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Qual a tua identidade?

Assim que nascemos somos registados? Antes mesmo disso já temos um nome, que por norma os nossos pais, pensaram em nos dar. Este conjunto de características que nos define enquanto pessoa única é aquilo a que tendencialmente chamamos de identidade. E esta vai sendo construída ao longo do desenvolvimento. E se estas características nos diferenciam uns dos outros. Também há características que nos aproximam, e esta proximidade também participa para a construção desta nossa identidade, nomeadamente associada a um grupo.


No caso do autismo, e apesar deste ser um diagnóstico clínico, gosto de pensar, e não sou o único, de que há uma identidade associada, nomeadamente uma identidade social. Mas também uma identidade própria da pessoa autista e que a vai construindo e se vai construindo ao longo do desenvolvimento. E como tal, sim, é fundamental saber que sou uma pessoa autista. Sim, é fundamental fazer o despiste de diagnóstico, e também com essa ferramenta, poder melhor construir a minha identidade autista.


Mas é muito frequente, ainda nos dias de hoje, ouvirmos dizer, seja com crianças, jovens mas também com adultos, que poderá ser melhor não saber que se é uma pessoa autista. Ou ainda mais, de que é melhor os outros não saberem que aquela pessoa é uma pessoa autista! Mas na verdade, se isso acontecer, da forma como ainda observamos acontecer, isso tem um impacto muito negativo na pessoa autista. Até porque não a ajuda a se apropriar adequadamente das suas características e também da sua identidade. E como tal, ser ela própria. E estou certo de que todos concordarão que ninguém viverá bem consigo mesmo e com todos, se não viver bem consigo e com a sua identidade.


E precisamos de pensar que as pessoas interagem umas com as outras. Sejam pessoas autistas entre si, mas também pessoas autistas e não autistas entre si. E como tal, haverá determinadas características de uns e de outros que irão estar presentes e que irão influenciar a forma como essa mesma interacção irá acontecer. E se uma dessas pessoas, seja autista ou não autista não viver bem e de uma forma saudável com a sua identidade, ou até mesmo não tiver consciência da sua própria identidade, certamente que essa interacção estará mais comprometida e ameaçada.


E se sabemos que todos nós desde que nascemos iremos estar mais ou menos envolvidos na construção da nossa própria identidade. E que o período da infância e adolescência são fundamentais na construção da identidade da pessoa. É urgente repensar a importância de ajudar as crianças e os jovens, não só a serem despistados adequada e atempadamente para a Perturbação do Espectro do Autismo. Mas também é fundamental haver um investimento prático, emocional e relacional e por parte de todos, na facilitação do processo de construção de identidade da pessoa autista.


E se a identidade é um processo da pessoa, também não deixa de ser uma identidade social. Sendo que esta mesma identidade e principalmente a forma como ela vai sendo construída, contribui para o envolvimento da pessoa no tecido social e da própria comunidade. E é sabido que ainda continuamos a ver em muito, crianças, jovens e adultos autistas com uma participação diminuída no tecido social e na comunidade. Se é verdade que vamos assistindo e cada vez mais a uma participação activa das pessoas autistas nas próprias comunidade autistas. Mas também é verdade que a representação das pessoas autistas na comunidade não é frequente. E certamente não é por falta de desejo desta em participar.


E todos nós experimentamos que o facto de nos vermos envolvidos na participação na comunidade nos mais variados aspectos tem um impacto positivo na nossa satisfação e bem estar, seja social mas também psicológico e até físico. E como tal, também precisamos todos de sair com a devida cautela do paradigma de somente olharmos para as características de diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo e procurar intervir junto da pessoa autista. Para podermos pensar na importância de que esta, seja em trabalho conjunto com outras pessoas, mas principalmente a partir de si mesma, possa construir a sua identidade.


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