Doçura ou Mito? Um Halloween no Espectro
Guia de sobrevivência para a noite mais assustadora do ano, que, para as pessoas autistas, já dura há quase oitenta anos.
Este ano, em vez de abóboras e teias de aranha de plástico, decidimos decorar a casa com monstros a sério. Esqueçam vampiros e lobisomens, que são inofensivos. Os verdadeiros terrores são os mitos sobre o autismo: criaturas que morrem e ressuscitam mais vezes do que qualquer morto-vivo de Hollywood. Entrem, se tiverem coragem. E tragam auscultadores com cancelamento de ruído. A casa é assombrada, mas as luzes fluorescentes do corredor são piores.
A cozinha: a Mãe Frigorífico
Ao fundo ouve-se um zumbido baixo e constante. É ela, a criatura mais antiga da casa, invocada em meados do século XX por especialistas muito respeitáveis: a Mãe Frigorífico. A teoria era simples. Se uma mãe fosse emocionalmente “fria”, o filho tornava-se autista.
Como é possível uma mãe ser um frigorífico? Ninguém explicou se vinha com congelador incorporado, se tinha classe energética A+++ ou se fazia cubos de gelo. Também ninguém explicou porque é que os pais nunca foram acusados de nada. Pelos vistos eram apenas despensas. Gerações de mães carregaram a culpa de algo que nunca causaram. A ciência desligou esta teoria da tomada há décadas, mas a culpa, essa, teima em continuar ligada.
A sala: o Lobisomem das Vacinas
Em 1998 nasceu um monstro: a vacina tríplice (VASPR, ou MMR) causaria autismo. O artigo que o criou foi retirado, o autor perdeu a licença para exercer medicina, e estudos com centenas de milhares de crianças nunca encontraram qualquer relação. Mas, como todo o lobisomem que se preze, o mito volta a cada lua cheia, normalmente acompanhado de um surto de sarampo. Ultimamente tem aparecido com outros disfarces, como o paracetamol na gravidez ou os ecrãs. O monstro muda de fato; a falta de provas mantém-se.
O laboratório: a Poção da Bruxa
Aqui borbulha o caldeirão mais sinistro da casa: o dióxido de cloro, vendido como “solução mineral milagrosa”. Na prática é lixívia, dada a crianças autistas para “curar os sintomas”. A bruxa da Branca de Neve, ao menos, teve a decência de usar uma maçã. Na prateleira ao lado estão as outras poções: terapias de quelação, dietas milagrosas, câmaras hiperbáricas, suplementos a preço de ouro. Nenhuma cura o autismo. Curam, quando muito, a carteira de quem as compra.
A cave: a Cura
Desçam as escadas com cuidado. Na escuridão, há quem procure há décadas a cura para o autismo, com o mesmo entusiasmo com que se procuraria a cura para ser canhoto. A PEA é uma forma diferente de o cérebro se desenvolver e funcionar, não uma infeção. O que muitas vezes precisa de apoio é a ansiedade, a depressão, o esgotamento, a solidão. Curiosamente, muitas destas dificuldades nascem de viver num mundo que insiste em tratar a diferença como avaria.
O cemitério: a Epidemia Zombie
“Os diagnósticos dispararam! Estamos a ser invadidos!” Calma. Os autistas não saíram das campas como zombies. Sempre cá estiveram. Só que lhes chamavam “esquisitos”, “tímidos”, “excêntricos” ou “o tio que só falava de comboios”. O que mudou foram os critérios de diagnóstico, o conhecimento e o facto de finalmente se olhar para mulheres e adultos. Não é uma epidemia. É uma lanterna acesa num quarto que esteve às escuras durante muito tempo.
O sótão: o Fantasma Sem Amigos
Lá em cima vive um fantasma solitário. Dizem que é autista e que não quer amigos, nem relações, nem amor. Que não tem empatia. Curioso: quem o afirma raramente perguntou alguma coisa ao fantasma. Muitas pessoas autistas desejam ligação e intimidade; o que lhes falta é um mundo que não as castigue por comunicarem de outra forma. Quanto à empatia, a dificuldade em compreender o outro costuma ser mútua (o chamado problema da dupla empatia). Mas é sempre mais fácil assombrar o outro lado.
O quarto de criança: a Abóbora dos 18 Anos
Este é o feitiço mais estranho da casa. Para muitos serviços, à meia-noite do 18.º aniversário o autismo transforma-se em abóbora e desaparece. Os adultos autistas existem, trabalham, estudam, amam, envelhecem, e muitos só recebem o diagnóstico aos 30, 40 ou 60 anos. Ninguém lhes devolveu os sapatinhos de cristal.
O bengaleiro: as máscaras
À saída, encontram ainda alguns monstros menores, mas persistentes:
“Toda a gente é um bocadinho autista.” Tal como toda a gente está um bocadinho grávida.
“Não pareces autista.” Qual é a cara do autismo, exatamente? Há disfarce à venda?
“O autismo é coisa de rapazes.” As mulheres autistas agradecem décadas de diagnósticos falhados.
“São todos génios da matemática.” Uns são, outros detestam números, como qualquer pessoa.
E
aqui está a grande ironia desta noite. Para muita gente, o Halloween é o único dia do ano em que se põe uma máscara. Para muitas pessoas autistas, é o contrário: a máscara usa-se todos os dias, para parecerem “normais” o suficiente, e o cansaço que isso provoca é um dos verdadeiros terrores desta história.
Doçura ou mito?
Este ano escolhemos a doçura: aceitação, acomodações, diagnóstico acessível em todas as idades e, sobretudo, ouvir as próprias pessoas autistas. Os mitos podem ficar à porta, a bater à campainha. Não abrimos.
E se, no fim da noite, ouvirem um zumbido vindo da cozinha, não se assustem. É só o frigorífico, e eventualmente ouvem-o com maior facilidade porque eventualmente poderão ter uma hipersensibilidade auditiva. Não é a vossa mãe.





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