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Recrutamento inclusivo

Hoje mais do que nunca se fala da Convenção dos Direitos Humanos da pessoa com deficiência. E do que isto representa para os próprios, famílias e Sociedade de uma maneira global. Se quisermos facilitar é pensar que todos nós, independentemente de termos ou não algum tipo de deficiência, incapacidade, dificuldade, condição, seja o que lhe quisermos chamar temos direitos iguais. E desejos de pertença e de participação no tecido social e no mercado de trabalho. Ser autónomo e independente. De vermos a nossa pessoa reconhecida e respeitada. E o poder trabalhar é uma condição fundamental neste processo e principalmente na transição para a vida adulta e ao longo desta.

O recrutamento inclusivo que tanto se tem falado nos últimos tempos reconhece o direito da pessoa com deficiência à integração no mercado de trabalho. No entanto, atendendo a algumas das características das pessoas que se enquadram neste grupo - "pessoas com deficiência", o mercado de trabalho, empregadores, empresas de recrutamento, Instituições que trabalham com estas pessoas com deficiência sentiram todas um conjunto de dificuldades e necessidades. Nomeadamente, pensar no que é que o próprio processo de recrutamento precisa de ser adaptado para que seja inclusivo das características da pessoa com deficiência.


Ora, pensando nos clientes que acompanho maioritariamente, pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) sinto igualmente a necessidade de que este processo tenha algumas modificações. Não lhe gostaria de chamar adaptações porque sinto que as pessoas de uma maneira geral podem sentir que o processo, agora de recrutamento, deverá ser adaptado às pessoas com PEA. Isto porque, penso que o processo, seja o de recrutamento ou outros processo qualquer possa ele próprio ser suficientemente abrangente para que possa abarcar um grupo bastante variado de pessoas, senão mesmo todas. E assim, o conceito de recrutamento inclusivo deixa de ser necessário. E já agora o de educação inclusiva ou qualquer outro que possa existir e que parece existir para diferenciar pessoas e grupos de pessoas com determinadas características. Até porque, que as pessoas com PEA tenham determinadas características não me espanta nada. Também eu, e você que está a ler este texto temos as nossas características. E que deverão ser conhecidas por nós de forma a que possa ser integradas no quotidiano da melhor maneira. Como tal não vejo necessidade imperativa de haver um recrutamento inclusivo. E porquê?


Se pensar que uma das características das pessoas com PEA passa pelo contacto ocular, posso equacionar que existem várias outras pessoas sem este diagnóstico e que apresentam algumas semelhanças (sublinho algumas). E também, nem todas as pessoas com PEA apresentam ou têm de apresentar esta características na vida adulta por exemplo. Até porque já desenvolveram competências sociais para poder enfrentar certas situações sociais. E se falarmos da interacção social ou da comunicação também poderia encontrar alguns outros exemplos em pessoas sem este diagnóstico e que também poderiam estar comprometidas em alguma medida. Seja porque tem um outro diagnóstico psiquiátrico ou porque apresentam alguns traços comportamentais. Não estou com isto a querer dizer que todos, sejam do espectro do autismo ou não são iguais. Porque não o são. Estou antes a afirmar que todos nós apresentamos características e que precisam de ser conhecidas, por nós e pelos outros e que devem ser respeitadas.


Assim, não vejo porque numa entrevista de emprego não possa haver a ideia de que há uma gama variada de comportamentos esperados. Por exemplo, em relação ao contacto ocular. E que como tal possa ter pessoas à minha frente a ser entrevistados e que possam apresentar uma maior dificuldade nesta área. E depois? Deverá ser isso um critério de exclusão? Ou a forma como a pessoa poderá responder à questão "onde se vê nesta empresa daqui a 10 anos?". São muitas as pessoas que têm dificuldade em responder, sejam do espectro do autismo ou não. Há inclusive um grupo cada vez maior de pessoas que quer entrar no mercado de trabalho e não quer sequer pensar em estar mais de 5 anos na mesma empresa.


A neurodiversidade, ou a forma como o nosso próprio cérebro tem de processar a informação sempre existiu se quisermos pensar. Ainda que o conceito tenha passado a vigorar apenas a partir de 1990. Ou seja, qualquer um de nós sempre teve uma forma particular de processar a informação. Sejamos homens comparativamente a mulheres. Ou pessoas com formação superior ou não. Oriundas de determinadas áreas geográficas do país ou de diferentes culturas, com percursos de vida diferentes, etc. E estas pessoas podem ser "encaixadas" em certo perfil de funcionamento é verdade. E esse perfil e forma de processar a informação poderá ser melhor encaixado com determinada função ou trabalho, claro está. E isto de forma a maximizar as competências da pessoa, sem que se esteja tão frequentemente a olhar para as suas dificuldades, incapacidade, deficiências, seja o nome que lhe quisermos dar. Todos nós temos as nossas competências ou a capacidade de as vir a adquirir. Inclusive nas pessoas com Dificuldade Intelectual (i.e., com Défice Cognitivo), sendo que as pessoas terão de ter um percurso de aprendizagem com determinada velocidade. Tal como eu também tenho a minha própria velocidade e você também a terá certamente.


As familias precisam de ser sensibilizadas desde sempre de que os seus filhos e filhas, independentemente da sua condição irão desejar pertencer aos diferentes acontecimentos e etapas fundamentais ao longo do ciclo de vida, nomeadamente trabalhar. E como tal é fundamental ajudar desde sempre no processo de autonomização e independência, aprendizagem de uma profissão, etc. Mas as Escolas também precisam de se repensar no seu papel junto destas crianças e jovens e no trabalho mais próximo com estas famílias. Assim como os técnicos das mais variadas áreas que as acompanham. O mercado de trabalho, os empregadores, a Sociedade de uma forma global precisa igualmente de se repensar. E todos em conjunto contribuirmos naquilo que nos é mais próprio para a construção de um bem maior para todos. Não, não é nada impossível de alcançar, idílico ou ingénuo da minha parte. Se for essa a sua resposta talvez você tenha deixado ou desistido de pertencer ao grupo a que eu ainda pertenço - à Humanidade. Bem vindo a bordo!

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