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Reggae time

"And no, woman, no cry

No, woman, no cry

Little darling, don't shed no tears

No, woman, no cry"


Bob Marley, in No, Woman, no cry


Quantas vezes qualquer um de vocês já ouviu perguntar sobre as diferenças entre homem e mulher? Ou quantas vezes já ouviram dizer que há diferenças significativas entre o cérebro do homem e da mulher! E que por causa disso é que se observa um número de diferenças tão significativas!


E esta questão do cérebro é muito pertinente, até pela importância que este órgão e a sua responsabilidade tem em todo o comportamento humano. Não querendo menosprezar a importância de outros órgãos. E também por isso temos ouvido dizer que com os avanços tecnológicos e científicos que hoje se têm já se sabe tudo sobre o cérebro e as diferenças entre os homens e mulheres, correcto?


Por exemplo, na actualidade os neurocientistas têm um acesso sem precedentes ao cérebro vivo, graças à imagem por ressonância magnética (RM). Foram publicados mais de 50.000 artigos sobre imagens do cérebro humano desde que a RM entrou em cena na década de 1990. Mas destes, menos de 0,5% consideram factores de saúde específicos das mulheres. Espantado? Diria que este é mais um desses textos com agenda própria a alegar que as mulheres têm sido relegadas para segundo plano e preteridas em relação aos homens!?


A maior parte do que sabemos sobre saúde e doença centra-se no corpo masculino. Os neurocientistas, mas não só, parecem ignorar aspectos da condição humana relevantes para metade da população mundial (e.g., o ciclo menstrual, pílula, gravidez, menopausa, amamentação, etc.). Mas este etc. não se centra apenas nos aspectos mais rapidamente relacionados com a mulher e com um dos seus papéis. Há muitos outros, nomeadamente relacionado com os aspectos da saúde em geral e da saúde mental mais especificamente.


Por exemplo, no autismo, temos ouvido e lido cada vez mais sobre o enviesamento de anos sobre o desenvolvimento do conhecimento desta condição com base nos estudos realizados em rapazes. E que em boa parte os critérios de diagnóstico, mas também todo um conjunto de instrumentos que são utilizados para rastrear e avaliar formalmente o autismo se centram em informação recolhida com este enviesamento. E não é por acaso que mais recentemente têm sido desenvolvido esforços para o desenvolvimento de questionários para o rastreio daquilo que se sabe do ponto de vista da experiência clinica ser parte do fenótipo comportamental da mulher autista. Para além dos aspectos relacionados com o fenómeno de camuflagem social, que ainda que não seja exclusivo da mulher, é maioritariamente observado nesta. E como tal, pouco ou nada se sabe sobre a maternidade, gestação, pré e pós parto no autismo. Ou então os aspectos relacionados com a sexualidade e identidade de género, e que neste caso a ignorância sobre o tema é transversal ao sexo em questão.


Nos últimos anos, os investigadores que estudam o autismo têm feito um esforço para incluir mais mulheres e raparigas nos seus estudos. No entanto, apesar destes esforços, a maior parte dos estudos sobre o autismo inclui, de forma consistente, um pequeno número de indivíduos do sexo feminino ou exclui-os completamente. E curiosamente o que verificamos na investigação de uma maneira geral é que as mulheres são aquelas que são mais propensas a participar voluntariamente nos estudos científicos. E como tal não deveria ser difícil encontrar participantes femininos autistas para os estudos, certo? Eu próprio, cada vez que faço uma recolha de dados online ou não com um determinado questionário tenho uma amostra quase sempre maioritariamente feminina. Contudo, confesso, que quando uso determinados instrumentos e itens que estão mais uma vez validados para a população masculina no espectro, as mulheres autistas dão sugestões de melhorias das questões para reflectirem precisamente os aspectos mais relacionados consigo.


As perturbações do espectro do autismo são diagnosticadas com base na observação de características como comportamentos repetitivos e dificuldades com a linguagem e a interação social. Os profissionais de saúde podem utilizar uma variedade de testes de rastreio para os ajudar a fazer um diagnóstico, mas estes testes não são obrigatórios. Para estudos de investigação sobre o autismo, é habitual utilizar um teste de rastreio chamado Autism Diagnostic Observation Schedule (ADOS-2) para determinar a elegibilidade desta condição Este teste, que avalia a interação social, a comunicação, as brincadeiras e os comportamentos repetitivos, fornece uma pontuação quantitativa em cada categoria, e apenas os participantes que atingem determinadas pontuações se qualificam para serem incluídos nos estudos. Contudo, os investigadores, mas também os clínicos que os usam têm sentido que a utilização deste mesmo instrumento parece reflectir e elicitar respostas diferenciadas e diferentes entre homens e mulheres autistas. Por exemplo, há estudos que têm procurado explorar a rapidez com que o cérebro de pessoas autistas adultas se adaptam a novos acontecimentos no ambiente, e os investigadores em questão foram encontrando diferenças importantes entre homens e mulheres autistas.


Tudo isto faz-me pensar na recente inauguração da exposição Maestras no museu Thyssen em Madrid. Nesta exposição podemos ver os quadros de pintoras, mulheres pintoras e que foram durante todos estes anos escondidos da Sociedade em detrimento dos quadros dos homens.


Está na altura de deixar de ouvir o mesmo disco riscado, certo?


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