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Quando o Autismo Encontra a Psicose: Onde Termina um e Começa o Outro?

À medida que a psicose se desenvolvia, comecei a perceber o mundo como algo intensamente significativo, como se conseguisse perceber aquilo que os outros não conseguiam. Os padrões pareciam surgir em todo o lado: as canções alinhavam-se com os meus pensamentos, os números repetiam-se, as coincidências pareciam mensagens. Uma capacidade autista de reconhecer padrões tornou-se uma vulnerabilidade. Se algo acontecesse duas vezes, parecia uma prova, e as conclusões pareciam lógicas. Em ambientes de sobrecarga sensorial, as alucinações e as interpretações delirantes intensificavam-se frequentemente. Um cintilar, um eco ou muito ruído de fundo podia levar-me a ouvir vozes ou a sentir que determinadas mensagens me eram dirigidas especificamente a mim. Para muitas pessoas autistas com psicose, a segurança não depende apenas dos sintomas. Depende também dos ambientes, das relações e dos sistemas de apoio. Carlos, 32 anos, nome fictício, pessoa autista com experiência de psicose.


A experiência descrita por Carlos ajuda-nos a compreender uma realidade clínica que nem sempre é reconhecida: uma pessoa pode ser autista e desenvolver uma perturbação psicótica. Quando isso acontece, as duas condições não existem necessariamente como fenómenos independentes e facilmente separáveis. As características do autismo, as diferenças no processamento sensorial, os estilos de pensamento, a ansiedade, o stress ambiental e a própria experiência psicótica podem interagir e influenciar-se mutuamente.


Esta sobreposição coloca desafios importantes à avaliação clínica. Não basta perguntar se determinada experiência «parece autista» ou «parece psicótica». É necessário compreender como essa experiência surgiu, quando surgiu, como evoluiu, qual era o funcionamento da pessoa antes dela e que significado tem para a própria pessoa.


A investigação sobre a coexistência entre autismo e psicose ainda é limitada e as estimativas de prevalência variam consideravelmente entre estudos. Contudo, existe evidência suficiente para considerar esta coocorrência clinicamente relevante. Não se trata, portanto, de uma situação excecional que deva ser encarada apenas como um «caso complexo». Deve fazer parte do raciocínio clínico quando os dados da história e da avaliação o justificam.


Quando o autismo e a psicose coexistem, podem surgir maiores dificuldades no diagnóstico, no acesso aos cuidados, na continuidade do tratamento e na adaptação das intervenções. Existe também o risco de períodos mais prolongados de psicose não tratada, interrupções do acompanhamento, maior exposição a efeitos adversos da medicação e respostas clínicas pouco ajustadas às necessidades da pessoa.


Por isso, a coexistência entre autismo e psicose deve ser reconhecida como uma possibilidade clínica que exige uma avaliação integrada e cuidados adaptados.


Do passado à compreensão atual


A relação entre autismo e psicose tem uma história particularmente complexa na psiquiatria.

Durante parte da história da classificação psiquiátrica, aquilo que hoje identificamos como autismo esteve associado às chamadas «psicoses infantis». Com o desenvolvimento da investigação em neurodesenvolvimento, tornou-se progressivamente claro que o autismo deveria ser compreendido como uma condição do neurodesenvolvimento, com características que têm origem no desenvolvimento precoce, distinguindo-se das perturbações psicóticas, que apresentam habitualmente outro padrão de aparecimento e evolução.


Esta distinção foi fundamental. No entanto, não significa que autismo e psicose sejam mutuamente exclusivos.


Uma pessoa autista pode desenvolver psicose. E, inversamente, uma pessoa acompanhada por uma perturbação psicótica pode apresentar características autistas que tenham passado despercebidas durante anos. Esta possibilidade tem consequências muito importantes para a prática clínica.


O problema do «ofuscamento diagnóstico»


Quando uma pessoa já tem um diagnóstico, existe o risco de todas as suas experiências posteriores serem interpretadas através desse diagnóstico. Este fenómeno é frequentemente designado por ofuscamento diagnóstico.


Uma pessoa autista pode apresentar uma alteração psicótica e esta ser interpretada como «mais uma característica do autismo». Uma alteração sensorial pode ser confundida com uma alucinação, mas uma verdadeira experiência alucinatória também pode ser incorretamente explicada apenas pelo perfil sensorial autista.


O processo pode acontecer na direção oposta.


Uma pessoa com psicose pode apresentar dificuldades de comunicação social, necessidade de rotinas, interesses intensos, comportamentos repetitivos ou diferenças sensoriais que sejam interpretadas exclusivamente como sintomas negativos, défices cognitivos ou consequências da doença psicótica.


Em ambos os casos, um diagnóstico pode tornar invisível o outro. Este é um dos principais riscos clínicos quando se avalia a coexistência entre autismo e psicose.


Por que é tão difícil distinguir?


Autismo e psicose podem partilhar algumas manifestações superficiais. Uma pessoa autista pode apresentar isolamento social, dificuldades na reciprocidade social, comunicação atípica, diferenças na expressão emocional, dificuldades executivas, alterações sensoriais, ansiedade ou depressão.


Uma pessoa com psicose pode apresentar igualmente isolamento social, alterações no funcionamento executivo, dificuldades relacionais, alterações emocionais e comprometimento funcional.


Se olharmos apenas para o comportamento observado num determinado momento, podemos chegar facilmente a conclusões erradas.


Também existem dificuldades particulares na interpretação de experiências internas. Uma pessoa autista pode ter uma vida imaginativa intensa, interesses muito absorventes, interpretações particulares de acontecimentos ou crenças muito importantes para si. Em situações de stress intenso, estas experiências podem tornar-se ainda mais marcadas. Isto não significa, por si só, que exista psicose.


Por outro lado, uma alteração recente na forma como a pessoa interpreta a realidade, acompanhada por convicções delirantes, alucinações ou desorganização do pensamento, não deve ser automaticamente atribuída ao autismo. A semelhança aparente entre experiências não significa que tenham o mesmo significado clínico.


O que deve procurar a avaliação clínica?


Para psiquiatras e psicólogos clínicos, uma das perguntas mais importantes é: «O que mudou?»


A avaliação deve procurar estabelecer uma linha temporal clara. É essencial compreender:


  • Como era a pessoa durante a infância e adolescência?

  • Que características estavam presentes antes do aparecimento de qualquer sintomatologia psicótica?

  • Como funcionava socialmente, academicamente e profissionalmente?

  • Existiam interesses intensos, necessidade de rotinas, comportamentos repetitivos ou diferenças sensoriais desde fases precoces do desenvolvimento?

  • Qual era o funcionamento habitual da pessoa antes da alteração clínica?

  • Quando surgiram pela primeira vez as experiências que levantam suspeita de psicose?

  • Houve uma mudança clara relativamente ao funcionamento anterior?

  • As crenças ou perceções são novas ou correspondem a padrões de pensamento presentes desde a infância?

  • Existe perda de flexibilidade ou de organização que seja qualitativamente diferente do padrão habitual?

  • Houve alteração significativa no funcionamento social, profissional ou académico?

  • Existem alucinações, delírios ou alterações da organização do pensamento claramente diferentes das experiências anteriores?

  • Como variam estas experiências perante stress, privação de sono ou sobrecarga sensorial?

  • Existem consumos de substâncias, alterações do humor, trauma ou outras condições que possam contribuir para a apresentação clínica?


Esta análise longitudinal é particularmente importante. O autismo é, por definição, uma condição do neurodesenvolvimento. A psicose implica frequentemente uma alteração relativamente ao funcionamento anterior. Esta diferença não é absoluta, mas constitui uma pista clínica fundamental.


Traço e mudança


Uma das distinções mais úteis consiste em diferenciar aquilo que é traço daquilo que representa mudança. As características autistas estão geralmente presentes desde fases precoces do desenvolvimento, ainda que possam ter sido mascaradas, compensadas ou não reconhecidas durante muitos anos.


Podem incluir diferenças persistentes na comunicação social, necessidade de previsibilidade, interesses intensos, comportamentos repetitivos, diferenças no processamento sensorial e formas particulares de compreender e organizar a experiência.


A psicose, pelo contrário, caracteriza-se frequentemente pelo aparecimento de fenómenos que não faziam parte do funcionamento habitual da pessoa.


Podem surgir alucinações, crenças delirantes, alterações marcadas na interpretação da realidade, desorganização do pensamento ou deterioração funcional.


Por isso, em vez de perguntar apenas: «Isto é autismo ou é psicose?» é muitas vezes mais útil perguntar: «O que pertence ao funcionamento habitual desta pessoa e o que representa uma alteração relativamente a esse funcionamento?» Esta pergunta pode mudar profundamente a avaliação.


O reconhecimento de padrões: uma questão particularmente delicada


A experiência de Carlos ilustra outro aspeto importante. Muitas pessoas autistas descrevem uma atenção particularmente intensa a padrões, regularidades, detalhes e relações entre elementos. Esta característica pode ser uma capacidade, uma fonte de interesse e até uma estratégia de compreensão e organização do mundo.


No contexto de uma experiência psicótica, porém, a procura de padrões pode adquirir outro significado. Coincidências podem começar a ser interpretadas como mensagens pessoais. A repetição de acontecimentos pode ser entendida como confirmação de uma determinada crença. Elementos neutros do ambiente podem adquirir um significado extraordinariamente pessoal.


Clinicamente, não devemos concluir que a capacidade de reconhecer padrões constitui psicose. O que importa é compreender como a pessoa atribui significado a esses padrões e se existe uma alteração qualitativa relativamente ao seu modo habitual de interpretar a realidade. Esta distinção é fundamental para evitar tanto a patologização de características autistas como a normalização indevida de sintomas psicóticos.


O papel da sobrecarga sensorial


O processamento sensorial merece atenção especial. Muitas pessoas autistas apresentam hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais. Ruído, luz, movimento, cheiros, contacto físico ou múltiplos estímulos simultâneos podem provocar sobrecarga significativa.


A sobrecarga pode aumentar ansiedade, confusão, irritabilidade, dissociação, dificuldades de comunicação e perda temporária de capacidade funcional.


Em algumas pessoas autistas que também apresentam psicose, estes estados de sobrecarga podem coincidir com um aumento da intensidade das experiências psicóticas.


Por isso, o contexto em que determinado fenómeno ocorre é clinicamente relevante. Uma experiência que surge exclusivamente ou sobretudo em situações de extrema sobrecarga sensorial deve ser explorada de forma diferente de uma experiência persistente, independentemente do contexto, e acompanhada por alterações mais abrangentes na interpretação da realidade.


Isto não significa que o contexto determine se uma experiência é ou não psicótica. Significa que o contexto faz parte da fenomenologia e deve ser avaliado.


Quando o autismo e a psicose coexistem


Quando existe efetivamente uma coexistência entre autismo e psicose, não devemos imaginar duas condições simplesmente colocadas lado a lado. O autismo pode influenciar a forma como a pessoa experiencia, interpreta e comunica os sintomas psicóticos.


As diferenças sensoriais podem influenciar a intensidade das experiências. As dificuldades de comunicação podem tornar mais difícil descrever uma alucinação ou uma crença delirante.


A alexitimia ou as dificuldades de identificação dos estados internos podem dificultar o reconhecimento precoce de alterações emocionais e fisiológicas.


As dificuldades executivas podem interferir com a organização do tratamento e a toma regular da medicação.


A ansiedade pode aumentar significativamente perante ambientes clínicos imprevisíveis. E experiências anteriores de incompreensão ou invalidação podem tornar a pessoa mais relutante em comunicar determinadas experiências.


Assim, aquilo que num contexto clínico convencional pode parecer «falta de adesão», «resistência» ou «falta de insight» pode, em determinadas circunstâncias, refletir dificuldades de comunicação, sobrecarga, falta de adaptação ambiental ou uma explicação insuficiente do tratamento.


O tratamento também precisa de ser adaptado


A evidência científica sobre intervenções psicológicas especificamente adaptadas a pessoas autistas com psicose ainda é limitada. No entanto, a ausência de evidência robusta não significa que a adaptação clínica seja dispensável.


Pelo contrário, é necessário considerar as características individuais da pessoa. Uma intervenção psicológica pode precisar de utilizar linguagem mais concreta, menor recurso a metáforas, maior previsibilidade, explicitação das intenções do terapeuta, pausas mais frequentes e maior atenção à carga sensorial do contexto terapêutico.


Pode também ser necessário adaptar a forma como se explora uma experiência interna. Uma abordagem excessivamente centrada em «corrigir pensamentos irracionais» pode ser pouco útil quando não se compreende primeiro a função que determinada interpretação tem para a pessoa.


O objetivo não deve ser simplesmente substituir uma forma «autista» de pensar por uma forma «neurotípica» de pensar. O objetivo é ajudar a pessoa a compreender as suas experiências, avaliar diferentes interpretações possíveis, aumentar a segurança e desenvolver estratégias que lhe permitam viver com maior autonomia e bem-estar.


A psicoeducação também precisa de ser acessível


Os materiais de psicoeducação utilizados nos serviços de saúde mental recorrem frequentemente a linguagem abstrata, a metáforas ou exemplos baseados em experiências consideradas típicas.


Para algumas pessoas autistas, estes materiais podem não ser suficientemente claros. Pode ser necessário explicar conceitos de forma mais concreta, visual e estruturada, verificando se a pessoa compreendeu não apenas as palavras utilizadas, mas também o significado que lhes foi atribuído.


A comunicação clínica deve ser adaptada à pessoa e não esperar que a pessoa se adapte ao formato habitual do serviço.


«Resistência ao tratamento» ou tratamento pouco adaptado?


Esta é uma questão particularmente importante. Quando uma pessoa autista apresenta dificuldades em iniciar, manter ou aceitar uma intervenção, é tentador interpretar o comportamento como falta de motivação, ausência de insight ou resistência ao tratamento.


Antes de chegar a essa conclusão, importa perguntar: O tratamento foi compreendido? O ambiente terapêutico é tolerável do ponto de vista sensorial? A comunicação utilizada é acessível à pessoa? O plano terapêutico tem em consideração as suas necessidades de previsibilidade e funcionamento executivo? A medicação está a provocar efeitos adversos particularmente difíceis de tolerar? As expectativas clínicas são compatíveis com o funcionamento daquela pessoa? Foi considerada a possibilidade de a pessoa estar a comunicar sofrimento de uma forma que a equipa não está a reconhecer?


Estas perguntas podem transformar a interpretação clínica. Uma dificuldade de adesão não é necessariamente uma característica da pessoa. Pode também ser um indicador de que o tratamento precisa de ser adaptado.


O que os profissionais devem ter presente


Quando existe suspeita de autismo e psicose, a avaliação clínica deve evitar dois erros simétricos.


O primeiro é psicopatologizar o autismo, interpretando características neurodesenvolvimentais como sintomas psicóticos. O segundo é normalizar a psicose como parte do autismo, atribuindo experiências psicóticas emergentes às características autistas.


A avaliação deve ser longitudinal, fenomenológica e contextual. É particularmente importante:


1. Estabelecer o funcionamento basal. Conhecer a pessoa antes do aparecimento das alterações suspeitas.

2. Construir uma história do desenvolvimento. Procurar características autistas desde a infância e adolescência, incluindo informação proveniente de familiares ou outras fontes quando apropriado e consentido.

3. Identificar mudanças qualitativas. Perguntar o que surgiu de novo e quando.

4. Explorar a fenomenologia. Não basta saber que a pessoa «ouve vozes» ou «tem pensamentos estranhos». É necessário compreender a experiência, o grau de convicção, o significado atribuído, a relação com o contexto e a possibilidade de interpretações alternativas.

5. Avaliar o contexto sensorial. Compreender o impacto da sobrecarga e perceber como as experiências variam em diferentes ambientes.

6. Considerar comorbilidades e fatores precipitantes. Incluindo ansiedade, depressão, alterações do humor, trauma, privação de sono e consumo de substâncias.

7. Avaliar o funcionamento ao longo do tempo. Uma alteração significativa no funcionamento pode ser uma informação clínica decisiva.

8. Evitar o ofuscamento diagnóstico. A existência de um diagnóstico não deve impedir a procura de outro quando existem indicadores clínicos.

9. Adaptar a comunicação e o tratamento. As diferenças neurodesenvolvimentais devem ser consideradas no planeamento dos cuidados.

10. Trabalhar em equipa. A complexidade destes casos beneficia da articulação entre psiquiatria, psicologia clínica, enfermagem, terapia ocupacional, serviço social e outros profissionais relevantes.


Uma mudança necessária na prática clínica


A coexistência entre autismo e psicose não deve ser encarada apenas como uma combinação rara de diagnósticos ou como um problema reservado a serviços altamente especializados.


É uma realidade clínica que exige que os profissionais sejam capazes de reconhecer duas coisas simultaneamente: a pessoa autista não deixa de ser autista quando desenvolve psicose; e uma experiência psicótica não deixa de ser psicose porque ocorre numa pessoa autista.


Entre estas duas afirmações existe um espaço clínico que exige tempo, conhecimento, escuta e capacidade de diferenciar fenómenos semelhantes na aparência, mas diferentes na sua origem e significado.


Mais do que decidir rapidamente se uma experiência pertence ao autismo ou à psicose, importa compreender a pessoa, a sua história, o seu funcionamento basal, aquilo que mudou e o contexto em que essa mudança ocorreu.


É nessa diferença entre traço e mudança, entre experiência e interpretação, entre contexto e sintoma, que muitas vezes se encontra a chave para uma avaliação mais rigorosa. E é também aí que começa um tratamento verdadeiramente individualizado.


Para uma pessoa autista com psicose, segurança não significa apenas reduzir sintomas. Pode significar também encontrar um ambiente sensorialmente tolerável, uma relação terapêutica previsível, uma linguagem que faça sentido, profissionais que compreendam o seu modo de funcionamento e um sistema de cuidados suficientemente flexível para não transformar a diferença num obstáculo ao tratamento.


 
 
 

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