Preto no branco

Uma expressão conhecida de muitos e que se pode aplicar nos dias de hoje. Precisamos de falar sobre este assunto do racismo e da discriminação e é fundamental que o possamos fazer de forma consciente e verdadeira. Até porque se continuar a ser encapotada, mascarada ou maquilhada, apenas vai levar a que muitos continuem a ser vitimas, enquanto outros continuem a ser agressores e a grande maioria espectadores neutros. Acredito que muitos continuaram a ser aquilo que o são hoje até porque faz parte do seu sistema de valores e crenças fundamentais. Mas pode haver a possibilidade de ajudar a esclarecer e a mudar a forma de pensar e sentir sobre esta questão. Com a actuação do policia que levou à morte do George Floyd [escrevo propositadamente isto porque a situação ainda não foi julgada em tribunal] o tema voltou à tona e são muitos aqueles que se insurgem. As pessoas autistas compreendem bem do que se trata quando falamos de discriminação. E quando estas pessoas autistas não são caucasianas a discriminação é maior. É porque o Espectro do Autismo se reveste de todas as cores é preciso olhar para a forma como as pessoas Afro-descendentes e que são autistas estão a viver as suas situações.

"Nunca conheci outra coisa na vida!", diz Jorge (nome fictício). Jorge é Português, a sua mãe é Angolana e o seu pai Português. "Desde que me lembro que as pessoas me olham de uma forma diferente. Mesmo quando era uma criança.", acrescenta. "Umas vezes era por causa da cor da minha pele. Uma vez uma criança no colégio foi buscar um pano molhado e começou a esfregar o meu braço. Mais tarde ela disse à Educadora que era para tirar o sujo.", continua dizendo. "Não sei o que foi mais difícil para mim naquele dia, sentir que a minha colega não sabia que havia pessoas com tonalidades de pele diferentes ou sentir o pano molhado na minha pele. Uns tempos mais tarde os meus pais levaram-me ao médico e eu descobri que era autista.", termina. Sinto que o Jorge já conta aquela mesma história ocorrida consigo há mais tempo, mas ainda assim não deixo de conseguir sentir a sua mágoa ao dize-la novamente.


"Eu podia continuar a contar-lhe horrores que fui vivendo ao longo da minha vida, se quiser?". Sinto que o Jorge teve todo um conjunto de episódios marcantes e traumáticos e que acabam por influenciar algumas das suas formas de sentir, pensar e agir. Penso compreende-lo. Sempre tive amigos de diferentes etnias e fui assistindo a situações reais de discriminação e em que algumas me envolvi para tomar uma posição face ao sucedido. O Jorge, enquanto pessoa autista Afro-descendente foi-me trazendo muitas das dificuldades que esta comunidade vai passando ao longo da vida. Desde as dificuldades sentidas no próprio diagnóstico. Se há dificuldades no processo de diagnóstico no Espectro do Autismo de uma forma global, pelo menos em determinados grupos ou faixas etárias. Na comunidade Afro-descendente parece que as dificuldades ainda são maiores. Mas não só, o facto da pessoa ser autista leva a que em alguns momentos tenha maior dificuldade na sua auto-regulação. E o Jorge sente que várias vezes as pessoas não sentem que aquela desregulação seja devido á minha condição mas sim devido à minha etnia. Frases como "Lá está o preto novamente com raiva" é algo que ouvi muito frequentemente, acrescenta Jorge. Ou até mesmo no local de trabalho também acaba por acontecer determinados episódios semelhantes, diz Jorge. "Por exemplo, já ouvi dizer que o facto de por vezes trabalhar mais lento tem a ver com o facto de ter descendência Africana e ser um preguiçoso.", remata.


Mas esta questão não fica apenas a este nível. Se fizermos uma revisão da literatura dos estudos realizados com população autistas e formos verificar a etnia ou nacionalidade dos participantes, verificamos que uma larga percentagem, acima dos 60% são autistas caucasianos. Facto que leva a algo semelhante que se tem passado com as raparigas/mulheres autistas. As suas características não se vêm representadas nestes dados e como tal os reestudados apresentados não expressam a globalidade do espectro. Atendendo a que instrumentos de avaliação, diagnóstico e rastreio são construídos com base nesta mesma informação, assim como as intervenções. Conseguimos compreender como a comunidade Afro-descendente não está a ser considerada na expressão do seu autismo e a não ser tão facilmente diagnosticada e como tal mais frequentemente negligenciada. E esta afirmação não é meramente opinativa. Está descrito em alguns estudos científicos a disparidade do número de diagnósticos entre crianças autistas caucasianas e Afro-americanas e Hispanicas.


"É por causa de ser diferente?", pergunta-me o Jorge em modo retórico. "Se é por ser diferente e por não saberem o que é o autismo, podem sempre perguntar, perguntar-me ou simplesmente informarem-se. Já nem falo acerca do facto de ser negro. Parece-me absurdo que depois dos 4-5 anos de idade as crianças, inclusive com a ajuda dos pais e educadores não saibam que há diferentes etnias e que isso leva a que todos tenhamos características únicas.", conclui. "Continua a haver, ainda nos dias de hoje, situações de crianças autistas em que os pais da turma se reunem para encontrar uma estratégia para retirar a criança da escola", acrescenta o Jorge. "E peço por favor para não me perguntarem para explicar melhor a situação, porque aquilo que sinto naqueles momentos é que parece haver uma justificação para se discriminar.", volta a concluir. O Jorge não me conta nada de novo, e são infelizmente muitas as situações que os meus clientes me perguntam ou já tomaram a decisão de que não querem que ninguém saiba que são autistas, seja na escola mas também no trabalho. Quando partilho isto com o Jorge ele responde-me com uma risada dizendo, "No meu caso é mais difícil de camuflar o tom de pele. Mesmo que duvidasse disso aquele episódio na creche com a minha colega e o pano molhado tinha-me provado isso.".


Somos diferentes, é isso? Sempre o fomos e em várias questões. Rapazes e raparigas têm as suas diferenças. Pessoas oriundas de diferentes países ou zonas do mesmo país têm diferenças. Crianças, jovens e adultos apresentam diferenças, seja entre as pessoas mas também com eles próprios ao longo do desenvolvimento. Os gostos são claramente diferentes mesmo que dentro da mesma categoria. O Autismo é todo ele diferente, dai que seja designado de Espectro do Autismo. Então porquê o racismo e a discriminação? Porque achamos que uns são mais agressivos que outros? Ou porque são mais propensos a determinados comportamentos? Muito provavelmente porque somos mais ignorantes e escolhemos continuar a sê-lo. Se no principio éramos apenas ignorantes e não tínhamos ao nosso alcance a possibilidade de poder esclarecer as nossas dúvidas. A partir de determinado momento é uma escolha nossa e procuramos ser congruentes com as nossas crenças e representações sociais. De que os autistas são menos capazes e que os negros são mais violentos. E que os autistas negros são pior do que todos os outros.

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