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Que lata!!

Que lata!! Traduzindo para Inglês - What a can!! Parece-vos estranho, não é? Acredito. É o mesmo que acontece às pessoas autistas e tantas outras pessoas com deficiência, quando perguntam se é ou não capaz de fazer isto ou aquilo. Ou quando leem a descrição daquilo que são as suas condições e verificam que grande parte destas descrições assentam numa base de (in)capacidade.


O conceito ableism (tradução capacitismo), advêm de able (disable). E se pensarem na palavra able, ela também quer significar capaz. Este conceito de capacitismo refere-se à discriminação e preconceito social contra pessoas com alguma deficiência. Nas sociedades capacitistas, a ausência de qualquer deficiência é visto como o normal, e as pessoas com alguma deficiência são entendidas como exceções. Nesse sentido, a deficiência é vista como algo a ser superado ou corrigido, se possível por intervenção médica.


O capacitismo é ancorado na construção social de um corpo padrão perfeito, designado de normal, e que leva a uma subestimação da capacidade e aptidão das pessoas em virtude das suas características e do facto de ser uma pessoa com deficiência.


Todos nós somos um pouco autistas?, pergunta alguém na audiência depois de terminar uma conferência sobre autismo.


Mas tu pareces normal, diz Joana (nome fictício) acerca da sua amiga Telma (nome fictício) depois desta lhe dizer que é autista.


Olha Carlos (nome fictício), tens de fazer assim desta maneira e depois daquela, percebeste? (nota: tentem ler esta frase com um enfase de uma pessoa a falar com um adulto como se estivesse a dirigir-se a uma criança).


Conta-nos uma dessas tuas histórias de superação. Vamos ficar todos inspirados!, diz Cláudio (nome fictício), amigo do João Pedro (nome fictício).


Vais continuar a fazer-me perguntas sobre o meu trabalho e o que faço? Vais dar-me emprego ou estás apenas a duvidar de eu ser autista e ter emprego?, diz Rute (nome fictício) a uma das amigas da sua irmã.


Será que podem parar de dizer que é um milagre a tudo aquilo que eu consigo fazer no trabalho?, pergunta Clara (nome fictício) aos seus colegas.


Se continuares a achar que tudo aquilo que eu faço é incrível, vou começar a pensar que tu não consegues fazer grande coisa!, diz João (nome fictício) a um colega no trabalho que insistentemente dizia incrível a tudo aquilo que João fazia.


Esta narrativa do "Eu sou capaz..." é asfixiante para todos nós, mas sem dúvida que ainda mais para as pessoas autistas. Até porque nós somos muito mais do que aquilo que na verdade conseguimos fazer. E como tal este paradigma da capacidade leva-nos a descentrar a nossa atenção de nós próprios, da nossa identidade. E ficamos focamos numa amalgama de coisas que fomos capazes de fazer. E isso vê-se por exemplo na escola, em que aquilo que parece importante é uma nota. Não interessa o resto. Se a pessoa gostou ou se aquilo lhe fez sentido. Agora imaginem a pessoa autista que desde o principio que é sinalizada por aquilo que não consegue fazer, ou então por aquilo que faz a mais, mas sem dúvida, que é visto como sendo algo que faz de errado. E que importuna ou incomoda os outros. E adicionalmente passa os dias a ouvir de como deve corrigir este e aquele comportamento e aproximar-se do comportamento do outro. E mesmo que qualquer um de nós diga que não é assim que trabalha ou pensa no autismo, esta noção está impregnada. Por exemplo, observemos a nossa linguagem utilizada no autismo e quando nos referimos à pessoa autista.


Serei ou não capaz de fazer aquilo? Quantos de nós não nos perguntamos isso diariamente? Veja-se os alunos nos momentos das avaliações. Os atletas em dias de provas. O esposo que precisa de falar com a sua esposa. O empregado que precisa de falar com o seu patrão, etc. Estamos sempre muito ancorados a esta ideia do será que conseguimos. E muitas vezes acusamos a ansiedade decorrente dessa mesma dúvida, inclusive das nossas competências e auto-eficácia. E no final, nós e os outros deduzimos muito frequentemente este ser ou não capaz na nossa pessoa. Se formos capaz somos bons e o contrário se não o formos. E muitos de nós sofre emocionalmente devido a isso, e a nossa identidade fica mais fragilizada. E tudo isto numa pessoa que já em si se encontra fragilizada é um aumentar a probabilidade do seu mal estar.


Há coisas que eu já consegui e que já não consigo mais. Até há coisas que eu já nem quero conseguir fazer. Nem se trata de ser ou não capaz. E há coisas que em determinados momentos estou mais cansado para as fazer, ou necessito de colaboração para a conseguir fazer. E poderia continuar a dar muitos e variados exemplos. O certo é que basear estas decisões na capacidade é falacioso e prejudicial. Seja para a própria pessoa que se vê afectada, mas também para todos nós.


Mas tudo isto tem um alcance ainda maior. Por exemplo, respondam honestamente às seguintes questões: Quantas pessoas autistas trabalham consigo? Ou estudaram consigo? Ou são seus amigos? Pensam que as questões são inocentes? Olhe que não são. Muito provavelmente muitos de vocês irá responder que não conhece ou então que conhece muitas poucas. E porquê, já pensaram? Se temos a informação de que 1 em cada 100 pessoas são autistas, porque é que não conhecemos mais pessoas autistas a trabalhar ou a estudar connosco, e a serem nossas amigas? E representadas em cargos públicos e na politica? Ou no desporto de alta competição?


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