Saber (a)mar

Os Paralamas do Sucesso cantam "Saber amar. Saber deixar alguém te amar...". "- Como é que eu sei que vai ser amor?", pergunta João (nome fictício), autista de 36 anos. Encontrar o amor é um caminho difícil para todos nós. E entre esta fórmula do psicológico e da química, Alberto (nome fictício), autista de 41 anos diz, "- Não vou desistir! Se o amor é química, todo eu sou uma grande fórmula de vários elementos!". "- Eu sempre soube que o amor é algo difícil. Eu vi pelo exemplo dos meus pais!", diz Joana (nome fictício), autista de 24 anos. "- Todos os dias aprendo a amar com os meus filhos.", afirma Catarina (nome fictício), autista de 47 anos e mãe de duas crianças autistas. "- Uma vez perguntaram-me na escola se eu sabia amar. E eu respondi que não sabia porque nunca o tinha provado!", partilha a Telma (nome fictício), autista de 29 anos. As pessoas autistas não amam? Venha daí connosco saber a que sabe este amar.

"- Na minha altura não havia nada disto. Nem autismo e muito menos esta coisa do amor. Isso era coisa de romances de cordel. Trabalhávamos desde cedo, no dia e na vida. E quem sabia orientar a vida podia ter esperança em encontrar mulher e depois filhos. Eu trabalhei muito, mas também me desorientei muito.", confessa António (nome fictício), autista de 72 anos.


António sempre soube que era diferente. Especialmente porque tinha mais oito irmãos para conseguir perceber essa diferença.


"- Alguns deles também o devem ser, autistas. É muito provável que eles também o saibam, como eu sempre soube, que algo de errado se passava comigo, mas nunca queiram ter dito nada ou ir querer saber do que se passava.", acrescenta António.


Porventura, todos os irmãos do António apresentam algum outro diagnóstico psiquiátrico. António é o terceiro irmão mais velho. Apesar de nunca ter contacto com nenhum dos outros seus irmãos, António traz informação quase suficiente que deixa suspeitar dessa hipótese.


"- Há 2 anos atrás li um livro sobre o Autismo. Foi quando você me disse que eu o tinha. Quando ia lendo o livro fiquei com a sensação de que o Autismo podia muito bem ser contado com história da minha família. Desde os meus avós, passando pelo meus pais, ainda que de forma diferente entre o meu pai e a minha mãe. E em todos nós, oito irmãos. E não acaba aqui porque quando comecei a conhecer alguns dos meus sobrinhos fiquei a pensar que a história não parava de se repetir. Bem que os antigos dizem, um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la!", finaliza António.


"- Amor verdadeiro!? Não sei o que é isso. Da mesma maneira que não sei o que são melhores amigos. Para mim são todos amigos. Da mesma maneira que para mim foram todas meus amores.", reflecte alto António.


"- Uma das pessoas com quem vivi seis anos também era Autista. Só podia o ser. Mas também não o sabia. Nem eu na altura o sabia. Mas nós falávamos abertamente sobre muitas destas nossas coisas. Da dificuldade do toque, mais para ela do que para mim. Eu sempre fui mais difícil com os beijos. Tem qualquer coisa a ver com a textura dos lábios de certas pessoas.", partilha António.


Quando nos disponibilizamos para escutar as pessoas também as conseguimos amar, na sua história, naquilo que elas nos trazem e presenteiam. Faz lembrar um piquenique. Em que um e outro, cada um traz as suas coisas, e enquanto um estende a toalha no chão, como se fosse o contexto psicoterapêutico, o outro traz algumas das suas iguarias, umas mais outras menos agridoces, salgadas ou amargas, e o outro oferece o talher para que o outro se sirva de manteiga no pão, como se de uma nova ferramenta terapêutica se tratasse.


Não tenha dúvida que o amor existe. E de que o amor existe no autismo e nos autista. Continuar a desconfiar disso é preocupante. Para si, porque pode muito bem ser sinal de que também não sabe amar e não sabe a que sabe amar. Mas também para os autistas, porque lhe está a dificultar em muito um caminho que já de si é difícil.

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