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Pôr as cartas na mesa

há 4 dias
4 min de leitura

“Pôr as cartas na mesa” é falar claramente, sem rodeios. O tema de hoje é este: há cada vez mais indícios de que o parkinsonismo é mais frequente nas pessoas autistas, sobretudo a partir da meia-idade.


Do que estamos a falar


O parkinsonismo é o conjunto de sintomas motores característicos da Doença de Parkinson (DP): tremor, rigidez muscular e lentidão dos movimentos (bradicinesia), entre outros. São sintomas sobretudo hipocinéticos, ou seja, o corpo move-se menos ou mais devagar. Isto distingue-os de alguns movimentos repetitivos associados à Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), como as estereotipias ou os tiques, que são hipercinéticos.


Na DP, o processo de base é a perda de neurónios produtores de dopamina, sobretudo na substância negra, o que compromete a via nigroestriatal. Mas nem todo o parkinsonismo é Parkinson. Existe o parkinsonismo induzido por medicamentos, causado sobretudo por antipsicóticos, que interferem com a transmissão de dopamina no estriado. Existe também o parkinsonismo vascular, que resulta de enfartes ou isquemia com impacto nos circuitos dos gânglios da base. Esta distinção é importante porque muitas pessoas autistas tomam ou tomaram antipsicóticos ao longo da vida.


O que dizem os números


Os primeiros sinais vieram de estudos pequenos, com exames neurológicos a adultos autistas com mais de 40 e 50 anos. Mostravam taxas elevadas de parkinsonismo, mesmo em quem não tomava antipsicóticos. A seguir vieram estudos com registos clínicos e dados de seguros de saúde nos EUA. Num deles, com adultos autistas com mais de 65 anos, a Doença de Parkinson estava diagnosticada em 6,6% dos autistas, contra 1,2% no grupo de comparação.


Em outubro deste ano, foi publicado na revista Autism o maior estudo até agora. Analisou dados de quase 57 milhões de norte-americanos com 45 ou mais anos, abrangidos pelo Medicare ou Medicaid entre 2017 e 2019. A prevalência de parkinsonismo foi de 3,83% nos adultos só com autismo, 4,32% nos que tinham apenas dificuldade intelectual e 4,86% nos que tinham ambas as condições. No grupo sem nenhuma destas condições, ficou abaixo de 1,6%. Segundo Gregory Wallace, um dos autores, estes casos não parecem ser apenas um subproduto das dificuldades motoras que acompanham estas pessoas desde sempre.


Porque é que isto importa no dia a dia


Saber que o parkinsonismo é mais frequente não chega. É preciso perceber o que muda na vida das pessoas. Foi isso que investigou um estudo de Wallace, Said e McQuaid, publicado na Autism Research em 2025. Participaram 379 adultos autistas entre os 40 e os 83 anos, dos quais 119 tiveram rastreio positivo para parkinsonismo.


Comparados com os restantes, os adultos com rastreio positivo relataram:

  • pior qualidade de vida, sobretudo nos domínios físico, ambiental e específico do autismo;

  • mais dificuldades de memória, tanto prospetiva (lembrar-se de fazer algo no futuro) como retrospetiva;

  • pior qualidade do sono;

  • mais sintomas depressivos.


Estes resultados mantiveram-se mesmo depois de excluir quem tomava antipsicóticos ou não tinha informado sobre a medicação. Memória, sono e humor já são áreas de vulnerabilidade na PEA. O parkinsonismo parece somar-se a essas dificuldades em vez de passar despercebido.


E porque é que só agora?


Há várias razões, e nenhuma se basta sozinha. O olhar esteve sempre na infância. Durante grande parte do último século, a investigação centrou-se no diagnóstico precoce e no desenvolvimento infantil e juvenil. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento para toda a vida, mas só há cerca de dez anos se olha a sério para a perspetiva do ciclo de vida. O conhecimento sobre autistas na meia-idade e na velhice continua surpreendentemente escasso.


Muitos adultos mais velhos nunca foram diagnosticados. Quem tem hoje 60 ou 70 anos cresceu numa época em que o diagnóstico de PEA era raro, sobretudo sem dificuldade intelectual. Sem diagnóstico, não entram nas estatísticas.

O efeito de ofuscamento diagnóstico. A lentidão, a rigidez ou uma marcha diferente podem ser atribuídas ao “jeito de ser” da pessoa autista, à medicação ou à idade. Ninguém investiga mais.


A confusão com a medicação. Os antipsicóticos são frequentemente prescritos a pessoas autistas e podem provocar sintomas parkinsonianos. Durante muito tempo, foi difícil separar uma coisa da outra. Só os estudos mais recentes controlam este fator de forma sistemática.


Diferentes leituras do mesmo fenómeno


Convém sermos honestos sobre o que ainda não sabemos. Há pelo menos três hipóteses em cima da mesa, e não são exclusivas:


  1. Uma vulnerabilidade biológica partilhada, por exemplo, nos sistemas dopaminérgicos e nos gânglios da base. Isto aumentaria o risco de neurodegeneração ao longo do envelhecimento.

  2. Um fenótipo motor que acompanha a vida toda. Diferenças na marcha estão descritas em crianças autistas desde os anos 80. Parte do que hoje é registado como parkinsonismo pode ter estado presente muito antes, sem ser neurodegenerativo.

  3. Efeitos acumulados de medicação e de fatores de saúde, como o uso prolongado de antipsicóticos, inclusive no passado, e problemas vasculares.


Há também limitações metodológicas a ter em conta. O estudo de 2025 usou questionários de autorresposta, sem exame neurológico, e um desenho transversal. Isso não permite saber o que vem primeiro: se o parkinsonismo agrava a depressão e o sono, ou o contrário. Os dados de seguros de saúde abrangem enormes populações, mas não permitem avaliar a gravidade dos sintomas nem o papel do estilo de vida, da genética ou da história familiar, e deixam de fora quem só tem seguro privado. Falamos de um risco acrescido, não de uma inevitabilidade. A grande maioria das pessoas autistas não vai desenvolver parkinsonismo.


Então, o que fazer?


Estas evidências tornam mais urgente olhar para o autismo como uma condição que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida. É também urgente chamar a atenção dos profissionais que trabalham com o envelhecimento, na gerontologia, na psiquiatria, na neurologia e na psicologia. Algumas pistas práticas:


  • Estar atento aos sinais motores a partir da meia-idade: tremor, rigidez, lentidão nova nas tarefas do dia a dia, ou a sensação de ficar “colado ao chão” ao andar ou virar.

  • Rever com regularidade a necessidade de antipsicóticos e monitorizar os efeitos secundários motores.

  • Avaliar o sono, o humor e a memória como parte do acompanhamento, e não como questões isoladas.

  • Preparar com antecedência. Informar as pessoas autistas e as suas famílias, e capacitar os profissionais de saúde que as vão acompanhar no envelhecimento. Em parte, alguns riscos podem ser prevenidos. Acima de tudo, o caminho pode ser preparado.


Pôr as cartas na mesa é isto: reconhecer que as pessoas autistas envelhecem, que o envelhecimento traz desafios específicos e que temos a responsabilidade de os conhecer antes de chegarem.


 
 
 

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