Meltdown, meltup, melteveryway
- pedrorodrigues

- 9 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
"Foste a razão da viagem de umas férias pra fugir
Foste a razão da viagem de umas férias pra fugir
Encontrei-te na paragem, no descer e no subir"
Gelado de verão, António Variações
O que é que os gelados de verão podem ter a ver com situações de meltdown nas pessoas autistas? A principio, nada. Mas quando pensei numa descrição de um meltdown lembrei-me daqueles episódios de ter pedido um gelado de cone com três sabores e assim que o agarrei começou imediatamente a pingar e a derreter. E ainda por cima tinha recusado os guardanapos que a pessoa da gelataria me tinha oferecido. Claro que esta minha situação do gelado nada se compara com uma situação de meltdown numa pessoa autista. Mas eu nunca tive um meltdown e muito menos com essa dimensão e impacto. E apesar de acompanhar pessoas autistas adultas continuo a ter muito que aprender sobre esta e outras experiências.
Imagina não conseguires bloquear os ruídos ao teu redor a cada minuto da tua vida, diz-me Cláudia (nome fictício), pessoa autista de 36 anos. Não achas que chegarias a um ponto em que não aguentarias mais? questiona-me.
Os episódios de meltdown são acessos involuntários de intensa frustração, raiva e, muitas vezes, violência física provocados por factores sensoriais e cognitivos facilmente tolerados por pessoas neurotípicas. E não é por acaso que frequentemente se ouve as pessoas não autistas a responder que não percebem porque é que aquela pessoa (autista) está a sentir as coisas de forma tão exagerada.
Embora quase 70% das pessoas autistas apresentem os comportamentos de crise associados a crises emocionais, os mecanismos neurais subjacentes a essa resposta inadequada ainda não são bem compreendidos. Isso tem impedido o progresso no desenvolvimento de uma intervenção terapêutica específica — além dos medicamentos tradicionais — que limita a frequência e a gravidade dessas mesmas crises.
É importante que nestes episódios/crises possa haver um diálogo interdisciplinar sobre a etiologia das crises emocionais que ocorrem nas pessoas autistas. Até porque o actual nível de conhecimento é ainda baixo para nos arreigarmos de saber como é que funcionam. Ao fazê-lo, enquadramos as crises emocionais como uma consequência da hipervigilância crónica subjacente e da hiperreatividade aguda a factores de stress objectivamente benignos, impulsionados por diferenças no córtex insular, de acordo com os dados investigados pelas neurociências. Sendo esta área considerada um centro de integração multimodal que adapta o estado autonómico e o comportamento para responder às exigências ambientais.
Além do comportamento observavel na pessoa, é fundamental poder ter uma compreensão dos aspectos neurológicos e neurofisiológicos que lhe subjazem. Até para podermos ajudar os nossos clientes a melhor compreender o que está a acontecer, assim como o que pode estar a desencadear estas crises. Primeiramente, e olhando para as crises através da lente da neurofisiologia podemos argumentar que a hipoconectividade intra-insular gera uma retirada vagal e hiperactividade simpática no autismo. Este mecanismo neurofisiológico leva à hipervigilância crónica e reduz o limiar de stressores que as pessoas autistas podem tolerar antes de experimentar uma crise. Ou seja, devido a uma diminuição de conectividade numa área neuronal, assistimos a um aumento da actividade do sistema nervoso simpático. O que por sua vez leva a uma imersão sensorial e que faz com que haja um esgotamento do processamento sensorial. Que por conseguinte faz com que a pessoa autista reaja de forma muito intensa mesmo face a um pequeno estímulo.
Em seguida, olhamos para a neuropsicologia e encontramos evidências de que as crises reflectem uma incapacidade de integrar adequadamente as evidências contextuais, particularmente as pistas sociais, ao avaliar de forma aguda sinais ambíguos de perigo no ambiente (i.e., neurocepção).
As pessoas autistas, especialmente aquelas com diagnóstico de alto funcionamento, frequentemente lidam com a sobrecarga sensorial desligando-se (shutdown) ou retirando-se completamente do ambiente. No entanto, esses desligamentos podem evoluir rapidamente para comportamentos de cariz agressivo indicativos de intensa excitação do sistema nervoso simpático, provocando uma desregulação comportamental, ou por um meltdown.
Estima-se que 68% das crianças e adolescentes com diagnóstico de perturbação do espectro do autismo apresentem comportamentos considerados agressivos em algum momento da sua vida, embora não existam dados epidemiológicos disponíveis para descrever a prevalência de crises emocionais nesta população. Como tem sido enfatizado na literatura cientifica mais actual, é fundamental distinguir entre os fenótipos comportamentais do que chamamos de birra e um meltdown Enquanto as birras são demonstrações intencionais de rebeldia ou raiva para atingir algum objectivo, os meltdowns são estados involuntários de excitação intensa que se manifestam como explosões violentas e incontroláveis.
Durante uma crise, uma peeoa autista terá uma consciência situacional limitada e experimentará um raciocínio verbal prejudicado, tornando difícil extinguir a crise apenas através de discussão racional e tranquilização. Por isso é tão importante que qualquer um de nós que lida habitualmente com uma pessoa autista deva ser ensinado e treinado a como agir e reagir quando uma pessoa autista tem um meltdown. Essas observações comportamentais, em conjunto com evidências de aumento generalizado da excitação simpática em pessoas autistas em crise, retratam o estado de crise como uma resposta pronunciada de luta ou fuga (figth or flight).
Embora as crises tenham sido tradicionalmente enquadradas como respostas de stress de hipersensibilidade à sobrecarga sensorial, as causas reais das crises comportamentais podem variar muito entre as pessoas, situações e contextos. Distingue-se entre crises causadas por sobrecarga sensorial e aquelas relacionadas a tarefas cognitivas. As crises sensoriais são causadas pela exposição a um ou mais gatilhos de hipersensibilidade, como um local público lotado (que contém muitos estímulos visuais, auditivos e táteis avassaladores). Em comparação, as crises cognitivas resultam quando uma pessoa autista sente que tem uma compreensão incompleta ou ambígua do motivo pelo qual algo aconteceu. Isso ocorre frequentemente quando recebem respostas insatisfatórias ou aparentemente ilógicas às suas perguntas, ou quando as suas expectativas para o futuro são desrespeitadas pelas realidades imprevisíveis da vida quotidiana. As crises podem ser precipitadas pela frustração envolvida na integração de várias informações, transições abruptas, limites de tempo, falhas de comunicação e situações sociais avassaladoras.
Mas por que as pessoas autistas apresentam uma excitação simpática pronunciada em resposta a stressores cognitivos e sensoriais que são facilmente tolerados por outras pessoas? Podemos organizar a nossa resposta em três momentos. Em primeiro lugar porque as pessoas autistas têm uma hipervigilância de base normalmente aumentada, o que reduz o limiar de factores stressantes adicionais que podem tolerar antes de experimentar uma resposta de luta ou fuga; Em segundo, interpretam os factores stressantes cognitivos ou sensoriais que desencadeiam crises como sendo muito mais perigosos ou ameaçadores do que parecem para pessoas neurotípicas (i.e., experimentam hiperreatividade); Em terceiro, uma combinação de ambos.
Neste sentido, parece importante ajudar as pessoas autistas a: diminuir a sua hipervigilância de base. Ainda que muitas vezes, esta hipervigilância possa estar também associada a outros factores, tais como episódios de bullying, alterações mais frequentes das rotinas causando situações de maior imprevisibilidade, etc. Ou seja, é preciso compreender que as pessoas autistas estão mais hipervigilantes porque sentem e/ou percepcionam maior insegurança e necessidade de assegurar que as coisas na sua vida possam ser mais e melhor controladas. Como tal, esta diminuição de hipervigilância precisa de ser feita ao mesmo tempo com um reassegurar do controlo possivel e de que a pessoa sente ter estratégias para lidar com as situações. E de preferência não entender que a pessoa autista não quer baixar a sua hipervigilância porque é somente rigida e inflexivel e quer ter sempre um maior controlo sobre a situação. As pessoas autistas na maior parte das situações gostariam muito de não estar ou ter de estar sistematicamente hipervigilantes. Até porque sente um desgaste fisico e emocional grande face a este seu esforço diário e constante. Além disso, também parece importante poder ajudar a pessoa autista a fazer uma outra interpretação das situações, principalmente aquelas que avalia como sendo mais catastróficas ou difíceis.
Tal como no comportamento de comer um gelado de cone com três bolas de sabores diferentes. É importante sabermos como proceder face a uma situação destas de meltdown, e para tal, é importante podermos compreender a situação, mas também sabermos aceitar a ajuda e no caso dos gelados, podermos aceitar uns guardanapos para não deixarmos pingar o gelado para os sapatos, que foi o que me aconteceu.



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