Quem conta um conto acrescenta um ponto...ou outro conto!

"A vida é como uma caixa de chocolates...". E se não gostamos de chocolate?! Vivemos uma multiplicidade de hipóteses independentemente de nos encontramos no Espectro do Autismo. Como? Podemos sempre vir a aprender a gostar de chocolates ou até mesmo fazermos nós próprios os nossos chocolates (...).

"It's far more important to know what person the disease has than what disease the person has."

Hipócrates de Quios


Dei comigo parado a contemplar esta frase de Hipócrates quando a lia. Procurava algumas leituras para me ajudar a reflectir na multiplicidade de experiências e narrativas na vida das pessoas adultas autistas. Propositadamente procurei afastar-me de alguma leitura (importante e necessária) mais relacionada com as características de diagnóstico "à la gardere". Procurei pensar na maneira como as pessoas adultas Autistas sentem e narram as suas vivências. Sejam aqueles episódios de vida mais marcantes, e não me refiro apenas àqueles sentidos como traumáticos. Mas também todos os outros que povoam o seu quotidiano, tal como aqueles momentos em que alguns de nós classifica como "lá está ele/a novamente com a cabeça na Lua!".


Mas quando procuro recontar aquela sua narrativa nos meus pensamentos não são poucas as vezes em que sinto que lhes acrescento não um ponto, tal como no ditado, mas um outro conto. Complicado?! Talvez. Compreendo. Aquilo que sinto é que a minha narrativa acerca da experiência vivencial da pessoa adulta autista pode ser entendida como um outro conto. Uma outra maneira de sentir. Não se trata de desvirtuar a experiência do Outro. Para mim é uma chamada de atenção para a importância de sabermos escutar o Outro no momento em que ele/a nos narra as suas vivências. Daí a frase de Hipócrates me ter detido. É mais importante conhecer a pessoa, dar importância a ela e saber escutar a sua narrativa do que nos determos somente na procura incessante dos critérios de diagnóstico.


Algumas pessoas adultas autistas com quem me cruzo na minha prática clinica dizem - Saber se tenho ou não Autismo é importante! Mas mais importante ainda é poder compreender-me e compreender o Mundo. Acrescentam ainda - Já vivi tempo suficiente sem o diagnóstico! Sinto-me como sempre me senti - uma pessoa diferente. Às vezes estranha! Chego a pensar - Quantos de nós não nos sentimos diferentes. Únicos até. Estranhos por vezes! É certo que as características do Espectro do Autismo se encontram diluídas ao longo da população. Como tal é compreensível a sensação de unicidade e estranheza. Não é o mesmo que dizer - Se calhar todos somos um pouco Autistas! Até porque não o somos e as pessoas autistas por norma ressentem-se bastante com essa afirmação em jeito de pergunta. É quase como ouvirem dizer - Ah, é autista? Mas não parece nada autista!


A narrativa da vida de um adulto autista é pautada de sofrimento. Por vezes penso quando escuto alguns episódios de vida que estou perante uma nova redefinição da palavra sofrimento. O deficit na Interacção social. É tão mais do que somente isso. Muitos dizem, quando os conseguirem escutar - Eu quero estar com outras pessoas. Eu não sei se gosto. Até porque isso depende de como as coisas vão correr. Mas eu sei que quero estar com outras pessoas! Também os há num outro pólo que dizem - Eu estou bem assim. Não sinto necessidade de estar com outras pessoas. Não vejo qualquer beneficio em poder estar ou fazer coisas com outras pessoas. Ou também por outro lado há quem refira - Eu gostava de ter amigos mas quando penso nisso vejo que dá muito trabalho. Sinto que precisamos de sair, enquanto técnicos, do visível das suas palavras. Daquilo que mais rapidamente nos sentimos inclinados a interpretar. Não sinto que seja isso que os ajude. E de caminho também não nos ajuda a nós. Mas o sofrimento, esse está sempre lá. Por vezes até mesmo à espreita. Num embrulho chamado de ansiedade, ou paranóia, ou até mesmo ritualizado. Seja como for é sofrimento. Mesmo quando as coisas até correm bem. Porque para serem conseguidas é preciso um dispêndio de energia gigantesco - no antes ao pensar/planear, no durante a execução e na sensação de estar inundado de sensações e no após quando até o próprio corpo está dorido como se estivesse ressacado de um melodia de silêncio que é própria de si - do adulto autista.

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