a promessa de liberdade, dignidade e igualdade. Nas ruas, os cravos vermelhos florescem todos os anos como sinais de um país que escolheu romper com o silêncio. Contudo, sob esse mesmo céu de celebração, persistem vozes cuja liberdade permanece incompleta, subtilmente limitada, por vezes invisível. Entre essas vozes estão muitas pessoas autistas.
A liberdade conquistada em 1974 abriu portas fundamentais, consagrou direitos, restituiu humanidade a uma sociedade que dela havia sido privada. No entanto, a história ensina que a liberdade formal não se traduz automaticamente em liberdade vivida. Para muitas pessoas autistas, o quotidiano continua a ser atravessado por barreiras que não se veem nas grandes proclamações. Barreiras sensoriais, sociais, comunicacionais, institucionais. Barreiras que não gritam, mas que restringem.
Celebrar Abril implica revisitar criticamente o presente. Perguntar, com rigor e honestidade, quem ficou à margem da promessa. A inclusão não é um subproduto automático da liberdade política. Exige intenção, conhecimento, transformação estrutural. Exige que se compreenda o autismo não como um défice a corrigir, mas como uma forma legítima de estar no mundo, com necessidades específicas e direitos inalienáveis.
Ao longo das décadas, houve avanços. Maior visibilidade, enquadramentos legais mais robustos, discursos mais conscientes. Ainda assim, a experiência concreta de muitas pessoas autistas revela uma liberdade condicionada. A escola nem sempre acolhe. O mercado de trabalho exclui silenciosamente. Os serviços públicos falham na adaptação. A vida social pode tornar-se um território de constante negociação, onde o direito de ser se transforma numa tarefa exigente.
Há uma tensão persistente entre o ideal de igualdade e a prática da equidade. Tratar todos por igual, sem reconhecer diferenças, pode ser outra forma de exclusão. A liberdade plena implica condições reais de participação. Implica acessibilidade cognitiva, sensorial e comunicacional. Implica escuta activa das próprias pessoas autistas, não apenas como destinatárias de políticas, mas como protagonistas da sua definição.
O espírito de Abril pede mais do que evocação, pede continuidade ética. Se a liberdade é um processo, então está ainda em construção. E essa construção exige que se amplie o conceito de cidadania para incluir, de forma efectiva, a neurodiversidade. Não como excepção, mas como parte integrante da comunidade.
Assim, enquanto os cravos continuam a ser erguidos nas avenidas, talvez o gesto mais fiel à herança de Abril seja este: olhar para quem ainda não sente plenamente essa liberdade e agir. Porque uma liberdade que não chega a todos não é, ainda, liberdade completa. E Abril, na sua essência mais profunda, não se cumpre pela repetição, cumpre-se pela transformação.




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