Raizes invisíveis
- pedrorodrigues

- há 2 dias
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Há histórias clínicas que não cabem em grelhas diagnósticas, nem se deixam organizar em listas de sintomas. Histórias que não se revelam numa primeira consulta, nem se apressam a explicar. São histórias feitas de adaptações subtis, de silêncios funcionais, de vidas inteiras vividas com competência aparente e um custo interno raramente reconhecido. É nesse território que nasce Raízes Invisíveis, uma nova rubrica do site Autismo n’Adulto, dedicada à escrita narrativa de casos clínicos de adultos autistas.
Nesta rubrica, a clínica aproxima-se deliberadamente da literatura, sem abdicar do rigor, mas recusando a redução. Cada caso é escrito como quem observa demoradamente uma paisagem humana, atento às continuidades, às rupturas e à lógica interna que sustenta o percurso de uma vida. Não se trata de romantizar o sofrimento, nem de estetizar o diagnóstico, mas de devolver densidade à experiência clínica, sobretudo quando esta foi, durante décadas, fragmentada, mal interpretada ou silenciada.
A escrita narrativa permite aceder a dimensões do autismo no adulto que frequentemente escapam aos modelos tradicionais. A camuflagem social prolongada, o burnout autista, os erros diagnósticos cumulativos, o impacto existencial do diagnóstico tardio, a diferença entre sofrimento e diferença. Em Raízes Invisíveis, cada caso é uma tentativa de compreender, não apenas o que a pessoa tem, mas quem a pessoa foi obrigada a ser para sobreviver num mundo pouco ajustado ao seu modo de funcionamento.
Esta rubrica dirige-se a profissionais de saúde mental, mas também a pessoas autistas, familiares e leitores atentos que procuram um olhar mais humano, mais ético e mais complexo sobre o autismo no adulto. Os textos não pretendem ensinar técnicas, mas formar o olhar clínico. Não oferecem respostas rápidas, mas perguntas bem colocadas. Convidam à pausa, à escuta e à reflexão, num tempo em que a clínica é frequentemente pressionada pela rapidez e pela padronização.
A imagem que acompanha estas narrativas não é um acaso. Uma árvore antiga, de raízes profundas e ramos amplos, sob a qual alguém escreve em silêncio. Tal como essas raízes, muito do que sustenta a vida psíquica das pessoas autistas permanece invisível durante anos. Só quando se abranda o passo e se observa com cuidado é possível perceber a coerência, a força e, por vezes, a fragilidade desse enraizamento.
Raízes Invisíveis é um convite a sentar, a ler devagar e a escutar o que durante muito tempo ficou sem palavras. Porque, por vezes, a tarefa clínica mais importante não é corrigir, classificar ou normalizar, mas simplesmente compreender.



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