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Se um QI incomoda muita gente...

fotografia vamos conseguir encontrar algumas figuras proeminentes da história da humanidade. E se pensam que estou a falar apenas de Albert Einstein enganam-se. Este grupo encontrou-se em 1927 na Conferência Internacional de Solvay. um grupo de eméritos físicos e químicos e que debatiam temas pertinentes da ciência. E por que é que eu trouxe esta fotografia? Porque me lembrei que se somarmos o QI de todos os presentes na foto iriamos ficar a perceber que daria para equivaler ao mesmo que o QI de um campo de futebol cheio de pessoas. E o que é que isso tem a ver com o autismo?


Muitas vezes ouvimos dizer que esta ou aquela pessoa tem um autismo de alto funcionamento, ou então tem uma Síndrome de Asperger. Além das duas designações não serem propriamente a mesma coisa, aquilo que interessa é que algumas pessoas ficam a pensar que as pessoas autistas são extremamente competentes do ponto de vista cognitivo e intelectual. E não é que não haja pessoas autistas altamente competentes a este nível, mas não ao ponto de generalizarmos desta forma. Além disso, há o facto de haver algumas celebridades com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e que devido a isso, fica subjacente a imagem de que as pessoas autistas poderão ser todas elas igualmente uma celebridade. Não que não existam pessoas autistas que sejam celebridades, porque as há. A questão mais uma vez é de não generalizarmos. Mas em outras pessoas também é possivel possível ouvirmos que o autismo está associado a uma ideia de pessoas cognitiva e intelectualmente menos competentes. Porventura, terá a ver com a experiência que a pessoa teve num qualquer contacto com uma pessoa autista e ficou com a ideia, diria errada, de que as pessoas autistas apresentam todas elas um défice cognitivo. Mais uma vez, não é que não existam pessoas autistas com um défice cognitivo, porque as há. Mas não ao ponto de generalizarmos. E também é por tudo isto que muitos clinicos clínicos e investigadores se têm debruçado sobre o estudo do perfil cognitivo e intelectual das pessoas autistas com o objectivo de constituirem subgrupos específicos de autismo. Este caminho não chegou a esses objectivos mas tem permite obter outros conhecimentos.


A Perturbação do Espectro do Autismo é caracterizada como um condição muito heterogénea de início na criança, cuja heterogeneidade é parcialmente determinada por diferenças no quociente de inteligência (QI). O estudos epidemiológicos já mais antigos sugeriram que o espectro relacionado ao QI tende a ser enviesado para a esquerda. Ou seja, uma proporção maior de pessoas autistas tem um QI abaixo da média, enquanto apenas alguns pessoas autistas podem ter um QI acima da média. Esta imagem mudou ao longo do tempo com a ampliação da visão do espectro. Paracem haver no entanto diversos factores que podem explicar o porquê das coisas não serem bem assim. Por exemplo, a influência de factores externos, como vieses amostrais ou diferenças na disponibilidade de serviços de saúde para o autismo. Além disso, é preciso ter em conta os aspectos relacionados com a validade e as influências reciprocas do diagnóstico de autismo e da própria avaliação do QI.


Se por um lado os estudos epidemiológicos realizados nos anos 60 do século XX apontavam para cerca de 70% de pessoas autistas com um QI abaixo de 70. Este mesmo número tem vindo a alterar e em 2000 apontavam para cerca de 50%, enquanto que mais recentemente essa percentagem está mais perto dos 30%. Ou seja, tal como se tem perguntado se estamos a assistir a uma epidemia de autismo devido ao aumento do número de diagnósticos. Também há quem tenha perguntado se tem havido um factor qualquer desconhecido de melhoria do QI das pessoas autistas. A melhor resposta para ambas as dúvidas é NÃO. Mas então como é que podemos tentar compreender essa questão?


Ao longo destes anos temos observado há existência de diferentes designações e classificações para o autismo e dentro do autismo. Se por um lado tínhamos o autismo de Kanner, por outro tínhamos a Síndrome de Asperger, sendo que estaríamos a falar sempre de autismo. Mas certamente também estaríamos a falar de diferentes perfis de funcionamento cognitivo e intelectual.


Para além do mais, ao longo dos anos temos verificado que os estudos se têm debruçado mais especificamente sobre as crianças e não propriamente em adolescentes e adultos, ainda que esta questão tenha vindo a mudar nos últimos tempos. Bem como, tem havido um outro enviesamento nas amostras contidas em muitos destes estudos em que as pessoas autistas com défice cognitivo e outras características associadas foram sendo escassas. Como tal, é é preciso avançar com cautela na interpretação dos resultados e do que se fala sobre o perfil cognitivo e intelectual no autismo. E muito menos não cairmos no erro de generalizarmos.


Mas também é importante pensar na validade dos próprios instrumentos para avaliar o QI e na interligação destes com algumas das características comportamentais das pessoas autistas. Por exemplo, a velocidade de processamento e motora de algumas pessoas autistas apresenta um perfil diferente. E algumas pessoas autistas mostram um decréscimo nesta velocidade, o que impacta no desempenho obtido em determinados subtestes. Até porque esta questão da velocidade, seja de processamento mas também motora é pontuda em alguns destes subtestes. Além de podermos verificarmos que muitas pessoas autistas apresentam também um raciocino mais fluído e não tão cristalizado e um melhor processamento visual. Sendo que muitas destas baterias de avaliação do QI assenta numa inteligência mais cristalizada e associada ao conhecimento aprendido em contexto escolar.


Ou seja, são várias as questões que precisam de ser tidas em conta a analisadas mais cuidadosamente, seja do ponto de vista da investigação mas também clínico. Nomeadamente, na utilização destes mesmo instrumentos no processo de avaliação seja para o diagnóstico mas também para determinar a implementação de determinadas medidas em contexto académico ou outro.


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