A relação terapêutica com a pessoa autista adulta: reflexões sobre um encontro entre neurotipos
Se por um lado dizemos que nem tudo o que vem à rede é peixe. Também é verdade que pescar em conjunto com a rede não se trata apenas de lançá-la e esperar pelo peixe. Claro que não estamos a falar verdadeiramente de pesca, mas sim da relação terapêutica, e ainda mais especificamente com a pessoa autista adulta.
Ao longo destes anos, tenho observado que os psicólogos que vão fazendo formação na área do autismo e, especificamente, no autismo no adulto vão estando cada vez mais capacitados para suspeitar da pessoa em consulta se puder tratar de alguém com esse diagnóstico. Ou estar mais capaz de realizar uma avaliação de diagnóstico desta condição, por exemplo. Contudo, no que diz respeito à relação terapêutica, muitas das dificuldades parecem manter-se. Os silêncios mantidos durante tempo interminável nas consultas, os desafios sentidos no insight, reciprocidade social, etc., podem tornar o acompanhamento psicológico com a pessoa autista adulta um desafio a muitos de nós.
A relação terapêutica é, provavelmente, o fator comum mais robusto que conhecemos em psicoterapia. No entanto, quase tudo o que sabemos sobre ela foi aprendido com clientes não autistas. Em grande parte, foi também descrito por terapeutas não autistas.
Quando uma pessoa autista adulta entra no consultório, encontram-se dois modos diferentes de perceber, comunicar e estar em relação. Este texto parte de uma pergunta simples: o que acontece à aliança terapêutica quando esse encontro é entre neurotipos diferentes?
A reflexão tem três fios. O primeiro é o que a investigação já nos diz sobre a aliança com pessoas autistas adultas. O segundo é a razão pela qual nos diz tão pouco. O terceiro são os desafios que os psicólogos e psicoterapeutas sentem, muitas vezes em silêncio, quando trabalham com esta população.
Usa-se aqui a expressão «pessoa autista», preferida pela maioria da comunidade autista (Kenny et al., 2016), e PEA (Perturbação do Espectro do Autismo) quando se fala do diagnóstico. Na clínica, a regra é outra e mais simples: pergunta-se à pessoa.
O que sabemos sobre a aliança terapêutica
A aliança explica uma parte modesta, mas consistente dos resultados da psicoterapia. Numa meta-análise de 295 estudos, com mais de 30 000 pacientes, a associação entre aliança e resultado foi de r = .28 (Flückiger et al., 2018). O valor manteve-se entre modelos teóricos, medidas, perspetivas de avaliação e países.
Bordin (1979) propôs uma definição que continua a ser a mais usada. A aliança assenta em três elementos: acordo sobre os objetivos, acordo sobre as tarefas e um vínculo de confiança. A definição é transteórica, o que a torna útil para pensar qualquer abordagem.
A investigação mais recente deslocou o foco da aliança como estado para a aliança como processo. As ruturas são frequentes e não são, por si, um mau sinal. O que se associa a melhores resultados é a capacidade de as reparar: r = .29 numa meta-análise de 11 estudos (Eubanks, Muran & Safran, 2018).
Sabemos ainda que os terapeutas diferem entre si na capacidade de construir alianças, e que essa diferença pesa mais do que a dos clientes (Del Re et al., 2012). Esta ideia é central para o resto do texto. Quando a aliança com uma pessoa autista falha, a pergunta útil não é apenas «o que falta ao cliente?». É também «o que está a falhar em mim e entre nós?».
Convém uma nota de cautela. A relação entre aliança e resultado é correlacional. A aliança melhora quando o cliente melhora, e nem sempre é claro qual vem primeiro.
A aliança com a pessoa autista adulta: o que muda
A aliança com pessoas autistas é possível e, ao que tudo indica, também se associa aos resultados. Durante muito tempo a ideia contrária foi tida como evidente, mas os poucos dados disponíveis não a confirmam. Kerns et al. (2018) encontraram, em jovens autistas em TCC para a ansiedade, alianças comparáveis às de jovens não autistas. Brewe et al. (2021) observaram que a aliança oscila ao longo da intervenção, desce a meio e volta a subir. A aliança precoce previu menos disforia no fim. Em ambos os casos, porém, falamos sobretudo de adolescentes e jovens adultos.
Um desencontro que é de dois
O conceito de dupla empatia (Milton, 2012) muda a pergunta clínica. As dificuldades de comunicação entre pessoas autistas e não autistas não são um défice de um só lado. São um desencontro entre estilos, e a responsabilidade é partilhada.
Na sala de terapia isto tem consequências concretas. O silêncio pode ser lido como resistência, o olhar desviado como desinteresse, a resposta literal como defensividade. O terapeuta lê mal, tal como o cliente pode ler mal. A diferença é que o terapeuta tem, em regra, mais poder para definir o que conta como «normal» na relação.
As mesmas condições, ditas de forma mais explícita
No estudo de Hume (2022), com 17 adultos autistas e 3 terapeutas, não surgiu a necessidade de uma relação diferente. Surgiu a necessidade das mesmas condições de Rogers, expressas de forma mais intensa e mais explícita: congruência, empatia e consideração positiva incondicional.
Muitos participantes descreveram uma sensibilidade elevada ao ambiente emocional do terapeuta. A empatia «encenada», as técnicas de rapport artificiais ou a irritação disfarçada eram detetadas e feriam a confiança. A consideração positiva ganhava força quando era dita de forma direta e demonstrada na prática: lembrar um interesse, preparar a sessão, ajustar a sala.
O que as pessoas autistas pedem
Pappagianopoulos et al. (2025) entrevistaram 19 adultos autistas sobre as suas experiências em terapia. Os temas mais frequentes foram um terapeuta que compreende o autismo e uma abordagem flexível e colaborativa. Seguiram-se a validação, o espaço para falar e, em menor grau, adaptações na comunicação, na estrutura e no ambiente sensorial.
Em grande parte, isto é boa prática geral. O que muda é que precisa de ser informada sobre o autismo: a camuflagem, a história de invalidação, o processamento sensorial, a diferença de ritmo.
A camuflagem e as ruturas silenciosas
A camuflagem é talvez o maior risco escondido. Uma pessoa pode parecer cooperante, pontual e satisfeita enquanto faz um esforço enorme para parecer. A aliança aparente pode, então, ser exatamente o contrário da aliança real.
As ruturas de retraimento, que já são difíceis de detetar com qualquer cliente, tornam-se aqui quase invisíveis. Por isso, pedir feedback concreto e regular, como sugerem as diretrizes da IACP/AsIAm (2025), deixa de ser um extra. Passa a ser uma condição para saber se existe, de facto, uma aliança.
Um modelo proposto por Robinson (2020), a partir de terapia focada nas emoções com adolescentes autistas, sugere ainda outra leitura. Os mal-entendidos podem ser usados como material terapêutico, em vez de serem apenas obstáculos. O modelo é preliminar e situa as ruturas sobretudo nas dificuldades do cliente, o que o põe em tensão com a ideia de dupla empatia.
Porque sabemos tão pouco
A escassez é real e mede-se. Uma revisão de âmbito recente identificou apenas 15 estudos sobre aliança terapêutica e autismo, com 657 participantes entre os 7 e os 77 anos (Losh et al., 2026). Nenhum usou medidas padronizadas de aliança com adultos com mais de 21 anos. Com a população geral, a meta-análise de Flückiger et al. reuniu quase 300. Não há uma única explicação. Há várias, que se somam e se reforçam.
1. Uma história que tornou a relação impensável
O autismo foi descrito, desde Kanner (1943), como uma «perturbação do contacto afetivo». Durante décadas, a própria ideia de um vínculo terapêutico parecia contraditória com o diagnóstico. Se a pessoa autista é definida pela dificuldade em relacionar-se, estudar a sua relação com o terapeuta parecia uma pergunta sem objeto.
A hipótese do défice de teoria da mente reforçou esta leitura. A ideia de que as pessoas autistas não têm empatia afastou o interesse pelos processos relacionais, que são justamente feitos de empatia recíproca.
2. Dois campos que não se falam
A investigação sobre a aliança nasceu nas tradições psicodinâmica e humanista. Estas tradições têm uma história difícil com o autismo, incluindo a culpabilização das mães nas décadas de 1950 e 1960.
A investigação sobre autismo, por seu lado, cresceu sobretudo no terreno do desenvolvimento, da biologia e das intervenções comportamentais. Nestes modelos, o foco está nas técnicas e nos comportamentos-alvo, e a relação é um meio e não um objeto de estudo. O resultado é uma zona de ninguém entre dois campos.
3. Uma investigação centrada na infância e na biologia
Os adultos autistas foram, durante muito tempo, uma população quase invisível. O esforço concentrou-se no diagnóstico precoce e na intervenção em crianças. Os próprios estudos sobre aliança que existem são, maioritariamente, com crianças e adolescentes.
No Reino Unido, entre 2007 e 2011, 56% do financiamento da investigação em autismo foi para biologia, cérebro e cognição. Apenas 5% foi para serviços (Pellicano, Dinsmore & Charman, 2014). As pessoas autistas e as famílias, quando consultadas, pediram precisamente o contrário: investigação com impacto na vida diária e nos serviços.
4. Instrumentos que não foram feitos para esta população
As medidas de aliança mais usadas pedem ao cliente que avalie, com escalas abstratas, a confiança e o acordo que sente. Para uma pessoa com alexitimia, com um processamento mais literal ou com camuflagem, estas perguntas podem medir outra coisa: o esforço para responder «bem».
As medidas observacionais têm o problema inverso. Baseiam-se em sinais não verbais (contacto visual, expressão facial, tom de voz) calibrados para pessoas não autistas. Uma pessoa autista pode estar profundamente envolvida e parecer distante. Medir mal leva a concluir mal, e a dificuldade de medir desencoraja quem quer estudar.
5. Pessoas que não aparecem nas amostras
Muitas pessoas autistas adultas só recebem o diagnóstico tarde, sobretudo mulheres e pessoas que camuflam. Estão, provavelmente, nas amostras da investigação geral em psicoterapia, mas sem serem identificadas. Ao mesmo tempo, os ensaios clínicos excluem muitas vezes pessoas com perturbações do neurodesenvolvimento, para obter amostras «homogéneas».
6. Uma pergunta que demorou a ser feita por quem a vive
Durante muito tempo, a investigação foi feita sobre pessoas autistas, e não com elas. A investigação participativa e o movimento da neurodiversidade trouxeram outras perguntas: o que torna a terapia segura, o que a torna invalidante, o que faz um bom terapeuta. A maior parte dos estudos qualitativos citados neste texto tem menos de cinco anos.
Uma perspetiva diferente
Há quem argumente que esta escassez é menos grave do que parece. Se a aliança é um fator transteórico e transdiagnóstico, os resultados gerais deveriam aplicar-se também a pessoas autistas.
O problema é que essa generalização nunca foi testada. Os dados qualitativos sugerem que os mesmos princípios se aplicam, mas que a forma de os expressar muda. E é precisamente essa forma que não conhecemos bem.
Os desafios sentidos pelos psicólogos e psicoterapeutas
Os terapeutas também sentem o desencontro, e falam pouco disso. A pouca investigação com terapeutas aponta para uma combinação de falta de formação, insegurança e cansaço relacional.
Faltam-nos mapas
Muitos psicoterapeutas referem não ter tido formação sobre o autismo no adulto nem sobre como adaptar a intervenção (Lipinski et al., 2022). Num estudo com clínicos de serviços comunitários, a frase que deu título ao artigo foi «não saberia por onde começar» (Maddox et al., 2020).
A falta de formação tem um efeito relacional. Um terapeuta inseguro tende a refugiar-se na técnica, a evitar a pessoa ou a encaminhá-la. A pessoa autista, que muitas vezes já passou por vários profissionais, sente essa insegurança.
Perder os instrumentos habituais
Muito do trabalho relacional assenta em sinais que aprendemos a ler sem pensar: o olhar, a expressão, o tom de voz, a resposta emocional às nossas intervenções. Com muitas pessoas autistas estes sinais funcionam de outra forma. O terapeuta pode ficar sem saber se a pessoa está ligada, aborrecida, ferida ou simplesmente a pensar.
Isto gera uma insegurança particular: a sensação de não estar «em contacto». É tentador ler essa sensação como uma característica do cliente. A dupla empatia sugere que é, pelo menos em parte, um limite da nossa própria receção.
O cansaço e a sobrecarga do próprio terapeuta
No estudo de Brook (2022), terapeutas relacionais descreveram sessões dominadas por «tangentes», por grande densidade de informação ou por um ritmo diferente do seu. Descreveram também a sensação de sessões fragmentadas entre «falar do autismo» e «falar da vida». A resposta que encontraram foi persistir e voltar às competências básicas.
A metáfora que propuseram é útil: alternar entre um zoom in, em que o autismo passa para primeiro plano, e um zoom out, em que fica no fundo enquanto se trabalha a experiência humana. O desafio é saber quando fazer cada um.
Tensões com o próprio modelo teórico
Algumas adaptações pedidas pelas pessoas autistas chocam com hábitos de formação. Dar uma opinião direta, explicitar que se gosta do cliente, dar estrutura e instruções escritas, ou partilhar algo de si pode parecer «demasiado» para quem aprendeu a neutralidade ou a não diretividade.
O inverso também acontece. Um terapeuta muito orientado para a técnica pode sentir que a pessoa precisa, sobretudo, de tempo para falar e de ser ouvida sem pressa de resolver. Em ambos os casos, o terapeuta tem de flexibilizar o modelo sem o abandonar.
Contratransferência e sobreidentificação
Terapeutas com ligação pessoal ao autismo, por serem autistas ou terem familiares autistas, relatam maior facilidade de sintonia (Brook, 2022). Relatam também o risco de sobreidentificação: presumir que a experiência do cliente é igual à sua.
No outro extremo, o terapeuta não autista pode sentir frustração, impotência ou até aborrecimento, e sentir culpa por isso. Estes sentimentos são informação clínica e merecem supervisão, não silêncio.
Decisões sem resposta óbvia
Há decisões em que a literatura não ajuda muito. Uma delas é o que fazer quando o terapeuta suspeita de uma PEA não identificada. Nomear pode dar sentido e acesso a apoios. Não nomear pode respeitar o ritmo da pessoa. Os terapeutas do estudo de Brook (2022) tomaram decisões diferentes, e todos descreveram a importância da supervisão.
Constrangimentos do contexto
Um estudo em contexto universitário, com mais de 40 000 clientes, sugere que os clientes autistas beneficiam da terapia tanto quanto os outros, mas precisam de cerca do dobro das sessões (Anderberg et al., 2017). Num serviço com limite de sessões, a aliança pode estar a começar a formar-se quando a terapia termina.
Os espaços, por seu lado, raramente foram pensados do ponto de vista sensorial. O terapeuta pode querer adaptar a sala e não ter como: luz fluorescente, ruído, salas partilhadas.
O privilégio de não ter de aprender
Nick Walker (2021), citado nas diretrizes da IACP/AsIAm, descreve o privilégio neurotípico como o de «não ter de aprender». As pessoas autistas passam a vida a aprender a funcionar num mundo pensado para outros. Ao terapeuta pede-se que faça, durante uma hora por semana, o caminho inverso.
Talvez seja este o desafio mais profundo, porque não é técnico. É aceitar que a nossa forma de estar em relação é uma entre várias, e não a medida de todas as outras.
Perspetivas em tensão
Esta área não tem consensos fechados. As posições abaixo são defendidas por clínicos e investigadores sérios, e muitas vezes completam-se mais do que se excluem.
É preciso uma relação diferente? | São necessárias adaptações específicas em todo o percurso: espaço, comunicação, estrutura (IACP/AsIAm, 2025) | Bastam as condições relacionais de sempre, expressas de forma mais explícita e genuína (Hume, 2022) |
Onde está a dificuldade relacional? | No desencontro entre neurotipos, partilhado pelos dois (Milton, 2012) | Também em diferenças de mentalização do cliente, que se podem trabalhar em terapia (Robinson, 2020) |
Falar ou resolver? | Ser ouvido sem julgamento é, para muitas pessoas, o mais útil | Falar do que não muda frustra; pede-se uma opinião honesta e soluções (Pappagianopoulos et al., 2025) |
Nomear uma PEA não identificada? | Pode dar sentido, autocompaixão e acesso a apoios | Só se for uma preocupação da pessoa; o rótulo pode ofuscar a experiência humana (Brook, 2022) |
Que modelo de compreensão? | Modelo clínico: o diagnóstico de PEA dá nome, avaliação, apoios e direitos | Paradigma da neurodiversidade: diferença e não défice; incapacidade criada também pelo meio |
Quem deve acompanhar? | Terapeutas autistas ou especializados oferecem uma sintonia que outros dificilmente alcançam | Qualquer terapeuta bem formado e humilde pode construir uma boa aliança; a especialização não substitui a relação |
A tensão entre o modelo clínico e o paradigma da neurodiversidade atravessa todas as outras. Na prática, muitos clínicos usam ambos: o diagnóstico como porta de acesso, a neurodiversidade como forma de olhar a pessoa.
Considerações finais
A aliança terapêutica com a pessoa autista adulta não é impossível nem diferente na sua natureza. É um encontro que exige mais explicitação, mais humildade e mais atenção ao que não é dito. O que sabemos aponta nesse sentido. O que não sabemos é ainda muito.
Para a investigação
Desenvolver ou adaptar medidas de aliança com pessoas autistas, e não apenas para elas
Estudar adultos, incluindo os diagnosticados tarde, as mulheres e as pessoas não binárias
Estudar ruturas e reparo: como se manifestam e o que as resolve
Ouvir os terapeutas, incluindo os terapeutas autistas, sobre o que sentem e o que fazem
Fazer investigação participativa, com pessoas autistas na definição das perguntas
Estudar o contexto português, onde praticamente não há dados
Para a prática
Perguntar mais e presumir menos: pela linguagem, pelas experiências anteriores, pelas preferências sensoriais e de comunicação
Pedir feedback concreto e regular, por escrito quando ajuda
Tratar as ruturas como oportunidades e assumir a parte que é nossa
Levar à supervisão o que sentimos, e não apenas o que o cliente faz
Procurar formação feita com e por pessoas autistas
As pessoas autistas passaram muito tempo a ser estudadas como um problema de relação. Talvez esteja na altura de estudarmos a relação que nós, terapeutas, conseguimos construir com elas.





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